Contexto: Colombiamar 2025 e o desafio de drones navais
Numa deslocação a Cartagena, em ambiente de Zona Militar, assisti à entrada em funcionamento de um protótipo de drone do tipo lancha da Armada da Colômbia. Trata-se de um projecto em desenvolvimento por alunos do curso de Engenharia Electrónica da Escuela Naval de Cadetes Almirante Padilla, que marcaram presença no desafio naval de drones integrado na Colombiamar 2025. Na mesma competição participaram também várias universidades colombianas com os seus próprios protótipos, entre as quais a Universidade Nacional da Colômbia e a Instituição Universitária ITM.
USV tipo lancha da Armada da Colômbia desenvolvido na Escuela Naval de Cadetes Almirante Padilla
Ao longo do evento foi possível entrevistar os estudantes envolvidos no trabalho, responsáveis pelo sistema de controlo do modelo. Explicaram que integram uma equipa coordenada pelo professor Carlos Gutiérrez, docente da disciplina de electrónica, e que a base do projecto é uma plataforma de superfície observada no local: uma unidade de superfície autónoma (USV). O objectivo passa por apoiar actividades militares, académicas e de inovação tecnológica, com potencial para contribuir para a missão da Armada Nacional.
Segundo o que foi relatado, existe actualmente um USV adquirido em 2015, que tem beneficiado de alguns orçamentos destinados a evoluções e testes. A componente mais forte mantém-se na formação académica, mas o esforço também se tem concentrado em introduzir capacidades mais recentes, como navegação, controlo remoto e outras melhorias. Este protótipo pretende evidenciar precisamente esses avanços que a alma mater da ARC tem vindo a desenvolver.
Um dos entrevistados foi o Tenente de Navio Andrés Felipe Bustamante, membro do grupo USV. O seu núcleo de trabalho é composto por cinco oficiais do curso da Faculdade de Engenharia Electrónica.
Perguntas e respostas com o Tenente de Navio Andrés Felipe Bustamante (grupo USV)
ZM: Pode indicar as características técnicas do USV?
“A embarcação tem de eslora, ou seja, de comprimento, 2.50 metros; de manga, 1.00 metros de largura; o pontal, que é a altura da embarcação, tem aproximadamente 0.38 metros; e o calado, que é a parte que fica submersa, é de 0.20 metros. Do mesmo modo, esta embarcação dispõe de propulsão por jacto e tem um sistema de alimentação através de quatro baterias monofásicas de 12 voltios cada uma; estão a ser realizados testes com total sucesso no âmbito do desafio naval actual.”
ZM: Qual é o alcance de controlo e qual o alcance máximo que pode atingir este veículo naval não tripulado?
“Estamos a explorar a autonomia desta embarcação. Este projecto encontra-se em período de investigação por este grupo, uma vez que é muito variável e é afectada pelas condições meteo-marinhas; por isso temos de avaliar diferentes tipos de ondulação, bem como o desempenho em águas pouco profundas e calmas. Há ainda diferenças relacionadas com a velocidade a que o piloto faz a condução e com a potência aplicada: se for usada potência máxima, essa autonomia diminui para duas horas ou uma hora e meia.”
ZM: Tendo em conta os desenvolvimentos recentes da guerra entre a Ucrânia e a Rússia, os veículos navais não tripulados tornaram-se armas muito eficazes contra uma força naval avançada. Está previsto, no futuro, estudar a possibilidade de utilizar drones kamikaze?
“Quanto ao que está a ser considerado no âmbito académico, neste momento a Colômbia está a desenvolver estas investigações para poder colocar ao serviço sistemas não tripulados. No final, a missão geral é que a vida humana não seja colocada em risco - neste caso, a vida dos nossos tripulantes - nas diferentes funções que podemos cumprir enquanto Armada Nacional. É igualmente importante chegar ao campo tecnológico militar do país: em diferentes empresas, diferentes academias e universidades estão a ser criados protótipos que vão incorporando certos desenhos e que geram capacidade de inovação tecnológica. Aqui vemos como os alunos e até os próprios tripulantes da instituição podem verificar e melhorar os nossos sistemas de navegação e de controlo, neste caso remoto, que o sistema actualmente possui. Cada desenvolvimento representa um custo adicional, algo que assumimos no nosso papel de estudantes para podermos inovar e contribuir, de alguma forma, para a missão da instituição”.
Trata-se, sem dúvida, de um avanço relevante. Ainda assim, e apesar do empenho de cadetes e docentes, permanece a percepção de uma visão limitada por parte das chefias de topo e de um desconhecimento acentuado sobre a realidade da guerra moderna. A isto soma-se o facto de estas inovações não serem orientadas para fins militares, devido às próprias políticas definidas a partir do governo nacional, o que acaba por desmotivar quem desenha e constrói.
Tal como em muitos progressos já noticiados pela Zona Militar - em diferentes áreas e ramos -, observa-se falta de coerência por ausência de objectivos bélicos concretos. O resultado é que projectos desta natureza acabam quase totalmente empurrados para o domínio civil e, numa situação de conflito real de qualquer tipo, ficam sem utilidade prática.
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