Governos socialistas em retração na Europa
Pela Europa, já não abundam governos socialistas. No espaço da União Europeia, Espanha, Malta, Dinamarca e Lituânia são, neste momento, os únicos países em que a chefia política cabe a socialistas, trabalhistas ou sociais-democratas. O Reino Unido é igualmente governado por um partido trabalhista mas, como mostraram as eleições do final da semana passada, nada garante que essa situação se mantenha. E, mesmo que se mantenha, isso não significa necessariamente que exista um apoio popular sólido.
Se estreitarmos o foco para leste, o cenário para os partidos socialistas ainda é menos animador - pelo contrário, agrava-se. Como assinalava o jornalista Oliver Grimm num texto publicado na Matinale Européenne há algumas semanas: na Hungria, o partido socialista local não se alinhou com a oposição a Órban, concorreu e nem entrou no Parlamento. Na República Checa, também não. Na Bulgária, o mesmo resultado. A honra do convento socialista europeu é salva pelos governos da Noruega e Islândia. E isto acontece num contexto em que a perspetiva de adesão à União Europeia nesses países vai ganhando entusiasmo, mais por causa da conjuntura política internacional e do interesse americano pela Gronelândia do que por qualquer outro motivo - mas essa discussão fica para outra ocasião.
O caso do Reino Unido e o que ele sugere
Sobre o que se passou no Reino Unido na semana passada, é possível atribuir a culpa pelos resultados a Starmer, ao escândalo Mandelson, ao estado da economia, ou às inclinações europeístas do primeiro-ministro, que podem não coincidir com as preferências de eleitores labour em partes relevantes do país. Tudo isto ajuda, sem dúvida, a explicar.
Ainda assim, olhando à volta, parece haver uma tendência que aponta para outra explicação.
A ascensão da direita nacionalista e estatista
Na história política europeia, um enfraquecimento deste tipo costumava coincidir, do outro lado do tabuleiro, com o avanço de conservadores, democratas-cristãos e populares - num movimento pendular. Não é isso que parece estar a acontecer. No Reino Unido, em França e na Alemanha, para citar alguns dos casos mais evidentes, a dinâmica paralela que se observa é outra: o crescimento de partidos nacionalistas de direita, mais ou menos extremistas conforme os países. Não é preciso ser um génio para perceber que há aqui algo em curso.
A direita que cresce enquanto os socialistas minguam não é liberal. Não se trata de uma repetição do êxito de Reagan, Thatcher e até Kholl, a partir da década de oitenta. Farage, Le Pen e Bardella, ou Alice Weidel, prometem mais Estado. Mais proteção estatal contra a globalização, a imigração, o crime, o alegado ataque ao mundo rural e às tradições. São nacionalistas com uma agenda social. São social-conservadores. São estatistas de direita que prometem usar o Estado para proteger quem se queixa da modernidade e do que veio com ela. E, pelo caminho, socialistas/trabalhistas/sociais-democratas parecem ter ficado sem discurso: foram eles, muitas vezes, os campeões de várias das transformações de que estes eleitores agora se queixam.
O percurso para os partidos tradicionais de esquerda voltarem a encontrar o seu eleitorado não se afigura simples nem evidente. E seria um erro enorme que a direita tradicional encarasse esta crise com satisfação.
O risco para a alternância democrática moderada
Durante décadas, a Europa construiu a paz e a prosperidade numa alternância democrática entre dois polos moderados. É a possibilidade de um dia voltar a governar que leva oposições - tanto à esquerda como à direita - a aceitarem as mudanças que os governos acabam por ter de fazer. Por mais que se oponham ao aumento da idade da reforma, os socialistas sabem que, quando estiverem no poder, terão de pagar pensões. Por mais que protestem contra a política de imigração, os conservadores sabem que é necessária mão de obra. E assim sucessivamente.
Sem a alternativa de uma esquerda moderada, a direita de governo começa a governar fazendo contas às exigências da direita que está ainda mais à sua direita. Convence-se de que tem de legislar a pensar nela, se quiser ganhar eleições - até ao dia em que também seja ultrapassada. Em democracia, ninguém vence para sempre.
No Canadá, nos Países Baixos, e até em Itália (por muito que Meloni irrite muita gente), existe uma forma de fazer política com agendas bastante distintas, mas assente num discurso propositivo e otimista, que tem produzido bons resultados eleitorais. Para já. Claro que também se pode dizer que Macron começou da mesma maneira e acabará onde acabará.
Se a direita e o centro-direita, de um lado, e a esquerda e o centro-esquerda, do outro, quiserem voltar a dominar o espaço político, precisam que a discussão política volte a ser sobre si, sobre o que os diferencia, sobre o que propõem de diferente, dentro de um sistema que não querem desfazer. Se deixarem que o espaço político seja tomado pelas suas extremas, em breve estarão a falar sozinhos - como antes acontecia com os extremos.
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