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Enchufada celebra 20 anos com “A Lisbon Club Story” e a Lisboa da pista de dança

DJ a tocar música num bar com azulejos típicos portugueses, jovens a dançar e festa animada ao pôr do sol.

A Lisboa de hoje - com o céu riscado por aviões, ruas tingidas de cor-de-rosa, hotéis e alojamentos locais a multiplicarem-se, esplanadas a servirem bebidas pensadas para o Instagram e uma vaga contínua de visitantes atraídos por uma certa vibração - foi, em parte, imaginada numa pista de dança há duas décadas. A Enchufada, que celebra 20 anos com a compilação “A Lisbon Club Story” e que já amanhã leva essa narrativa ao The Lower Third, em Londres, apareceu porque Branko - na altura ainda conhecido por Lil’ John - e Kalaf precisavam de um lugar de lançamento para partilharem com o mundo a banda sonora do filme que lhes passava na cabeça.


Um começo sem data e uma editora sempre em movimento

Não houve um “dia zero” nítido. “Não sinto que esse momento tenha acontecido de forma definida”, reconhece Branko, em entrevista ao Expresso. Ao passo que o seu caminho como artista se foi desenhando em discos e etapas deliberadas, a Enchufada foi ganhando forma num fluxo contínuo, quase em piloto automático, com a prioridade de não perder andamento. “Saltas de um EP para uma residência, de uma reedição para a curadoria de um palco, e o objetivo é garantir que tudo continua a andar.”

Só agora, passados 20 anos, a compilação “Enchufada: A Lisbon Club Story” permite esse gesto de recuo. Ainda assim, Branko sublinha que “ainda está a meio do processo” de confrontar a própria história - sinal de alguém que insiste em manter o olhar apontado ao que vem aí.

A pista de dança como centro gravitacional da Enchufada

Se existiu um núcleo, para Branko não há dúvidas de onde estava: na pista. Antes de ser um catálogo, a Enchufada foi sobretudo noite. Foi no Clube Mercado que se testaram as primeiras explosões que acabariam por desembocar no fenómeno Buraka Som Sistema; foram as sessões “Hard Ass”, no Lux, que durante anos serviram para apurar uma fórmula com impacto real nas pistas; e foram as Na Surra que abriram espaço a novas vozes em ascensão.

Esse mecanismo, explica Branko, fazia-se de forma circular. “A agenda editorial nasceu sempre dessa relação direta entre pista e catálogo, quase como um sistema de pergunta-resposta”. Lisboa operava como um laboratório vivo, em tempo real, em que o que acontecia de madrugada se refletia no estúdio logo no dia seguinte.

A cidade funcionava como laboratório em tempo real: o que acontecia numa noite ressoava no estúdio no dia seguinte

Do “som de Lisboa” ao catálogo: Buraka, séries e novas geografias

Foi dentro desse circuito que a cidade deixou de tentar copiar outras capitais da eletrónica e começou a construir uma assinatura própria. No final dos anos 2000, quando os Buraka Som Sistema começaram a captar atenção da imprensa internacional, não existia propriamente um “som de Lisboa” estabelecido. Havia peças soltas: kuduro vindo dos subúrbios, house e techno filtrados pelas noites do Bairro Alto, CDR a circular em bancas da Praça de Espanha, frequências a tremer em carros parados nas filas do IC19.

O que os Buraka fizeram - e que a Enchufada ajudou a sedimentar - foi transformar essa matéria dispersa numa linguagem reconhecível. Mais do que um conjunto de canções, desenhava-se uma perspetiva: tirar força das diferenças, produzir identidade a partir do que era partilhado e projetar Lisboa como algo que não precisava de pedir autorização a Londres ou Berlim para existir.

Seguir a discografia da Enchufada é uma das formas mais diretas de ver essa ideia a ganhar corpo. O ponto de partida está na faísca inicial, “From Buraka to the World” (2006), e a partir daí o catálogo abre-se rapidamente para vários sentidos: dos álbuns dos próprios Buraka - “Black Diamond” (2008) e “Komba” (2011) - às afirmações a solo de Branko com “Control” (2014) e “Atlas” (2015). Pelo meio, surgem peças que ajudaram a fixar uma gramática em movimento, como as séries “Hard Ass Sessions” e “Upper Cuts”, onde produtores de diferentes geografias eram chamados a dialogar com o ADN do kuduro.

Com o passar dos anos, o catálogo tornou-se um mapa em permanente atualização. Nele cabem artistas tão distintos como os peruanos Dengue Dengue Dengue, o angolano Dotorado Pro ou o português Pedro da Linha, ao mesmo tempo que se regista a evolução do território a que a editora chama “global club music”: um lugar onde tradições locais e linguagens eletrónicas se cruzam sem grande preocupação com as “regras” que ficam pelo caminho.

Essa continuidade também se percebe no Bandcamp da editora: arquivos e lançamentos recentes lado a lado, temas nascidos para a pista e outros que já insinuam futuros possíveis. É dessa mesma lógica que emerge “Enchufada: A Lisbon Club Story”, uma compilação que liga momentos fundadores - de “Yah!” a “African Scream” - a produções novas, funcionando simultaneamente como retrospetiva e como fotografia em andamento de um processo que, na prática, nunca chegou a parar.

Lisboa como ponto de encontro e a ambição para lá do teto

Esta transformação não se separa da cidade que a viu acontecer. Lisboa era - e continua a ser - um encontro improvável, onde geografias diferentes se misturam sem grande mediação institucional. “Para além do cruzamento de culturas”, contextualiza Branko, “houve uma ausência de indústria e de estrutura que acabou por ser positiva”. Sem um trilho definido e sem a pressão de caber em formatos já existentes, existia margem para experimentar.

Há ainda a questão da escala: uma cidade suficientemente pequena para permitir a circulação rápida de ideias, em que artistas, DJs e público partilham o mesmo espaço e, sobretudo, o mesmo tempo - o da pista de dança. Kalaf, por seu lado, sempre enquadrou o fenómeno numa leitura mais ampla, quase política. A convivência entre comunidades, acelerada por mudanças urbanas e sociais, gerou uma nova linguagem comum. “Há uma ponte aérea a funcionar com Cabo Verde, com Angola”, disse o também escritor numa entrevista de há alguns anos, descrevendo uma Lisboa onde histórias diferentes passaram a coexistir no mesmo plano. A música - e em particular a música de dança - tornou-se um dos territórios privilegiados desse diálogo, muitas vezes antes de ele ganhar espaço noutras áreas.

A Enchufada cresceu nesse cenário como plataforma avessa a uma identidade rígida. “O mundo e a diversidade criativa são demasiado vastos para caber numa definição arrumada”, sintetiza Branko. Em vez de um plano estratégico fechado, o caminho fez-se pela resposta constante ao que fazia sentido na pista: canções que arrepiavam, momentos que pediam continuação. Essa elasticidade permitiu atravessar linguagens, fases e geografias sem perder uma coerência de base.

Ao longo destes 20 anos, essa postura contribuiu para deslocar o centro de gravidade de sonoridades que durante muito tempo viveram nas margens. Ainda assim, insiste Branko, a tarefa está longe de concluída. “Conseguiu-se chegar a uma linguagem que hoje tem espaço global, mas continua a haver um teto”. Muitas destas estéticas entraram num imaginário global mantendo uma coerência essencial - um painel de referências amplamente citado, como ele próprio observa - sem que isso se converta, na mesma medida, em reconhecimento para quem as criou. Há circulação; a redistribuição de valor nem sempre acompanha. “Ainda há caminho para fazer”, admite.

Talvez por isso a celebração dos 20 anos tenha sido desenhada como mais um capítulo, e não como fecho de ciclo. “A Lisbon Club Story” serve ao mesmo tempo de arquivo e de farol. “O equilíbrio entre nostalgia e futuro acabou por surgir de forma orgânica”, explica Branko, descrevendo um presente que conversa diretamente com o passado sem hierarquias rígidas.

Levar esta celebração a cidades como Londres - uma das primeiras a receber os Buraka fora de Portugal - também confirma que este percurso sempre aconteceu em trânsito. Ainda assim, a Enchufada nunca se entendeu como projeto apenas global nem exclusivamente lisboeta. “O ponto de partida foi sempre local, mas já ligado ao mundo”, garante Branko. Duas décadas depois, talvez seja essa a chave para ler o que começou numa pista de dança e ajudou a redesenhar a forma como se olha para uma cidade que se distingue de todas as outras. A Enchufada permanece, assim, um catálogo vivo e um laboratório permanente que, nas palavras do próprio Branko, “funciona como ponto de encontro entre pistas, culturas e ideias”.

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