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No norte do Chile, onde o deserto do Atacama dita condições severas e, ao mesmo tempo, oferece um palco ideal para missões aéreas de elevada exigência, está a ficar concluída a montagem de um dos exercícios militares mais relevantes do continente. O Salitre 2026 não é apenas mais uma edição de treino multinacional: representa a consolidação de uma mudança doutrinária profunda na forma como as forças aéreas da região encaram a guerra moderna.
Na sequência do encerramento da Reunião Final de Planeamento (FPC), realizada a 24 de abril, as forças aéreas do Chile, Argentina, Brasil, Colômbia, Estados Unidos e Paraguai fecharam os últimos pormenores de um destacamento que decorrerá entre 27 de junho e 12 de julho, na Base Aérea Cerro Moreno, em Antofagasta. Esta preparação foi detalhada aqui: Salitre 2026: a Força Aérea do Chile afina os mecanismos multinacionais e de planeamento da nova edição do exercício multinacional.

Exercício Salitre 2022 – LIVEX
Desde a sua primeira edição, em 2004, o Salitre deixou de ser um treino focado sobretudo em operações aéreas combinadas e foi-se transformando num ambiente substancialmente mais intricado. A edição de 2026 assinala um verdadeiro ponto de viragem: a adopção plena do conceito multidomínio.
Na prática, isto significa que as operações deixam de estar circunscritas ao espaço aéreo. Em vez disso, passam a integrar, em simultâneo, capacidades nos domínios terrestre, marítimo, espacial e ciberespacial. Ou seja, uma missão aérea pode depender, em tempo real, de dados satelitais, de protecção digital de sistemas críticos e de coordenação com forças destacadas à superfície.
A mudança é significativa. Por um lado, evidencia a influência de doutrinas modernas - sobretudo alinhadas com padrões OTAN - e, por outro, acompanha um panorama global em que os conflitos se tornam cada vez mais híbridos, interligados e tecnologicamente exigentes.

O papel-chave do Chile como articulador regional
Neste exercício, a Força Aérea do Chile (FACh) não se limita a acolher os participantes: assume-se como o centro organizador de um sistema de comando e controlo concebido para reunir todas as forças sob uma estrutura comum. O núcleo desta arquitectura será o Centro de Operações Aéreas Combinadas (CAOC), a partir do qual serão dirigidas e coordenadas as missões.
Aqui, o desafio vai além da componente operacional. É igualmente doutrinário: alcançar uma interoperabilidade efectiva entre países com diferentes patamares tecnológicos, modelos organizacionais e experiências de emprego.
A execução de Operações Aéreas Compostas (COMAO) será determinante. Estas missões reúnem vários tipos de aeronaves - caça, transporte, reabastecimento, vigilância - no mesmo pacote operacional, conduzindo acções coordenadas sobre objectivos partilhados. O grau de complexidade obriga a um planeamento minucioso e a uma execução sincronizada ao segundo.

Entre as novidades mais marcantes do Salitre 2026 está a integração formal do domínio espacial. Através de uma Célula Espacial, será incorporado o uso de sensores satelitais para tarefas de informações, reconhecimento e apoio às operações aéreas.
Este elemento acompanha uma tendência global: o espaço como multiplicador de capacidades militares. A informação recolhida em órbita pode determinar o sucesso ou o fracasso de uma missão, ao permitir antecipar movimentos, detectar ameaças e optimizar trajectos de voo.
Em paralelo, o domínio ciberespacial terá um destaque central. Ao longo do exercício serão simulados ataques e defesas dirigidos a sistemas de comando e controlo, bem como a protecção de ligações de dados críticas. Num quadro em que a superioridade aérea depende cada vez mais da informação, a vulnerabilidade digital passa a ser um factor decisivo.
Plataforma de projeção multinacional
O exercício vai concentrar um conjunto relevante de meios aéreos. Sobressai a presença dos F-16 - a espinha dorsal da aviação de combate chilena - a par dos F-39 Gripen E do Brasil, um dos caças mais modernos da região. A isto junta-se a estreia internacional, em território chileno, dos A-29 Super Tucano do Paraguai, alargando o leque de capacidades envolvidas.
Ainda assim, o Salitre 2026 não será medido apenas pelo conjunto de aeronaves. O exercício irá testar a robustez logística necessária para sustentar operações em larga escala, incluindo o reabastecimento em voo, a manutenção de sistemas de diferentes origens e a coordenação, no terreno, de pessoal multinacional.

Saab F-39E Gripen – Força Aérea Brasileira.
Estarão igualmente envolvidas unidades de Infantaria de Aviação, encarregues da segurança de instalações e recursos, reforçando a natureza abrangente do exercício.
Embora o cenário seja fictício - uma crise que exige uma resposta aérea combinada -, a mensagem é concreta. O Salitre 2026 projecta o Chile como um actor com capacidade para liderar operações multinacionais complexas e, em simultâneo, posiciona a América do Sul como uma região que progride rumo a níveis superiores de integração militar.
Ao mesmo tempo, o exercício funciona como ferramenta de diplomacia de defesa. A cooperação entre países não só melhora capacidades operacionais, como também aprofunda a confiança mútua num contexto internacional incerto.
Um laboratório da guerra do futuro
O que se desenrolará no norte do Chile durante essas semanas será, na essência, um laboratório: um espaço para ensaiar conceitos, testar tecnologias e afinar doutrinas que, muito provavelmente, vão moldar a forma de actuação das forças armadas da região nos próximos anos.
O Salitre 2026 não se limita a treinar pilotos ou a validar procedimentos. O propósito central é mais ambicioso: edificar uma capacidade conjunta capaz de responder, de modo integrado, eficiente e moderno, aos desafios do século XXI.
Nessa perspectiva, o céu do deserto do Atacama será muito mais do que um local de manobras. Será o espelho de uma transformação em curso.
Fotografias usadas a título ilustrativo.
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