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O hantavírus, a OMS e o pós-Covid

Pessoa a estudar coronavírus com livro, computador, jornal, máscara e frasco em mesa de madeira.

Há algo de perturbador neste hantavírus: os mortos num navio, a possibilidade - afinal - de existir transmissão interpessoal, e vários países já a fazerem rastreio de contactos. A OMS afirmou que o risco era baixo. Ouvi, mas não me soou convincente. Não é que eu pense que a OMS esteja errada; pode muito bem estar totalmente certa. Acreditei no que se sabia e desconfiei da serenidade. Não são a mesma coisa.

O risco baixo e a confiança quebrada

Vale a pena perceber porquê. Antes do Covid, quando a OMS dizia que o risco era baixo, isso tinha um efeito apaziguador. A autoridade epidemiológica funcionava, na prática, como funciona um padre. Não precisamos de dominar a teologia; precisamos de acreditar que alguém a domina. Era uma velha divisão de tarefas - e extremamente eficaz: os especialistas sabiam, o público confiava. Era um sistema bom. O Covid desfez esse acordo.

A dissolução após o Covid

E o que aconteceu não foi exactamente destruição; foi dissolução. A destruição tem uma narrativa: Roma ardeu, ficaram cinzas, reconstruiu-se. A dissolução, não. O açúcar dissolve-se na água e a água continua água, o açúcar continua açúcar - só que já não se consegue separá-los. A destruição é violenta, mas a violência ajuda-nos a identificar o que se perdeu. A dissolução deixa-nos com a sensação de que algo falhou, sem conseguirmos dizer o quê.

É que, em aparência, tudo ficou no sítio. Os especialistas permanecem. O conhecimento permanece. As conferências de imprensa permanecem, com os mesmos gráficos, a mesma linguagem técnica, o mesmo tom. Só que a função desapareceu. Mais especialização não resolve. Uma comunicação mais cristalina não resolve. Cientistas mais simpáticos nas redes sociais não resolvem. O defeito é estrutural.

Durante dois anos, entrámos num restaurante e pensámos no ar condicionado; apanhámos um avião e pensámos na ventilação; abraçámos alguém e pensámos na carga viral; tossimos e, com embaraço, garantimos a quem estava por perto, "não é covid!". Cada gesto banal passou a carregar um peso que nunca tivera. "Nenhuma doença vive apenas como doença," escreveu a Sontag. Ganha sempre uma segunda vida - metafórica, cultural - como veículo do que temos medo de dizer de outra forma. O Covid foi isso tudo e, além disso, foi vírus. A pandemia ficou, a metáfora ficou, o peso ficou - e o hantavírus volta a activá-lo. A ansiedade ao ler sobre o navio é, mais do que receio de um agente específico com elevadas taxas de mortalidade, o resto de uma percepção: a agência humana tem limites que não vinham no manual.

E ficou também o mundo em que esse manual deixou de chegar. Um mundo onde o risco pandémico está constantemente à vista: medido, rastreado, comunicado, comentado em tempo real, aberto no telejornal. A infraestrutura existe, tal como os protocolos. Esses não se dissolveram. Mas agora sabemos o que os vírus conseguem fazer; sabemos que alguns mudam depressa; aprendemos o que quer dizer RNA ou transmissão por aerossóis; aprendemos a ler um gráfico de contágio. Roubámos o fogo. Por isso Prometeu ficou acorrentado a uma rocha. É um castigo antigo e justo.

Do padre à leitura: o hantavírus como texto

Olhemos para o padre uma última vez. Antes do Covid, era ele - o especialista - o nosso contacto com um saber que não nos cabia dominar. A divisão resultava porque nós éramos paroquianos: íamos lá, confessávamos os sintomas, recebíamos a penitência e saíamos absolvidos. O conhecimento ficava do lado de lá da grade. E nós, gratos ao padre, regressávamos a casa.

A pandemia foi uma Reforma. Pôs a Bíblia nas mãos de toda a gente. Com RNAs, taxas de transmissão, mortalidade, imunidade de grupo, com venha o diabo e escolha, cada um traduziu o seu próprio Evangelho. Cada um descobriu, por conta própria, que o padre muitas vezes dizia a verdade e que noutras vezes sabia tão pouco quanto qualquer um. A confissão terminou e começou a leitura.

O hantavírus é, agora, um texto. Lê-se e discute-se. A OMS publica os seus versículos e nós voltamos a eles com atenção. Pode dizer que o risco é baixo, e talvez seja. Mas o público que lê não é o mesmo público que confessava. Já não há grade, já não há absolvição. Cada notícia destas é o punhado de pó que Eliot prometeu mostrar, e quem o segura sente-lhe o peso.

A graça era, no fim de contas, uma metáfora.

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