Bom dia.
SNS: indicadores assistenciais e dívida
Se a avaliação do SNS a que o Expresso teve acesso fosse um boletim de análises, não lhe faltariam as setas a negrito a avisar para valores fora do intervalo - daquelas que mostram o colesterol a agravar ou o ferro a baixar, como alerta para o utente tomar conta da saúde.
Elaborado pela Administração Central do Sistema de Saúde, o documento expõe números inquietantes: no último ano, a resposta aos doentes recuou em consultas, em cirurgias e no total de doentes com alta hospitalar. Também os tempos de espera pioraram: há mais pessoas inscritas para cirurgia e quem já está em lista aguarda mais tempo, escreve Vera Lúcia Arreigoso, que consultou o relatório a publicar no Portal da Transparência.
Há ainda um dado que merece atenção: mais de 84.500 doentes à espera de cirurgia já ultrapassaram a demora clinicamente recomendada - um crescimento de 15% face a 2025.
Nem o retrato é totalmente sombrio. O SNS conta agora com mais profissionais e nos centros de saúde há sinais de melhoria, com 85,1% dos utentes com médico atribuído - um aumento discreto, mas positivo, de 0,1% em relação ao ano anterior.
Em sentido inverso, o crescimento dos pagamentos em atraso e da dívida total a fornecedores ajuda a compor um quadro desanimador, ainda que mitigado por melhorias na afluência às urgências hospitalares.
Pacto Estratégico para a Saúde: reuniões até março
É com este tipo de indicadores que Adalberto Campo Fernandes, recentemente nomeado coordenador do Pacto Estratégico para a Saúde, entrará nas quase 50 reuniões já agendadas com representantes do Governo, de partidos e do setor.
A primeira reunião ocorreu esta segunda-feira com a Ministra da Saúde, Ana Paula Martins, e tornou-se pública através de uma publicação do ministério nas redes sociais. Segundo apurou o Expresso, o plano delineado em Belém passa por escutar os vários agentes do setor de forma “intensa e não publicitada”: isto é, não será a Presidência da República a divulgar os encontros - essa decisão caberá, se assim o entenderem, aos interlocutores.
Os encontros deverão decorrer até março do próximo ano, coincidindo com o final do primeiro ano de mandato de António José Seguro, que, em campanha, se comprometeu a prioritizar a saúde e a orientar a cultura política para o diálogo e os consensos.
Saúde mental: estudantes da Universidade de Lisboa
Frequentemente tratada como parente pobre de uma saúde já de si frágil em Portugal, a saúde mental tem ganho espaço no debate, mas os meios para a proteger continuam a ser insuficientes.
Num estudo promovido pela Associação Académica da capital, mais de metade dos estudantes da Universidade de Lisboa afirmam que já ponderaram abandonar o curso por se sentirem “psicologicamente esgotados”.
Entre os bolseiros, essa percentagem aproxima-se dos 80%, o que aponta para “maior vulnerabilidade emocional ou pressão acumulada” entre estudantes apoiados pela ação social.
Numa amostra maioritariamente feminina - composta sobretudo por alunos das faculdades de Letras e de Direito -, apenas 5% garantem nunca ter tido crises de ansiedade; 41% admitem dificuldades de sono e 44% dizem sentir vontade de se isolar.
Mais de metade refere que a situação financeira prejudica a saúde mental; entre bolseiros, o valor sobe para 66%. “Não podemos dissociar a problemática habitacional e do custo de vida da questão psicológica”, sublinha Gonçalo Osório de Castro, presidente da Associação Académica da Universidade de Lisboa, ao Expresso.
O apoio psicológico que 66% dos inquiridos dizem já ter recebido foi, na maioria dos casos, prestado pelo setor privado. A maior parte dos estudantes desconhece o “cheque-psicólogo”, que assegura consultas gratuitas a alunos do ensino superior.
Caso Esquadra do Rato e reportagem a partir de Leiria
Também notícia esta terça-feira - e igualmente sinal de doença, possivelmente social - é a detenção de mais 15 polícias no processo de tortura na Esquadra do Rato, em Lisboa.
No inquérito, escreve Hugo Franco, apura-se a eventual prática de crimes de “tortura grave, violação, abuso de poder e ofensas à integridade física qualificadas”.
O único agente acusado de violação encontra-se em prisão preventiva no Estabelecimento Prisional de Évora. À data dos crimes de que é suspeito - que incluem abuso de poder, tortura, posse de arma proibida e roubo - tinha apenas 21 anos.
Antes de me despedir, fica o convite para continuar a acompanhar o trabalho que a redação do Expresso está a fazer esta semana a partir de Leiria. Assinalando 100 dias desde a passagem da Tempestade Kristin pela zona centro do país, muitas das peças estão, por estes dias, a ser enviadas a partir de uma região que, no final de janeiro, ficou parcialmente destruída - mas onde a esperança, que pode ir da cultura ao desporto, também se faz notar. Se foi afetado pela tempestade e o seu problema continua por resolver, conte-nos tudo.
Outras notícias, frases e podcasts
OUTRAS NOTÍCIAS
- Tropa: PSD e CDS querem atrair jovens para a vida militar, propondo, em troca de seis semanas de experiência, 439 euros e carta de condução. Os custos previstos são de 4,5 milhões de euros por cada dois mil jovens, escreve o Expresso.
- SIRESP: o novo Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal só ficará operacional dentro de 10 anos e poderá custar 800 milhões de euros.
- Nacionalidade: promulgada no domingo, a nova Lei da Nacionalidade endurece os critérios de aquisição e concessão de cidadania a estrangeiros residentes em Portugal. Está tudo aqui. Entretanto, foi chumbada a lei do Governo para expulsão de estrangeiros.
- Guerra: Trump disse que vai suspender temporariamente a “Operação Liberdade”, criada para escoltar navios comerciais no estreito de Ormuz, abrindo margem para negociações com o Irão.
- Stones: já saiu ‘In the Stars’, primeiro single do novo álbum dos Rolling Stones, “Foreign Tongues”. O disco chega em julho e inclui convidados como Robert Smith, dos The Cure, e Sir Paul McCartney.
- Campeões: depois de afastar o Sporting, o Arsenal está na final da Liga dos Campeões. Ontem venceu o Atlético de Madrid e, a 30 de maio, joga em Budapeste com o PSG ou o Bayern de Munique.
FRASES
"Além do absurdo e irrealismo - que mostra populismo em excesso -, eu que tanto tenho defendido que o PSD procure a maioria que não tem, com a IL e com o Chega, que são partidos não socialistas… Quando as coisas assumem este caráter, eu pergunto: são não socialistas? Nem os socialistas têm coragem de baixar a idade da reforma", Pedro Passos Coelho comenta a proposta do Chega, numa intervenção à porta fechada para estudantes da Nova SBE
“E se o país ficar sem governo, acaba? Há experiências prometedoras na Bélgica e em Itália; aí, pelo contrário, os países progrediram porque não tinham a burocracia às costas. Se o Governo não fizer nada, já sabemos que não há problema, mas a minha tese é mais profunda; baseia-se na ideia de que para não fazer nada, não faz falta ninguém; nem um Governo. Pense-se nisso. Sem antolhos nem preconceitos”, Henrique Monteiro, colunista do Expresso
“Não me vou excluir para sempre”, Mariana Vieira da Silva, sobre possibilidade de vir a disputar liderança do PS, à RTP Antena 1
“Não conseguimos ir a lado nenhum, privacidade zero. Quando entramos no quarto do hotel, benzemo-nos todos os dias”, David Mendonça, da banda Vizinhos, autora do êxito ‘Por do Sol’, no podcast Posto Emissor
PODCASTS
- Expresso da Manhã: já a pensar nas férias? Pior do que ser caro será se o seu voo não existir. Paulo Baldaia ouve António Moura Portugal, Director Executivo da RENA - Associação das Companhias Aéreas em Portugal
- O Prazer é Todo Meu: a médica e sexóloga Mafalda Cruz conversa com o pediatra Hugo Rodrigues sobre um dos maiores desafios da parentalidade: quando e como falar com os filhos sobre sexualidade.
O que ando a ver
“Quem tem medo de Zurita de Oliveira?”, filme de Francisca Marvão (Indie Lisboa, 10 de maio, no Cinema Ideal)
Tão rica em grandes estrelas como em nomes que passaram à margem, a história do rock continua, décadas depois do seu aparecimento, a surpreender com personagens improváveis. É o caso de Zurita de Oliveira, a quem a designação de “mãe do rock português” assenta bem, embora, até à estreia do documentário que Francisca Marvão lhe dedicou, poucos soubessem quem era.
Nascida em Alcanena, em 1931, meia-irmã do ator Camilo de Oliveira, Zurita era - dizem os testemunhos reunidos no filme - uma mulher à frente do seu tempo. Um antigo companheiro de banda recorda que gostava de caçar; uma familiar acrescenta que queria usar calças e praticar boxe. O que a tornou pioneira, ainda que de forma discreta, foi o papel no rock feito em Portugal: terá sido sua a primeira gravação do género, um EP de título “O Bonitão do Rock”, lançado em 1960.
Também escreveu vários fados para Ada de Castro, assinando com os apelidos Costa de Oliveira. “Não seria bem aceite ou ‘credível’ que uma mulher, naquela altura, assinasse várias canções. Era uma área eminentemente masculina”, explica à BLITZ o investigador Carlos Callixto, que ajudou Francisca Marvão a construir um documentário que, perante a falta de imagens de época, recorre à criatividade - e a um punhado de artistas contemporâneas, d’ A Garota Não às Anarchicks - para reconstituir quem foi Zurita de Oliveira e perceber por que razão a história quase apagou o seu legado na arte elétrica portuguesa.
Apresentado no dia 1, numa sala cheia e entusiasmada, o filme volta a ser exibido no próximo domingo, 10 de maio, no Cinema Ideal, em Lisboa.
Tenha um ótima quarta-feira e continue a acompanhar toda a atualidade no site do Expresso, da SIC Notícias, da BLITZ e da Tribuna.
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