Caro leitor,
Estar ausente durante algumas semanas tem este efeito: percebemos que há coisas que parecem imóveis e, ao mesmo tempo, detalhes que mudam tudo. Foi o que me aconteceu - e, desta vez, as notícias são boas. Grande parte do ruído mantém-se: Trump (doido), o estreito (impasse), a Europa (crise), o pacote laboral (fracasso), o Estado (sem conserto). Mas, no fio dos dias, uma ideia ficou mais nítida: a tal maioria de direita - essa construção governativa que a esquerda invoca aos gritos há dois anos e a que se agarra como papão e como bóia - afinal não passa de uma fantasia.
A ficção da maioria de direita
Não digo isto com espanto. Já escrevi aqui que “no dia em que a sua subsistência depender do Chega, este Governo acabou”. Quem ainda hesitar pode descansar: acabou a dúvida.
Primeiro, veio a aproximação de Ventura às leituras da esquerda sobre o pacote laboral, um golpe sério na narrativa de que Montenegro e Ventura estariam condenados a caminhar juntos. Depois, surgiu a reação repugnante do líder do Chega aos crimes hediondos cometidos por polícias numa esquadra de Lisboa - uma resposta que só reforça aquilo que é evidente.
André Ventura e Luís Neves jamais poderiam sentar-se no mesmo governo. E Montenegro, que à terceira acertou em cheio na escolha do ministro da Administração Interna, não tem folga para brincar com assuntos sérios. O Chega não é - nem será - parceiro deste Governo. Ponto.
O aviso dos Patriotas pela Europa no Porto
Um encontro no Porto, há cerca de um mês, ajuda a completar o retrato. Durante três dias, no Palácio da Bolsa, juntaram-se eurodeputados dos Patriotas pela Europa, o grupo europeu que agrega as direitas radicais/populistas na União Europeia (UE). Todos bateram palmas ao crescimento do venturismo em apenas sete anos, mas deixaram um alerta: há “sempre um risco” quando se cresce depressa demais.
Lembro-me de, em criança, ouvir que quem esticava muito num curto espaço de tempo acabava com a coluna a pedir socorro. O Chega sofre exactamente desse problema: proclama-se de direita, mas não é um partido direito - nem um partido de gente direita.
Os sintomas do crescimento continuam à vista (a percentagem de militantes infrequentáveis e a fuga de autarcas são, por si, impressionantes). E, do lado dos parceiros europeus, houve conselhos claros para Ventura: abrande, escute mais os aliados e não confie em excesso no caminho que acha estar a fazer.
O recado mais sonoro foi simples. Se os eleitores tendem a responsabilizar quem governa e se quem governa não atravessa tempos pêra doce, talvez a estratégia mais inteligente para o Chega seja manter-se firme na oposição. Nada de sustentar maiorias de terceiros. Para Montenegro, esta conclusão não é novidade.
O jogo de Montenegro: AD, IL e o PS em ebulição
O primeiro-ministro não confia em Ventura. A legislatura está presa ao compromisso de não celebrar acordos de governo com o Chega, e Montenegro nunca escondeu que a sua jogada é outra: somar AD e IL. Tentou-o nas últimas legislativas, mas Rui Rocha recusou. Ainda assim, há dias, num debate com Mariana Leitão no Parlamento, Montenegro voltou a deixar claro que não desistiu dessa nesga.
Foi mais ou menos assim: "O nosso Bloco Central não é PSD/PS. É AD/CDS/IL. Saudamos e contamos com a Iniciativa Liberal para lá chegar".
Quase ninguém levou a frase demasiado a sério. Os liberais estão magrinhos, a AD não descola nas sondagens, e os milhões que o Governo depositou nas CCDR não chegam às feridas abertas pelas tempestades de janeiro/fevereiro - já vamos em abril/maio. Quanto ao alívio de ir encher o depósito a Espanha, isso serve apenas a quem vive na Raia; e, na Raia, vive quase ninguém.
E somar AD e IL - para quê? Nas últimas legislativas, a AD teve 31%, a IL teve 5% e o Chega 22%. Só faria sentido se o Bloco Central de Montenegro disparasse, se o Chega de Ventura tombasse, se o Governo AD conseguisse impressionar. Mas de que forma, se o reformismo segue acanhado e os tempos cheiram a vacas magras?
Há sondagens por aí a apontar para recuperação do PS e para Carneiro a discutir o lugar com Montenegro. Só que, na prática, o primeiro-ministro nem vale a pena gastar energia com isso: o PS não quer que estas sondagens sejam verdade.
Pedro Nuno Santos saiu de gatas, mas tem uma coisa que nem todos conseguem ter, chamada carisma. Bastou descer de S. João da Madeira a S. Bento, envolto numa aura de líder de uma nova esquerda, para lançar o partido no caos. Os pretendentes ao lugar de Carneiro surgem como coelhos tirados da cartola; Carneiro acabou de ser reeleito com quase 100% dos votos e, ainda assim, já há fila para o enterrar: Cordeiro, Vieira da Silva, Medina - o PS não dorme.
Sinais nas sondagens e o teste da governação
Mais favoráveis ao Bloco Central da AD são outras sondagens, essas sim, que sugerem jovens a abandonarem Ventura rumo aos liberais. Talvez haja algum efeito Cotrim; talvez pese o facto de Ventura poupar polícias violadores; talvez a overdose televisiva do líder do Chega já tenha deixado erisipelas.
Se os socialistas continuarem entretidos a destruir-se uns aos outros e se Ventura persistir no registo bacalhau a pataco - propor um corte na idade da reforma é gozar com o pagode, e até Pedro Passos Coelho se apressou a afastar-se dessa pouca vergonha -, então Montenegro ainda pode crescer. Mas isso depende dele.
Depende (voltamos sempre a Passos) da capacidade que tenha ou não tenha “para ser competente e tratar do assunto” em vez de se limitar a “gerir o dia a dia como o dr. António Costa”.
Uma taxa sobre os lucros extraordinários das empresas de energia faz sentido. Já montar uma sessão de estadão à Sócrates, com ministros a entoar o hino no anúncio de um plano de médio prazo com inegável potencial reformista, é falhar o essencial: estes tempos pedem bom senso e não têm paciência para festas.
Nada garante que Montenegro o consiga. Passos não sairá do palco; diz que ver-se-á “daqui a dois, quatro anos …”. Mas, se por agora há boas notícias, convém festejá-las.
O que o Chega pode (e não pode) ser para o Governo
O Chega, de vez em quando, dá jeito - ao Governo, para regular a imigração; ao PS, para acabar com portagens. Só que uma coisa é ser útil em momentos, outra é sustentar uma maioria estável.
O bacalhau a pataco de Ventura não encaixa com Luís Montenegro. O Chega, no fim de contas, não serve para nada.
Até à próxima semana.
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