Saltar para o conteúdo

Açores: verão turístico de 2026 mais contido com saída da Ryanair e privatização da SATA Internacional

Pessoa segurando bilhete de avião e telemóvel ao lado de mala no aeroporto, com avião a levantar voo e paisagem marítima ao f

Depois de vários máximos de passageiros alcançados no período pós-pandemia, o verão turístico de 2026 nos Açores deverá ser mais moderado. O arquipélago enfrenta, em simultâneo, a saída da Ryanair e um processo de privatização da SATA Internacional (Azores Airlines) que continua sem candidato conhecido, com o concurso por relançar e com o agravamento das contas do grupo a ganhar expressão nos últimos anos. A tudo isto soma-se a escalada do preço dos combustíveis, particularmente penalizadora num destino em que o custo das passagens aéreas, por vezes, já funciona como travão à procura.

Verão turístico de 2026 nos Açores: menos oferta e bilhetes mais caros

A capacidade disponível encolheu com a saída da Ryanair em março. Ainda assim, a TAP admite reforçar a operação no verão caso a procura o justifique, recorrendo a aeronaves de maior dimensão, e a SATA sustenta que tem meios para assegurar a oferta. “O foco mantém-se em garantir uma resposta consistente e sustentável, ajustada às necessidades de mobilidade dos açorianos e do turismo, assegurando ligações estáveis e adequadas à procura, tendo em consideração a rentabilidade da operação”, diz ao Expresso fonte oficial da SATA.

Em paralelo, a concessionária ANA reforçou o esforço de captação, trazendo para Ponta Delgada novas companhias em 2026: as canadianas Air Canada e WestJet, além da Austrian Airlines. Já um eventual regresso da easyJet, apurou o Expresso, continua por agora fora do horizonte.

Saída da Ryanair: reação do Governo e alerta do sector turístico

Para o Governo Regional, a retirada da Ryanair “tem impacto e exige um acompanhamento permanente”, admite fonte oficial da Secretaria Regional das Finanças, Planeamento e Administração Pública ao Expresso. O Executivo compromete-se a ajustar a oferta à procura e a “dialogar com os operadores que servem ou possam vir a servir os Açores”, apontando também a relevância da SATA e da TAP na resposta. O gabinete de Duarte Freitas acrescenta que o Governo Regional mantém-se a “desenvolver esforços para que sejam encontradas soluções que minimizem os impactos da saída da Ryanair e permitam ligações estáveis para residentes e turistas”.

Do lado das empresas, o sentimento é menos confiante. O turismo nos Açores olha para a saída da Ryanair com “apreensão” e a Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada (CCIPC) admite que isso possa traduzir-se numa quebra de 10% nas dormidas em 2026. Andreia Pavão, representante da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) nos Açores, assinala que “Desde setembro do ano passado que os Açores estão com decréscimo de dormidas devido a uma série de fatores, entre os quais a descida do mercado norte-americano”, concluindo que, com a saída da Ryanair, “estamos a ter a tempestade perfeita”.

A responsável recorda ainda o peso da operação da companhia irlandesa: duas frequências diárias entre Lisboa e Ponta Delgada, ligações do Porto para Ponta Delgada e voos de Lisboa para a Terceira. Na sua leitura, “são muitos voos” e “é difícil que sejam compensados”. Mesmo que TAP e SATA reforcem, sublinha que “o preço não é o mesmo e perdemos um grande segmento de mercado”. Andreia Pavão diz existir a “expectativa de que possa haver uma negociação por parte do Governo Regional no sentido de a companhia poder regressar”. Esse regresso não é impossível, mas dependerá sempre de negociação e do montante que o Governo Regional aceitará suportar em apoios.

Privatização a navegar à vista

A venda da Azores Airlines, antiga SATA Internacional, foi empurrada para o final de 2026 e continua sem sinais claros de avanço. O caderno de encargos permanece por finalizar e não são conhecidos interessados na compra, depois de o Governo Regional ter recusado a proposta do consórcio liderado por Tiago Raiano e de ter optado por uma via de venda direta.

A administração da SATA responde com poucas indicações. “A companhia está a preparar a proposta de caderno de encargos para aprovação do acionista e posterior lançamento do concurso”, afirma, sem apontar data para a publicação do documento nem confirmar a existência de manifestações de interesse. O Governo de José Manuel Bolieiro, remetendo a identificação de eventuais candidatos para a empresa, mostra confiança na conclusão do processo: “O caderno de encargos será, a muito breve trecho, submetido à apreciação e aprovação do acionista e, posteriormente, divulgado. Da parte do Governo Regional a expectativa é de que o processo decorra com sucesso”, referem as Finanças regionais.

Consórcio de Tiago Raiano e Carlos Tavares ainda não desistiu da privatização da Azores Airlines

Essa confiança poderá esbarrar na experiência dos últimos anos: desde 2018, o Governo Regional tenta alienar a SATA Internacional sem conseguir fechar a operação. Nos processos conduzidos em 2024 e 2025 apareceu apenas um concorrente - o agrupamento que reúne Tiago Raiano (Newtour), Nuno Pereira (MS Aviation), Carlos Tavares (ex-Stellantis) e Paulo Pereira (Quinta da Pacheca). O consórcio tem em curso uma providência cautelar, onde dirige críticas severas à posição da administração da SATA e do presidente do júri, Augusto Mateus, classificando como “ilegal” e “parcial” a avaliação e exclusão do agrupamento. Diz também estranhar que o critério de idoneidade tenha sido revisto em baixa após a entrada de Carlos Tavares e Paulo Pereira.

Contas da SATA e combustíveis: risco acrescido para a Azores Airlines

No enquadramento atual, cresce o receio de o concurso voltar a não atrair propostas. O cenário financeiro piorou e o aumento do custo do combustível está a desequilibrar a companhia, cuja dívida chegou a €422 milhões em 2024. As contas de 2025 ainda não foram divulgadas - e a empresa não indica quando o serão -, mas em 2024 os prejuízos atingiram €71 milhões, com indicação de que a fatura poderá ter aumentado. A situação da Azores Airlines é descrita como frágil, e o facto de a empresa não fazer cobertura de risco do combustível agrava o problema. Só em 2024, a despesa em combustíveis foi de €85,6 milhões.

Para o Governo Regional, o dossiê do concurso anterior está encerrado. “O procedimento anterior encontra-se encerrado sem adjudicação, na sequência das conclusões do respetivo processo e da decisão tomada pelos órgãos competentes. As matérias de natureza judicial em curso seguem os trâmites normais”, frisa o gabinete de Duarte Freitas.

O consórcio, porém, não dá o tema por terminado. Tiago Raiano garante ao Expresso que se mantém no processo: “Não vamos desistir do processo porque acreditamos na companhia e acreditamos que conseguimos dar a volta à empresa. E as pessoas que confiaram no nosso projeto merecem o nosso respeito”, afirmou.

Alvo de disputa política, a SATA tem reflexo direto nas contas regionais. Em 2025, o défice voltou a agravar-se pelo segundo ano consecutivo, para €199 milhões, e a inclusão das duas empresas do grupo SATA no perímetro do défice foi determinante para a despesa da Região crescer 12,6% face a 2024.

Ainda assim, o Governo de Bolieiro garante que acompanha os custos com combustíveis para que o interesse público regional fique “salvaguardado” e procura relativizar o impacto. “De acordo com a informação transmitida pela empresa, a atividade está a decorrer com normalidade. A companhia continuará a monitorizar a evolução dos custos, da procura e das condições de mercado, ajustando a operação sempre que necessário.”

No tecido empresarial açoriano, a inquietação é elevada. A falência recente da norte-americana Spirit Airlines é vista como sinal de que a crise dos combustíveis já está a provocar vítimas, e a atenção vira-se para a SATA. O Expresso questionou a companhia e o Governo Regional sobre se temem uma falência da Azores Airlines, mas não obteve resposta.

Com Conceição Antunes

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário