Um surto não precisa de tocar em terra para se tornar significativo: basta um navio isolado no Atlântico. O cruzeiro MV Hondius, fundeado ao largo de Cabo Verde, passou a ser o foco de uma sequência de infeções por hantavírus que já contabiliza oito casos e três mortes. Passageiros e tripulantes estão a ser repatriados para os respetivos países de origem, Alemanha e Países Baixos.
Dentro do navio e para lá dele, o episódio deixou de ser apenas um problema clínico e transformou-se também num exercício de saúde pública e rastreio. Mais de 80 passageiros estão a ser contactados depois de terem viajado num voo onde seguia uma das pessoas infetadas. A Organização Mundial de Saúde confirmou esta quarta-feira tratar-se de uma estirpe transmissível entre humanos, embora sublinhe que o risco para a população em geral continua a ser baixo e garanta que a emergência do hantavírus não se assemelha à da covid-19 na sua fase inicial. Em Portugal, a Direção-Geral da Saúde refere uma “situação circunscrita”.
Neste enquadramento, importa clarificar o que é o hantavírus, de que forma se propaga, que sinais e sintomas pode provocar e por que motivo requer vigilância apertada.
O que é o hantavírus?
O hantavírus designa um conjunto de vírus da família Hantaviridae, cuja transmissão está, na maioria das situações, associada a roedores como ratos e ratazanas. Estes animais atuam como reservatórios naturais: não desenvolvem doença, mas libertam o vírus pela urina, fezes e saliva. Em pessoas, a infeção pode originar quadros graves, com expressão diferente consoante a área do mundo. Nas Américas, está ligada a uma síndrome pulmonar severa; na Europa e na Ásia, associa-se a formas hemorrágicas com compromisso renal. Trata-se de uma infeção rara em humanos, mas com potencial gravidade, geralmente relacionada com exposição ambiental a roedores infetados.
Onde existe e quão frequente é?
O hantavírus encontra-se distribuído globalmente, com variantes distintas adaptadas a espécies específicas de roedores em diferentes regiões. A ocorrência é mais habitual em contextos rurais e florestais, ou em espaços interiores onde exista infestação por roedores. Calcula-se que provoque cerca de 200 mil infeções humanas por ano em todo o mundo, ainda que muitos episódios passem sem diagnóstico ou sejam confundidos com outras doenças febris. Em regra, os casos surgem de forma esporádica, e não em surtos de grande dimensão, estando frequentemente ligados a circunstâncias ambientais particulares que favorecem o contacto com material contaminado. A distribuição não é uniforme: espécies virais diferentes relacionam-se com zonas e roedores próprios, o que ajuda a explicar padrões geográficos muito distintos de doença.
Existem diferentes tipos de hantavírus?
Sim. Há várias espécies de hantavírus, cada uma associada a um roedor específico e a regiões diferentes. Na Europa e na Ásia, são mais comuns vírus como o Puumala e o Hantaan, sobretudo associados à forma hemorrágica com compromisso renal. Nas Américas, vírus como o Sin Nombre e o Andes estão ligados à síndrome pulmonar, considerada a forma mais grave. O vírus Andes é, além disso, o único com transmissão entre humanos documentada, embora seja um fenómeno raro.
Como se transmite?
A via principal de infeção é a inalação de partículas microscópicas contaminadas com urina, fezes ou saliva de roedores infetados. Isto pode ocorrer quando poeiras contaminadas são levantadas em locais fechados, como armazéns, celeiros ou habitações desocupadas. De forma menos frequente, a infeção também pode acontecer através de mordedura de um roedor. Entretanto, a OMS já confirmou que o caso em causa corresponde a uma estirpe com transmissão entre humanos. O contágio de pessoa para pessoa continua a ser raro e só está descrito em alguns subtipos específicos, como o vírus Andes na América do Sul, normalmente em contexto de contacto próximo e prolongado.
Quais são os sintomas?
O período de incubação do hantavírus situa-se, em geral, entre uma e seis semanas após a exposição, com uma média de duas a três semanas.
A doença pode iniciar-se com febre alta, dores musculares intensas, cansaço marcado, cefaleias e manifestações gastrointestinais como náuseas, vómitos ou diarreia. Em determinadas situações, pode evoluir para formas graves. Na síndrome pulmonar, a progressão pode ser rápida para dificuldade respiratória, acumulação de líquido nos pulmões e choque. Já na forma hemorrágica com compromisso renal, pode surgir lesão renal aguda e, nos casos mais severos, hemorragias. A evolução pode ser rápida e imprevisível.
Qual é a real gravidade?
A gravidade do hantavírus está relacionada com a resposta inflamatória intensa que desencadeia no organismo e com a inexistência de um tratamento antiviral específico. Nas apresentações mais graves, pode instalar-se falência respiratória ou renal em poucas horas, o que exige cuidados intensivos sem demora.
A taxa de mortalidade pode atingir 30% a 40% nos casos graves, sobretudo na forma pulmonar. A velocidade com que o quadro pode agravar-se é um fator decisivo, tornando essencial reconhecer precocemente os sintomas e assegurar acesso imediato a suporte hospitalar avançado.
Existe tratamento?
Não existe um fármaco específico aprovado que elimine o vírus. O tratamento é apenas de suporte, focado na manutenção das funções vitais. Pode incluir oxigénio, ventilação mecânica, controlo rigoroso da tensão arterial, reposição de fluidos e diálise quando há insuficiência renal. Em situações extremas, recorre-se a técnicas como ECMO (oxigenação por membrana extracorporal). Estão a ser estudadas abordagens experimentais, incluindo antivirais e anticorpos, mas ainda sem eficácia demonstrada para utilização clínica generalizada.
Como se previne?
A prevenção assenta sobretudo no controlo de roedores e na diminuição da exposição a ambientes contaminados:
- vedar pontos de entrada em casas e armazéns;
- guardar alimentos de forma segura;
- remover potenciais locais de abrigo para roedores.
Na limpeza de espaços suspeitos, deve evitar-se varrer ou aspirar a seco, porque isso pode dispersar partículas infetadas.
É recomendável arejar previamente e desinfetar com soluções desinfetantes adequadas.
Em ambientes rurais ou florestais, deve evitar-se o contacto direto com ninhos ou fezes de roedores.
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