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Somincor vai retomar em breve o maior parque solar para autoconsumo de Portugal de 49 MW em Neves-Corvo

Engenheiro com capacete e colete a inspecionar painéis solares em campo com turbinas eólicas ao fundo.

As obras estão suspensas desde 20 de março, na sequência de um processo apresentado no início desse mês pelo Ministério Público no Tribunal Administrativo e Fiscal de Beja. Ainda assim, a Somincor - proprietária das minas de Neves-Corvo, em Castro Verde - prepara-se para voltar a avançar, nos próximos tempos, com a construção do maior parque solar para autoconsumo de Portugal.

O projeto prevê uma potência instalada de 49 megawatts (MW), ocupa 55 hectares e deverá assegurar uma produção anual de 100 gigawatts-hora, destinada a abastecer uma das maiores minas de zinco e cobre da Europa, situada no Alentejo.

Decisão do Tribunal de Beja desbloqueia a obra

A confirmação foi transmitida ao Expresso por fontes oficiais da Somincor e da EDP, que, em conjunto com a Greenvolt, assume responsabilidades no desenvolvimento da central.

Segundo uma fonte da Somincor, detida pela empresa sueca de mineração Boliden, "O processo foi desbloqueado, com o Tribunal de Beja a considerar infundadas as alegações do Ministério Público para a suspensão dos trabalhos. No entanto a ação não foi retirada e continua a correr os seus trâmites normais".

Do lado da EDP, a empresa refere que foi informada "dessa decisão de levantamento da suspensão no final da semana passada", embora afirme não dispor, para já, de informação adicional.

Retoma dos trabalhos e impacto no calendário

De acordo com a mesma fonte da Somincor, a reativação da empreitada não será imediata: “Estamos a tentar mobilizar de novo os empreiteiros e as equipas para retomar os trabalhos, o que deverá demorar ainda duas a três semanas”. A interrupção de quase dois meses, acrescenta, “já teve impacto e fez resvalar” as datas previstas para a conclusão da central.

Ministério Público mantém a ação e estuda reação

Contactado pelo Expresso, o Ministério Público confirmou que "não retirou a ação, que corre termos no Tribunal Administrativo e Fiscal de Beja“. A mesma fonte oficial adiantou ainda que, "Na sequência de requerimento da contrainteressada [Somincor], o tribunal decidiu levantar a suspensão das obras, estando o Ministério Público a estudar formas legais de reação a esta decisão".

Obra a meio e partes no processo

A central solar fotovoltaica encontra-se já parcialmente executada, tendo a construção ficado interrompida devido ao processo em tribunal. Conforme a distribuição do processo na plataforma online Citius, surgem como réus o Ministério do Ambiente e da Energia, a Presidência do Conselho de Ministros, o município de Castro Verde e o Centro Jurídico do Estado. A Somincor – Sociedade Mineira de Neves-Corvo integra o processo como parte contrainteressada.

O Expresso pediu ao Tribunal Administrativo e Fiscal de Beja acesso ao processo apresentado pelo Ministério Público, mas não obteve, até ao momento, qualquer resposta.

Fontes ouvidas pelo jornal aquando da suspensão dos trabalhos referiram que a tentativa de impugnação do projeto por parte do Ministério Público se baseou na alegação de incumprimento do Plano Diretor Municipal, posição que é contestada pela autarquia.

Entretanto, no local, a paragem prolonga-se há quase dois meses: a maquinaria pesada manteve-se imobilizada e mais de 100 pessoas ficaram sem atividade após a notificação do tribunal. Nessa altura, o Ministério Público esclareceu ao Expresso que a sua “motivação é sempre a da defesa da legalidade, sendo que, no caso concreto, constatou-se terem sido violadas normas de planeamento e normas ambientais”.

Posição do município de Castro Verde

A Câmara Municipal de Castro Verde confirmou que “recebeu, no passado dia 18 de março, via registo postal, uma notificação proveniente do Tribunal Administrativo e Fiscal de Beja, referente à pendência de uma ação administrativa, na qual se discute a construção da Unidade de Produção para Autoconsumo (UPAC), tendo sido citado para contestar a mesma”.

Segundo fonte oficial do município, o processo foi analisado internamente pelo departamento jurídico e seguiu para o advogado com vista à preparação da contestação. “Naturalmente, o município de Castro Verde apresentará a sua contestação dentro do prazo legal”, sublinhou a autarquia.

Somincor, EDP e Greenvolt: enquadramento e relevância do projeto

Do lado empresarial, a Somincor também foi citada a 18 de março “na qualidade de contrainteressada”, no âmbito da ação administrativa em curso no Tribunal Administrativo e Fiscal de Beja. A empresa diz que irá colaborar com os esclarecimentos que considere necessários: “A Somincor irá prestar todos os esclarecimentos tidos por convenientes neste processo. O projeto cumpriu todos os trâmites necessários e legalmente previstos”, indicou a mesma fonte.

Para a mineira, o parque solar tem um peso estratégico: “o projeto do parque solar é fundamental para a sustentabilidade e atividade da empresa, enquanto entidade geradora de emprego e de valor para as comunidades do Baixo Alentejo em particular, e para a transição energética global, sendo um dos maiores projetos de descarbonização da indústria mineira à escala europeia”.

Já a EDP refere que também “foi informada de que está a decorrer uma ação administrativa relativa ao projeto de energia solar que está a desenvolver para a Somincor, ainda que não seja contrainteressada neste processo”. A empresa liderada por Miguel Stilwell de Andrade sustenta que “as entidades envolvidas foram devidamente consultadas ao longo das várias fases do processo de licenciamento”.

No final de fevereiro, a Boliden Somincor, a EDP e o grupo Greenvolt anunciaram, através de um comunicado conjunto, uma parceria para instalar uma UPAC junto à mina de Neves-Corvo. “Este projeto de geração distribuída de energia solar será o maior desenvolvido em Portugal, vai permitir reduzir a dependência da rede elétrica e aumentar a previsibilidade dos custos energéticos, bem como reduzir as emissões de dióxido de carbono da Boliden Somincor em mais de 41 mil toneladas anuais”, indicaram as três empresas.

A execução está a cargo da EDP Comercial e da Greenvolt Next, na Herdade de Neves da Graça, em Castro Verde. Os terrenos já pertencem à Boliden Somincor e integram a concessão atribuída para exploração mineira. As estimativas apontavam para que o projeto estivesse concluído no segundo semestre de 2026. A empreitada inclui a construção da UPAC e o reforço da subestação elétrica que abastece a empresa.

No mesmo comunicado, Gunnar Nyström, diretor-geral da Boliden Somincor, salientou: “Este projeto é um grande investimento da Boliden Somincor. Produzirá o equivalente a um terço do nosso consumo total anual”, lembrando que a empresa é a maior empregadora do Baixo Alentejo.

O desenvolvimento do projeto arrancou há mais de um ano, envolvendo desenho, licenciamento e engenharia assegurados pela Boliden Somincor, pela EDP e pela Greenvolt Next. No total, estima-se a contratação de cerca de 200 pessoas ao longo de todo o processo. Após a entrada em operação, a gestão da central solar ficará a cargo da EDP durante 12 anos.

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