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Hezbollah usa drones FPV contra a Cúpula de Ferro e aumenta a pressão em Israel e Gaza

Militar a controlar drones através de tablet numa base temporária num terreno árido com colinas ao fundo.

Na noite deste domingo, o Hezbollah difundiu imagens que mostram um dos seus drones FPV (Visão na Primeira Pessoa) a atingir uma bateria do sistema israelita de defesa antimíssil - a conhecida Cúpula de Ferro - junto à fronteira norte de Israel.

Segundo Yeghia Tashjian, coordenador de Assuntos Regionais e Internacionais do Instituto Issam Fares de Políticas Públicas e Assuntos Internacionais da Universidade Americana de Beirute, o grupo xiita libanês “tem demonstrado forte resistência à ocupação israelita atrás da Linha Amarela, pela primeira vez, desde o início da década de 1990”. Acrescenta ainda: “Combatentes do Hezbollah estão a realizar ataques suicidas e a divulgar vídeos de pequenos drones FPV operados por cabos nos seus combates contra Israel.”

Drones FPV do Hezbollah e a Cúpula de Ferro

O que distingue estes aparelhos, em vários casos, é o uso de um cabo de fibra ótica, que torna muito mais difícil a interferência por parte de Israel e permite aos operadores conduzirem o drone manualmente, evitando os sistemas israelitas de bloqueio eletrónico. Como estes drones não emitem sinais sem fios e têm uma assinatura térmica e de radar praticamente inexistente, os meios israelitas de guerra eletrónica não conseguem bloqueá-los nem interromper o seu funcionamento.

Com um grau de precisão elevado, os operadores podem orientar os drones FPV de forma manual contra zonas frágeis de tanques e viaturas militares, incluindo torres e tapetes.

Porque são difíceis de detetar, bloquear e intercetar

Por voarem baixo e, regra geral, serem construídos em fibra de vidro leve, estes drones de pequenas dimensões estão a revelar-se muito complicados de detetar, bloquear ou intercetar. Por serem baratos e mais fáceis de sacrificar, terão inclusive colocado desafios ao sistema de proteção ativa israelita Trophy, desenhado para identificar e intercetar projéteis dirigidos contra tanques Merkava.

Israel admite que muitos destes drones poderão ser montados localmente, recorrendo a componentes de venda livre e a tecnologia de impressão 3D. O custo unitário poderá situar-se entre 300 (cerca de 255 euros) e 400 dólares (cerca de 340 euros).

Tashjian sublinha que “o surgimento desta nova tecnologia nos combates está a remodelar a forma como ambos os lados se adaptam no campo de batalha”. E deixa um aviso: os FPV guiados por cabos longos pelo grupo islamista podem contribuir para prolongar o conflito, “forçando Israel a contra-atacar armas baratas com defesas dispendiosas e a travar uma guerra de desgaste contra o Hezbollah”.

Resposta israelita e fragilidades da defesa aérea

Para lá da utilização em contexto de defesa ucraniana face à agressão russa, e do emprego iraniano em ataques a infraestruturas energéticas no Golfo Pérsico e para sustentar o controlo do Estreito de Ormuz, os drones passaram agora a ocupar um lugar central na estratégia do grupo apoiado pelo Irão no Líbano, direcionada contra tropas israelitas, posições militares e veículos perto da fronteira. São dispositivos mais económicos, muito manobráveis e capazes de contornar sistemas de defesa avançados.

Além do ataque divulgado no domingo, registou-se recentemente outro episódio, perto da fronteira entre Israel e o Líbano, no qual morreu o sargento-mor da reserva israelita Alexander Glovanyov.

O jornal The Jerusalem Post noticiou que, durante uma visita ao sul do Líbano na semana passada, responsáveis israelitas de topo discutiram vários programas-piloto para reforçar a deteção e a interceção de drones FPV. Ainda assim, o jornal ressalvou que as forças militares continuam “a tentar acompanhar o ritmo em tempo real”, uma vez que a ameaça se transforma rapidamente. Os sistemas de defesa aérea são descritos como essenciais e, simultaneamente, os mais expostos: se forem atingidos, toda a arquitetura defensiva pode colapsar.

As forças israelitas estão a receber instruções para dispararem sobre os drones quando os avistam. Em alguns locais, há unidades a improvisar, pendurando redes sobre posições militares, viaturas e edifícios, na expectativa de que os drones fiquem presos antes de detonarem.

Líbano, Irão e negociações com os EUA

O investigador da Universidade Americana de Beirute considera que Israel procura, de forma deliberada, manter a guerra no Líbano separada da guerra do Irão (apesar do alegado cessar-fogo anunciado para o território libanês). Desde logo, por entender que isso preserva a sua liberdade de ação no Líbano, contando com o apoio dos EUA. Em paralelo, vê-se também uma tentativa de dificultar as negociações entre os EUA e o Irão, dado que Teerão insiste que qualquer desfecho para a guerra terá de significar o fim de todas as frentes, incluindo a libanesa. “Israel não está satisfeito por incluir a questão libanesa nas negociações entre os EUA e o Irão, uma vez que pretende continuar os seus ataques no Líbano e aumentar a sua ocupação.”

Mais guerra em Gaza?

Na Faixa de Gaza, há igualmente o risco de a trégua ruir, numa altura em que prosseguem conversações com mediadores sobre a segunda fase do compromisso. As negociações entre as partes entraram num impasse. O porta-voz do Hamas, Hazem Qassem, disse à agência Anadolu que Israel “continua a insistir em levantar questões como o desarmamento palestiniano antes de avançar por qualquer outra via, sem fornecer quaisquer garantias”. Na leitura de Qassem, a exigência israelita de desarmamento antes de avançar com outros pontos do acordo constitui “uma violação e contradição” do plano anunciado pelo Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump.

Em setembro de 2025, Trump apresentou um plano com 20 pontos destinado a pôr termo à guerra em Gaza. Entre as medidas incluíam-se a libertação de prisioneiros israelitas, o desarmamento do Hamas, uma retirada parcial de Israel da Faixa de Gaza, a constituição de um governo tecnocrático e o envio de uma força internacional de estabilização. A primeira fase começou a 10 de outubro de 2025, mas Israel é acusado de múltiplas violações do compromisso, com ataques que terão causado 846 mortos palestinianos e 2418 feridos, segundo dados das autoridades palestinianas.

O Presidente norte-americano anunciou o arranque da segunda fase em meados de janeiro. A trégua foi sustentada por uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, emitida a 17 de novembro de 2025. Esta etapa previa uma retirada militar israelita mais ampla da Faixa de Gaza, iniciativas de reconstrução e o início de negociações de desarmamento envolvendo fações palestinianas.

Qassem acusa Israel de estar a expandir a área da chamada “linha amarela”, a zona tampão em Gaza. Segundo o porta-voz do grupo terrorista Hamas, Israel estará a “avançar para oeste e a tomar mais terras”. Qassem sustenta também que o ataque israelita contra Azzam al-Hayya, filho do líder do Hamas Khalil al-Hayya, teve como objetivo pressionar a delegação negocial diplomática do movimento no Cairo. E avisou que tais políticas “não conseguirão obter quaisquer concessões políticas da liderança da resistência ou do Hamas”.

A BBC refere que Israel poderá estar a preparar-se para retomar as operações na Faixa de Gaza devido ao bloqueio nas conversações e à recusa do Hamas em entregar as suas armas. “Nós compreendemos, todos compreenderam, que o Hamas não se desarmaria, e cumpriram essas suas intenções”, afirmou Michael Eisenberg, conselheiro do primeiro-ministro israelita, à BBC.

"Ninguém em Israel quer voltar à guerra", acrescentou Eisenberg, contrapondo, no entanto, que “todas as opções estão em cima da mesa neste momento”.

Em Israel, o Canal 12 noticiou que Washington poderá dar a Israel “luz verde” para retomar as “operações”. Entre os objetivos israelitas estará o alargamento da “linha amarela”, que delimita cerca de 60% da Faixa de Gaza - uma área que permanece sob controlo militar israelita durante o cessar-fogo.

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