O desfecho da guerra tragicómica que está a empurrar o planeta para o empobrecimento e para o racionamento, para a perda de liberdade dentro dos estreitos horizontes dos mares do petróleo e das mercadorias, só podia desembocar nisto: o retorno daquele terror global, pretensamente glorioso, chamado vírus animal transmissível entre humanos. Contagioso.
Outra vez um vírus que vive num animal peludo e nada doméstico - o rato - e que, ao que parece, passa para as pessoas através das suas dejeções quando estas são inaladas, se entendemos bem. No que toca a vírus, tudo é sempre enredado.
Entre o rearmamento, os drones e a promessa de futuro
Até aqui, íamos levando a vida com uma serenidade relativa, espremida entre guerras, a ascensão de partidos populistas radicais que vão corroendo os chamados partidos liberais, a escassez de petróleo e de gás natural, o aparecimento da IA e as ameaças que nela se escondem, os atentados terroristas, a instabilidade financeira e o rearmamento apresentado como remédio universal.
Esse rearmamento que, supostamente, há de curar o atraso industrial e tecnológico da Europa, o desnorte político da União Europeia, a desunião e a cobardia das lideranças, a ameaça demográfica. Já agora, aproveita-se e mete-se no mesmo pacote o problema da habitação.
E ainda se espera que ofereça aos jovens um horizonte “viável”: fabricar e lançar drones, essa grande inovação tão festejada, que há de trazer tanta paz à Humanidade - e tantos louros aos novos heróis, os fabricantes de armas. É o que sobra de otimismo.
Venham, então, os drones. E o Governo português, no seu habitual brilhantismo, achou boa ideia oferecer aos jovens sem casa, sem emprego e sem futuro - a não ser a emigração - quatrocentos e tal euros e a carta de condução, para que se alistem no putativo exército português, esse de que não temos precisado e que passaremos a precisar. Porque os países do Leste europeu assim o decidiram.
E, para obedecer ao Presidente Trump - esse baluarte de estabilidade e racionalidade - teremos de comprar armamento norte-americano e gastar 5% do orçamento. Sai o hospital; entra o F-35, que é muito mais útil. Para quê camas e cuidados de saúde quando se pode ter um caça a riscar os céus nacionais?
Embora se adivinhe que o acidente esteja à espreita, visto que em Portugal morrem mais soldados em treinos do que em missões no estrangeiro. Temos uma percentagem elevada de acidentes em treinos militares, com 11 mortos em dez anos. Sem guerra, imagine-se quando houver mesmo guerra.
E guerra haverá: é um dos projetos europeus mais consequentes, a substituir os automóveis como indústria alemã relevante. E os nossos jovens emigrantes, em vez de seguirem para a hotelaria e para a engenharia nos países mais ricos e avançados da Europa, seguirão rumo ao míssil e às artes do ciberataque.
A imigração, a emigração e a “idade da reforma”
E assim continuávamos, presos à única e eterna zaragata de esquerda e direita sobre a imigração. Por cá importamos imigrantes, mas também exportamos emigrantes; somos muito equilibrados. Com a nuance de que os nossos emigrantes levam cursos superiores e licenciaturas pagos pelos impostos portugueses, graças à educação pública.
Ou seja: mais um argumento para os que desejam acabar com a educação pública quase gratuita repetirem que quanto mais cedo, melhor - já que, dizem eles, não serve o país, serve os outros.
O Chega, farol da inteligência nacional, diz ter uma resposta para problemas grandiosos: a tragédia demográfica, o desemprego jovem qualificado, a Segurança Social. Baixe-se a idade da reforma. Foi uma ideia que apanhou aos franceses, sem digerir o problema, como sempre, como se fôssemos tão ricos como a França.
E como se pudéssemos, à semelhança de certos jovens reformados franceses entre os 50 e os 60 anos, agitar o cachecol numa esplanada enquanto se lê filosofia e se discute a questão existencial. Isso não se aplica a pobretanas nem a consumidores de telenovelas e futebol.
O regresso do virologista e as origens do vírus
A vida já estava suficientemente áspera quando voltou a surgir nos ecrãs aquela figura que julgávamos esquecida: o virologista. Meu Deus, o regresso do virologista nunca é apenas simbólico.
Lá estava ele, com um esgar de autossatisfação, carregado de ciência e de certezas tão inabaláveis como as da pandemia do coronavírus, a garantir que deixássemos o tema hantavírus com ele - com o virologista. Ele é que sabe.
E, com um sorriso temperado por sobranceria, decretou que isto não se parecia em nada com a covid, que não havia razão para alarme nem risco para a Humanidade. Entretanto, ficámos a saber que o período de incubação pode ir até seis semanas; sendo assim, haverá por aí muita gente infetada a contagiar outros sem o saber. Fica-se muito descansado.
Mais uma vez, as origens do vírus são um enigma: o rato. Os alegados pacientes zero estavam a observar aves e passaram por um aterro sanitário nessa ida para a observação. Onde estava o rato? No aterro? Junto das aves? O problema de localizar o rato é antigo, é clássico.
Chegados aqui, percebe-se que o virologista e o infeciologista estão apenas a mandar palpites. Ao certo, ninguém sabe nada: se é mutante ou não; se está circunscrito ou não.
Parece que já saltou do navio para o avião, e isto faz lembrar qualquer coisa. Primeiro, porque agora é perigoso andar de avião; segundo, porque está mais caro por causa do estreito e do norte-americano transviado; e, terceiro, porque foi exatamente isto que disseram quando aquele SARS-não-sei-quê era um mistério e, afinal, não era perigoso.
Até que os passageiros de um voo de Paris para o Vietname - que levava uma mulher infetada, regressada das passerelles de modelos parisienses - começaram a cair como tordos. Até o piloto, na cabine de pilotagem, ser infetado, passar meses no hospital e ter médicos vietnamitas a fazer tudo para o salvar.
O vírus tinha chegado à Ásia. Mas parece que já tinha vindo da China - que também é Ásia - para a Europa.
Eu estava em Paris nessa altura e lembro-me das conversas dos parisienses: agitam o cachecol no café, pousam o livro de filosofia e dizem que não é nada; que é “uma coisa chinesa”, problema deles; que estamos seguros, sem paranoias.
Até que apareceu o virologista. Outra vez. Desta feita, alarmado. E, um dia depois, entrámos em confinamento. E as mortes começaram.
Vacinas, liberdade e o receio de repetir o confinamento
Por isso, em matéria de vírus, convém não opinar demasiado - nem cedo demais. Porque o virologista não se cansou de avisar quando a outra pandemia terminou: voltaremos a ter um vírus que passará de um animal para os humanos numa nova cadeia de transmissão.
Cientistas reputados afirmaram, de forma perentória, que a única certeza que tinham era que àquela pandemia se seguiria, em breve, outra pandemia. E metiam na equação as alterações climáticas, a desflorestação, e por aí fora.
Nunca chegámos a saber ao certo a origem do coronavírus, porque atiraram um manto de silêncio sobre o assunto e o jornalismo de investigação enfrenta na China dificuldades próprias.
Talvez a Humanidade esteja a sofrer a profecia bíblica das sete pragas do Egito. Infelizmente, o Presidente Trump que autorizou os milhões para a Operação Velocidade de Dobra - a corrida a uma vacina viável - já não está entre nós.
Temos agora um Presidente Trump que nomeou um diretor-geral da saúde desconfiado de vacinas e que prefere substituir a vacinação contra doenças infeciosas por proteína, musculação (de preferência numa praia), vitaminas e péptidos. Não se conhece o método para levar crianças e recém-nascidos à musculação prematura. Lá chegaremos.
Isto quer dizer que a América não nos irá acudir. Numa pandemia qualquer - hanta ou não hanta. Segundo o virologista, a pandemia chegará: vinda do rato ou de qualquer outro bicho. E os drones também não resolvem isto.
É mais cómodo dar crédito ao virologista e concluir que não tem importância nenhuma. E não aceitar a primeira vacina que nos quiserem impingir, muito menos se trouxer a marca AstraZeneca.
Nem tolerar o que tolerámos: a imposição drástica de privação de liberdade, a intolerância contra os rebeldes e a punição e o ostracismo dos recusantes. O segredo científico dominante que não admite perguntas e a conspiração de silêncio. A corrupção ligada à compra de equipamento e de medicamentos.
Em suma, a destruição da democracia. E dos direitos fundamentais.
Não voltaremos a isso: às máscaras e ao distanciamento social; à viagem à volta do quarto; à destruição dos empregos e da economia. O virologista é viral. Cuidado com ele.
Como dizem os franceses, a agitar o cachecol: que obsessão!
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário