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Portugal, produtividade e economia paralela: o problema está nas lideranças

Homem de fato observa vista urbana de Lisboa a partir de escritório moderno com computador e documentos na mesa.

Portugal surge como o quinto país da União Europeia com maior carga horária semanal - 39,7 horas -, ficando apenas atrás da Grécia, Polónia, Roménia e Bulgária. Em contrapartida, o salário médio ajustado pouco passa dos 2.000 euros brutos por mês, muito longe da média comunitária de 3.317 euros.

Daqui nasce, vezes sem conta, uma leitura simplista - repetida em debates e até em relatórios oficiais -: a de que os portugueses são pouco produtivos. Para os gurus do “neocapitalismo sem risco”, em que os lucros ficam no privado mas os custos de más decisões recaem sobre todos, a receita é invariável: transferir a culpa para quem trabalha.

O que a produtividade mede (e o que pode estar a esconder)

E se não for bem assim? E se os números da produtividade - obtidos ao dividir o PIB pelas horas trabalhadas - estiverem enviesados por uma omissão deliberada e, sobretudo, por um problema persistente de liderança que atravessa o Estado, a administração pública e o tecido empresarial?

A informação disponível, quando articulada com o que se conhece sobre a economia paralela e com o desempenho dos portugueses sempre que lhes são garantidas condições decentes, aponta para uma conclusão incómoda: o problema não está em quem executa; está em quem dirige.

Economia paralela e PIB: riqueza gerada que não entra nas contas

O Instituto Nacional de Estatística (INE) incorpora, nas estimativas do PIB, um valor associado à economia não observada. Contudo, há um pormenor quase sempre omitido: nem o valor dessa economia informal, nem a parcela que o INE inclui no PIB são divulgados pelo Governo. Ainda assim, estudos transversais indicam que a economia paralela em Portugal se situará entre 15% e 30%, uma das mais elevadas da Europa.

Se uma fatia relevante da riqueza produzida não é registada, então o denominador da produtividade (as horas trabalhadas) pode ficar desproporcionalmente alto face ao numerador (o PIB). Trabalha-se muito, mas uma parte do valor desse trabalho não aparece nas estatísticas. E quem ganha com esta falta de transparência? Não é o trabalhador comum - que continua sem ver o seu esforço reconhecido -, mas antes os sectores em que a fraude e a evasão fiscal se tornaram práticas sistémicas.

Quando uma empresa paga uma parte do salário “por baixo da mesa”, ou quando um serviço é prestado sem emissão de factura, o PIB oficial não reflecte todo o valor criado. Já as horas de trabalho, essas, contam. O efeito final é uma produtividade artificialmente mais baixa. E o trabalhador - que muitas vezes aceita estas condições por ausência de alternativas - acaba carimbado como menos eficiente, quando, na realidade, é penalizado por um sistema que lucra com a sua invisibilidade.

Emigração, gestão e organização: o mito da “preguiça lusitana”

Há, no entanto, uma espécie de experiência natural que desmonta o mito da “preguiça lusitana”. Os emigrantes portugueses na Suíça, Luxemburgo, Alemanha, Estados Unidos ou Países Baixos registam, de forma consistente, produtividades individuais iguais ou superiores às médias desses países. Não porque mudem “geneticamente” ao cruzar uma fronteira, mas porque passam a trabalhar com lideranças mais competentes, processos melhor organizados e uma cultura de gestão orientada para resultados - e não para “horas de cadeira”.

O SIADAP (Sistema Integrado de Gestão e Avaliação do Desempenho), na administração pública, ilustra como um modelo de avaliação mal concebido contribui para a falta de produtividade e, por si só, consome horas em tarefas inúteis. O factor decisivo está no chefe, na cultura de gestão e na organização - não no trabalhador.

O que fica exposto, portanto, não é um défice de capital humano em Portugal (que é qualificado e resiliente), mas sim uma carência de competência na gestão. As lideranças portuguesas continuam presas a um padrão nepotista, excessivamente focado no controlo hierárquico e, de forma surpreendente, permissivo com a ineficiência administrativa. Quantas horas se perdem diariamente em filas para obter uma assinatura, em reuniões sem objectivo, em procedimentos burocráticos e absurdos, até dentro das próprias organizações? Essas horas entram na conta do trabalhador, mas a responsabilidade recai sobre quem lidera. Na Autoridade Tributária, daria para escrever um livro apenas sobre processos internos sem utilidade.

É neste cenário que aparece a “reforma laboral”, apresentada como forma de “combater a precariedade”, mas insistindo em medidas que ampliam a flexibilidade do lado do empregador. O enredo repete-se: é preciso aumentar a produtividade e, como os trabalhadores não “acompanham”, há que os disciplinar com contratos mais frágeis e horários mais elásticos.

Trabalhamos muitas horas, mas essas horas são mal aproveitadas e pior organizadas. Na prática, o “pacote laboral” tende a agravar a precariedade - sobretudo entre os jovens (quase 40% com contratos temporários, o quarto valor mais alto da UE) e entre os imigrantes (34% em trabalho temporário, contra 14% de nacionais). Em vez de se exigir melhor gestão, pede-se resignação a quem trabalha.

Se a questão é a baixa produtividade medida, porque não se investe numa investigação séria e profunda sobre a economia paralela e a fraude fiscal? Porque é que o combate à fraude e à criminalidade económica não surge no topo das prioridades de nenhum governo? A explicação é desconfortável: a economia paralela não só é tolerada como, em diversos sectores, é estrutural. E, além disso, as lideranças políticas e administrativas exibem, elas próprias, uma produtividade lastimável.

A escolha de dirigentes com base em lealdades partidárias e relações pessoais, a par da inexistência de uma avaliação exigente do desempenho de quem dirige, corrói a qualidade da liderança.

E que dizer das lideranças políticas que, há décadas, prometem “simplificar” e “desburocratizar” sem nunca o concretizarem? Que mantêm os serviços do Estado em sufoco permanente? A evasão fiscal retira ao país milhares de milhões de euros todos os anos - montantes que aumentariam o PIB e, por essa via, a produtividade. Mas combater a evasão exige vontade, independência e capacidade técnica: exactamente aquilo que os nossos líderes têm impedido a Autoridade Tributária de alcançar.

Isto não significa negar que existam problemas de produtividade em Portugal. Significa, sim, perguntar onde nasce realmente esse problema. Os dados apontam de forma clara: a origem não está em quem entra às 9h e sai às 19h; está em quem decide, em quem gere e em quem legisla.

O Dia do Trabalhador devia servir para fixar esta ideia: não faltam mais horas nem mais flexibilidade; falta, isso sim, pôr fim a lideranças medíocres e enfrentar a evasão fiscal, a corrupção e a economia paralela. Feito isto, num instante, teremos um país mais produtivo.

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