Depois de uma semana que, no plano político e diplomático, pode resumir-se a um período particularmente conturbado, o governo provisório do Peru - ainda que com decisões inicialmente pouco coerentes - acabou por oficializar a selecção e a aquisição de novos caças F-16 Block 70 para dotar a Força Aérea Peruana (FAP). Esta decisão encerra, na prática, as expectativas da Saab e da Dassault, que tinham apresentado os seus Gripen E/F e Rafale como alternativas, e coloca o país no caminho para se tornar o 29.º operador do Fighting Falcon a nível mundial. Na América do Sul, o Peru passará a ser o quarto utilizador a integrar um caça de origem norte-americana deste tipo, depois da Venezuela na década de 1980, do Chile em meados dos anos 2000 e, mais recentemente, da Argentina com a chegada dos F-16AM/BM ex Real Força Aérea da Dinamarca.
O assunto está longe de ser secundário, quer para o Peru quer para o restante espaço regional. A autorização e a aprovação por parte dos Estados Unidos para a venda da versão mais moderna do Viper actualmente em produção constitui um sinal político, diplomático e militar dirigido a outros países sul-americanos - como o Chile e a Argentina - ao confirmar que o Block 70 representa o patamar máximo, em termos de origem e de equipamentos norte-americanos na vertente aérea, a que se pode aspirar. Naturalmente, isto sem entrar nas variáveis financeiras e económicas indispensáveis para viabilizar uma operação desta dimensão.
Perspectivas para o Chile
No caso do Chile, importa recordar que o país tem avançado de forma discreta na modernização da sua frota de F-16. O esforço tem incidido, sobretudo, nas aeronaves MLU adquiridas aos Países Baixos, enquanto os Block 50 comprados novos também têm vindo a receber as respectivas actualizações, aguardando-se uma decisão que os faça transitar para um bloco com capacidades superiores. A possibilidade existe e, com a confirmação da venda ao Peru do Block 70, torna-se ainda mais plausível, sobretudo considerando que o Chile - tal como a Venezuela - dispõe de capacidades relevantes de operação, manutenção e sustentação, acumuladas ao longo de pouco mais de duas décadas de utilização.
A Argentina entre um presente utópico e uma possibilidade no futuro
Do lado argentino, o país está actualmente imerso no processo de incorporação dos seus 24 F-16 adquiridos em segunda mão à Dinamarca. Ainda assim, enquadrada no Programa Peace Condor e nos entendimentos alcançados com os Estados Unidos e a Lockheed Martin, a frota da Força Aérea Argentina será actualizada nos respectivos Tape, tal como foi comunicado pelo próprio Departamento de Defesa. Perante este cenário, neste momento, pensar que a Argentina avançaria, no futuro próximo, para a compra de novos Block 70 - repetindo o caminho agora seguido pelo Peru - é, por agora, uma utopia.
Peru e o que se perfila como a frota de F-16 mais moderna da região
Voltando à Força Aérea do Peru, a opção pelo Viper na sua configuração mais avançada deverá representar um verdadeiro impulso para a instituição, que tem procurado, ao longo da última década, concretizar a substituição dos seus actuais Mirage 2000 e MiG-29. No primeiro caso, a operatividade é limitada; no segundo, é praticamente inexistente.
No contexto do anúncio - e depois de uma assinatura registada a 20 de Abril e da realização do primeiro pagamento na última quarta-feira -, factos confirmados pela Embaixada dos Estados Unidos em Lima e pelo próprio Ministério da Economia e Finanças do Peru (confirmado o pagamento de uma primeira parcela de US$ 462 milhões), a Lockheed Martin declarou o seguinte:
“A escolha do F-16 Block 70 pelo Peru reafirma o desempenho operacional inigualável e o histórico em combate da aeronave, assim como sua capacidade de atender aos requisitos de defesa mais exigentes”, segundo anunciou Mike Shoemaker, vice-presidente do Integrated Fighter Group da Lockheed Martin. “Temos orgulho de que o F-16 mais avançado que já produzimos contribua para proteger a soberania nacional do Peru, ao mesmo tempo em que fortalece a sólida e duradoura aliança estratégica entre nossas nações”.
“A cooperação entre as bases industriais de defesa dos Estados Unidos e seus aliados sempre foi uma fonte compartilhada de segurança e benefício econômico”, acrescentou Shoemaker. “Esses vínculos continuarão a se fortalecer com o Peru por meio do programa F-16 Block 70, promovendo assim o crescimento econômico para todos os parceiros”.
Por outro lado, o programa - conforme foi indicado pela Zona Militar - deverá incluir o pedido da FAP para 24 aeronaves de combate, permitindo a substituição das plataformas acima referidas. Inclusive, e apesar de não terem sido divulgados pormenores, os Viper peruanos incorporariam novo armamento inédito para a plataforma produzida pela Lockheed Martin em Greenville, Carolina do Sul.
Esta informação foi avançada pela própria Embaixada dos EUA em Lima no seu comunicado de 22 de Abril, ao assinalar que: “…os Estados Unidos ofereceram incluir dois sistemas de armas que nunca antes haviam sido instalados em um F-16 para atender aos requisitos específicos do Peru”.
Infelizmente, até ao momento desta publicação não foram fornecidos mais esclarecimentos, permanecendo apenas a suposição de que poderá tratar-se de armamento já em uso e ao serviço na Força Aérea do Peru, ou de sistemas que possam vir a ser integrados por outro fornecedor. O que foi referido pela embaixada abre um vasto conjunto de dúvidas e hipóteses, tendo em conta a matriz histórica de armamento ar-ar e ar-superfície da qual a FAP se abasteceu durante décadas, sustentada em fornecedores franceses e russos.
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