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Visitas dos Presidentes dos EUA à China: de Nixon a Trump

Bandeiras dos Estados Unidos e China numa mesa de reunião com objetos antigos e três homens ao fundo.

A 25 de outubro de 1971, a Assembleia-Geral das Nações Unidas (ONU) votou a retirada do assento ao Governo de Taiwan, passando a reconhecer a República Popular da China e o executivo de Pequim como os únicos representantes legítimos da China na organização. Nessa altura, porém, a diplomacia dos Estados Unidos da América (EUA) ainda mantinha o reconhecimento formal do Governo de Chiang Kai-shek, derrotado pelos comunistas na guerra civil chinesa e refugiado em Taiwan.

Ainda assim, as peças do quebra-cabeças internacional já se estavam a rearrumar. Depois de Richard Nixon ter aberto caminho com uma deslocação oficial a Pequim, em 1972, apenas dois presidentes norte-americanos não fizeram uma visita à República Popular da China (RPC): Jimmy Carter (1977-81) e Joe Biden (2021-25).

1972 - Richard Nixon

Nixon foi o primeiro Presidente dos EUA a deslocar-se a Pequim após a consolidação do regime comunista, e fê-lo antes mesmo de Washington reconhecer oficialmente a República Popular da China (RPC). “O seu aperto de mão atravessou o mais vasto oceano do mundo: 25 anos sem comunicação”, afirmou o primeiro-ministro Zhou En-lai ao receber o chefe de Estado norte-americano.

Na viagem histórica, realizada em fevereiro de 1972, Nixon encontrou-se com o ditador chinês Mao Zedong e dedicou horas a conversas com Zhou En-lai. Num encontro reservado, disse-lhe que “há apenas uma China, e Taiwan é parte da China”. Nessa mesma reunião, comprometeu-se a pôr termo a declarações que apresentassem o estatuto da ilha como indeterminado e a não apoiar qualquer movimento de independência taiwanês. A inflexão na política externa dos EUA ficava explícita: “Procuramos a normalização de relações com a República Popular”.

De acordo com uma transcrição mais tarde desclassificada, a dada altura Nixon sublinhou o peso do discurso público: “O problema aqui, senhor primeiro-ministro, não é o que vamos fazer; o problema é o que vamos dizer sobre isso. Como disse ontem, o meu currículo mostra que faço sempre mais do que posso dizer, depois de ter tomado a decisão sobre o rumo da nossa política”.

A formulação oficial do que decidiram comunicar consta do Comunicado de Xangai, a declaração conjunta onde a normalização de relações entre a China e os EUA é apresentada como um interesse mais amplo. Aí se lê também que “ambos desejam reduzir o risco de conflito militar internacional” e que “nenhum deve procurar hegemonia na região da Ásia-Pacífico”.

Na última noite em território chinês, ao erguer o copo num banquete, Nixon disse: “Estivemos aqui uma semana. Foi a semana que mudou o mundo”. O episódio foi contado pelo próprio Presidente, ao evocar as memórias de uma deslocação determinante nas relações bilaterais.

1975 - Gerald Ford

“Já resolveu o problema do desfasamento horário?”, atirou o vice-primeiro-ministro chinês, Deng Xiaoping, no início de uma reunião centrada em abordagens à União Soviética. Em 1975, as limitações de saúde de Zhou En-lai fizeram com que Gerald Ford conduzisse as conversações com Deng.

Apesar de, nas conversas, surgirem assuntos ainda hoje politicamente sensíveis - Taiwan, Dalai Lama, trocas comerciais ou minorias chinesas -, num resumo sobre as visitas presidenciais norte-americanas ao país, a estação estatal chinesa CGTN salientou sobretudo que as duas partes reafirmaram o compromisso com o Comunicado de Xangai. A revista Time escrevia que “Funcionários dos EUA acreditam que o seu trabalho mais importante vai ser estabelecer uma continuidade de relações que possa sobreviver à morte de Mao [Zedong]”. Quando se encontrou com Ford, Mao foi direto ao admitir que estava doente; viria a morrer menos de um ano depois.

Portugal surgiu de passagem numa conversa entre Ford e Mao. O Presidente norte-americano afirmou que “a União Soviética está a tentar explorar algumas fraquezas em Portugal e em Itália”, acrescentando: “Temos de o impedir, e estamos a tentar fazê-lo”. Mao concordou e comentou que “agora Portugal parece estar mais estável” e “melhor”. Ford respondeu: “Sim, nas últimas 48 horas tornou-se bastante encorajador. As forças que apoiamos moveram-se com muita força e tomaram a ação necessária para estabilizar a situação”. O 25 de novembro tinha ocorrido poucos dias antes.

Sobre Taiwan, Deng foi perentório quanto à posição de Pequim: “Não acreditamos numa transição pacífica”. Sustentou essa ideia com o argumento de que “há uma quantidade enorme de contrarrevolucionários lá, e a questão de que método vamos assumir para resolver o nosso problema interno é algo que acreditamos que pertence aos assuntos internos da China”.

Após regressar, Ford descreveu o alcance das conversações num discurso na Universidade do Havai: “Ambos os lados consideraram as nossas discussões significativas, úteis e construtivas. A nossa relação está a tornar-se uma característica permanente do panorama político internacional”.

1984 - Ronald Reagan

Em 1984, Ronald Reagan foi recebido pelo Presidente chinês Li Xiannian com uma salva de 21 tiros numa cerimónia de boas-vindas na Praça de Tiananmen. Seguiu-se um banquete no Grande Salão do Povo, como recordou o jornal digital Politico. À chegada a Pequim, The New York Times assinalou que elementos da delegação norte-americana destacavam a oportunidade de Reagan surgir três vezes na televisão nacional durante a visita.

Reagan fechou acordos relativos a intercâmbios culturais e científicos, cooperação económica e desenvolvimento de energia nuclear. A meio do programa, voou até Xian com a mulher, Nancy, para visitar os guerreiros de terracota. Segundo relatos, ao olhar para um cavalo de terracota, perguntou: “Posso tocar-lhe? Sei que não me pode dar coices”.

Num discurso à nação transmitido pela rádio, o Presidente norte-americano sublinhou a vontade partilhada de ambos os países em “resistir a agressores que violam os direitos de nações que seguem a lei”. Destacou também o esforço de modernização e a abertura da China ao Ocidente.

Reagan dirigiu-se ainda a estudantes universitários. “Nenhum de nós é uma potência expansionista. Não desejamos a vossa terra, nem vocês a nossa. Não desafiamos as vossas fronteiras. Não provocamos as vossas ansiedades. De facto, tanto os EUA como a China são forçados a armarem-se contra os que o fazem”, declarou ao discursar no auditório da Universidade de Fudan.

A intervenção incluiu críticas ao modelo político chinês - “elegemos o nosso Governo através do voto do povo” - e, em simultâneo, uma defesa de valores norte-americanos que hoje contrastam com a realidade, como o reconhecimento das contribuições culturais dos imigrantes. “Dizemos que somos uma nação de imigrantes e isso é verdadeiramente o que somos”, afirmou Reagan.

1989 - George H. W. Bush

George H.W. Bush esteve em Pequim em fevereiro de 1989, cerca de um mês após ter tomado posse. A capital chinesa era-lhe familiar: entre 1974 e 1975, chefiara o gabinete de ligação dos EUA em Pequim, período em que ganhou fama por se deslocar de bicicleta. Segundo afirmou durante a visita, tornou-se o primeiro Presidente norte-americano a falar em direto na televisão estatal chinesa CCTV. “Esta relação vai crescer e vai prosperar. Temos problemas económicos e a China tem alguns, mas juntos vamos resolvê-los e seguir em frente”, disse.

No brinde do banquete de receção, Bush pai referiu: “Nos últimos anos, vimos uma expansão encorajadora de contactos familiares, viagens, comércio indireto, e outras formas de intercâmbio pacífico no estreito de Taiwan, que não veio de pressão externa, mas dos interesses do próprio povo chinês”. Acrescentou que os EUA viam com bons olhos “o papel alargado que a China assumiu no mundo” e apontou a “relação económica crescente” entre ambos.

1998 - Bill Clinton

A deslocação de Bill Clinton ficou associada a divergências sobre direitos humanos. Foi o primeiro Presidente dos EUA a visitar a China depois do massacre de Tiananmen, e o assunto não foi evitado. “Acredito, e o povo americano acredita, que o uso de força e a perda trágica de vidas foram errados. Acredito, e o povo americano acredita, que a liberdade de expressão, associação e religião são, como reconhecido pela Carta da ONU, um direito das pessoas em toda a parte”, afirmou o Presidente, citado por The New York Times. Segundo noticiou então a BBC, o Presidente chinês, Jiang Zemin, respondeu que a ação das autoridades tinha sido necessária para garantir estabilidade.

Apesar do desacordo, as informações noticiosas indicam que os dois líderes concordaram em deixar de apontar armas nucleares um ao outro e que chegaram a entendimentos políticos e económicos. Numa conferência de imprensa em Hong Kong - paragem além de Pequim, Xian, Xangai e Guilin -, Clinton reconheceu que não houve o avanço esperado na área comercial, mas afirmou ter “um entendimento muito mais claro” da perspetiva chinesa, nomeadamente quanto a uma eventual adesão à Organização Mundial do Comércio.

2001, 2002, 2005, 2008 - George W. Bush

George W. Bush foi o Presidente norte-americano que mais vezes se deslocou oficialmente à China. Participou na cimeira da cooperação económica da Ásia-Pacífico, reuniu-se com os presidentes Jiang e Hu Jintao e marcou presença na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. Entre estas viagens, destaca-se a de 2002, já num cenário pós-11 de Setembro e assinalando três décadas desde a visita de Nixon. Nesse contexto, foi endereçado - e aceite do outro lado - um convite para Jiang visitar os EUA.

“Reconhecemos que o terrorismo é uma ameça em ambos os países e vemos de forma positiva a cooperação da China na nossa luta contra o terror. Encorajo a China a continuar a ser uma força para a paz entre os seus vizinhos - a Península Coreana, o Sudeste Asiático e o Sul da Ásia”, afirmou Bush filho. Na mesma ocasião, Jiang disse que os dois países tinham acordado cooperar em vários sectores, da proteção ambiental à prevenção de HIV/sida, e que a China defendia a reunificação pacífica segundo o modelo ‘um país, dois sistemas’ como via para a questão de Taiwan.

Numa intervenção na Universidade Tsinghua, Bush resumiu o posicionamento norte-americano sobre a ascensão chinesa: “A China está a crescer, e a América acolhe de forma positiva o surgimento de uma China forte, pacífica e próspera”.

2009, 2014 e 2016 - Barack Obama

Barack Obama reuniu-se com o Presidente Hu e foi o primeiro líder norte-americano a viver a transição para a era de Xi Jinping. Passou por Xangai, Pequim e Hangzhou. Em 2009, foi recebido com um tapete vermelho, guarda de honra e um ramo de flores entregue por uma menina, antes de um jantar onde houve uma demonstração de como preparar massa chinesa.

Apesar desse cerimonial, também existiram constrangimentos: foi recusada a transmissão televisiva, na estação estatal, de um encontro, e uma entrevista concedida por Obama a uma publicação chinesa acabou censurada. Não foi o único episódio nas visitas ao país. Em 2016, foi notória a limitação do acesso de jornalistas à cimeira e ocorreu um incidente na saída do Air Force One, que levou o Presidente a descer pelas escadas incorporadas no avião - normalmente usadas em destinos com preocupações de segurança -, em vez das escadas amovíveis com tapete vermelho, escreveu The New York Times. “Este é o nosso país”, frisou um funcionário chinês perante membros da comitiva norte-americana.

Numa sessão com estudantes em 2009, citada pela ABC News, Obama procurou contrariar a inevitabilidade do confronto: “A noção de que devemos ser adversários não está predestinada, não quando consideramos o passado. Na verdade, por causa da nossa cooperação, tanto os EUA como a China são mais prósperos e mais seguros”.

Ainda assim, apesar dos percalços - ou sinais de afirmação -, registaram-se avanços diplomáticos. O principal foi o acordo climático entre Washington e Pequim: os EUA comprometeram-se a cortar as emissões de carbono em pelo menos 26% em 2025 face aos níveis de 2005, enquanto a China assumiu atingir o pico das emissões por volta de 2030.

Os progressos não se limitaram ao clima. “Ambos os países fizeram progresso importante em áreas como o combate às alterações climáticas, o avanço das negociações sobre o tratado bilateral de investimento, a criação do mecanismo de confiança mútua entre as duas forças armadas, o combate ao cibercrime, a resposta à epidemia de Ébola em África e a obtenção de um acordo abrangente sobre a questão nuclear iraniana”, lê-se na nota do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês em 2016.

Nesse documento, refere-se que “a construção de um novo modelo de relações entre grandes potências, como a China e os EUA, alcançou resultados substanciais”. Ao mesmo tempo, Pequim assinala a sua oposição ao “uso” de temas de direitos humanos por outros países para “interferirem” nos seus assuntos internos.

2017 - Donald Trump

A primeira visita de Donald Trump à China aconteceu já no seu primeiro mandato, em novembro de 2017. Foi enquadrada como uma “visita de Estado reforçada”, com guarda de honra militar e um jantar sem precedentes na Cidade Proibida.

Se, na campanha presidencial, Trump multiplicou críticas a Pequim - chamando “inimigo” à segunda maior economia do mundo e acusando-a de “violar” a economia norte-americana -, durante a deslocação oficial adotou um registo de entusiasmo. “Há uma grande química, e penso que vamos fazer coisas tremendas, tanto para a China como para os EUA”, disse, citado pela Reuters.

Também se repetiram as palavras elogiosas para Xi: Trump afirmou ter um “sentimento caloroso” em relação ao líder chinês e declarou que este “é um homem muito especial”. Na mesma visita, afirmou de forma explícita que não responsabilizava a China pelo desequilíbrio da balança comercial, atribuindo essa situação “às anteriores administrações [americanas]”.

Trump colocou a Coreia do Norte com capacidade nuclear no topo das ameaças internacionais e sugeriu que “a China consegue resolver este problema com facilidade e rapidamente”, apelando à intervenção de Xi. “Apelamos a todas as nações para imporem sanções e resoluções do Conselho de Segurança da ONU e a cessarem negócios com o regime norte-coreano. Todas as nações devem unir-se para assegurar que este regime não possa ameaçar o mundo com as suas armas nucleares”, defendeu Trump. Ainda assim, uma análise na NPR observou, na altura, que a China não dava sinais de que fosse aumentar a pressão sobre o país vizinho.

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