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Cannes: o programa, os consagrados e o cinema português no Palais Lumière

Jovem segurando claquete num evento filmográfico na passadeira vermelha, com homens de fato ao fundo.

Cannes: um cartaz de luxo entre prémios e ausências americanas

Basta olhar para o alinhamento de Cannes para sentir aquele aperto de vontade de cinema em estado puro. Motivos não faltam: a seleção junta antigos vencedores da Palma de Ouro - Cristian Mungiu e Hirokazu Kore-eda -, do Grand Prix - Asghar Farhadi, Pedro Almodóvar, Lázló Nemes e Lukas Dhont - e ainda Pawel Pawlikowski, distinguido com o prémio de Melhor Realização. Pelo meio, há um regresso americano de peso à corrida ao ouro, pela sexta vez: James Gray chega este ano com “Paper Tiger”, anunciado em cima da hora e com um trio de estrelas à cabeça - Miles Teller, Scarlett Johansson e Adam Driver.

O menu impõe respeito, mesmo que se tenham ouvido reparos quando o diretor artístico, Thierry Frémaux, reconheceu que não conseguiu assegurar uma presença americana mais robusta. É verdade que o brilho de Hollywood aparece menos, mas isso também reflete o atual cenário de produção: há cada vez menos cinema de autor dentro dos grandes estúdios e, em paralelo, cresce a dependência de certos realizadores em relação às plataformas - uma tendência que Cannes procura contrariar.

Este sentimento de confiança na seleção nasce, sobretudo, da promessa de descobertas, ainda por cima depois de um ano anterior particularmente forte. Em 2025, filmes como “Valor Sentimental”, de Joachim Trier, “Foi Só um Acidente”, de Jafar Panahi, e “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, transformaram-se em sucessos internacionais e até chegaram aos Óscares.

Revelações em potência na seleção de Cannes

Sem que ninguém o tenha visto, há já um título francês a mobilizar expectativas: “L’Inconnue”, de Arthur Harari, adaptação de uma novela gráfica que parou França e que é assinada pelo seu irmão, Lucas. A narrativa cruza trocas de corpos com uma reflexão sobre género, traz Léa Seydoux no papel principal e tem fama de poder desconcertar quem se sentar na sala. É o tipo de filme que a imprensa francesa parece estar a elevar, desde cedo, a “caso”. Vale também recordar que “Onoda”, o anterior trabalho de Harari, chegou aos Césares (os prémios da Academia francesa) e conquistou o Prémio Louis Delluc - o galardão mais prestigiante em França a seguir à Palma de Ouro -, embora em Portugal a sua passagem pelas salas tenha sido discreta. Desta vez, “L’Inconnue” aterra na Croisette já com distribuição assegurada por cá.

Entre as possíveis surpresas está igualmente “El Ser Querido”, de Rodrigo Sorogoyen. O realizador espanhol ganhou novo estatuto após a receção muito positiva de “As Bestas”, um filme de suspense moral passado na Galiza. Agora trabalha com aquele que é, para muitos, o maior ator espanhol e apresenta um drama que lembra uma versão espanhola de “Valor Sentimental”: também aqui há um pai realizador (Javier Bardem) determinado a filmar com a filha atriz, Victoria Luengo. A coincidência é curiosa e pode influenciar a forma como o filme será lido, mas as primeiras imagens sugerem, sem dúvida, uma abordagem estimulante ao próprio ato de fazer cinema.

Também desperta curiosidade o regresso de Ira Sachs com “The Man I Love”, um dos títulos que aborda a temática LGBTQ+, centrando-se no flagelo da sida nos EUA durante a década de 1980. O elenco reúne Ebon Moss-Bachrach (da série “The Bear”), Rami Malek e Rebecca Hall. Falta perceber se nos chega o Sachs de “Homenzinhos” ou o do desapontamento imediatamente anterior, “Peter Hujar’s Day”, que nem sequer entrou no nosso circuito comercial.

O peso dos consagrados

Apesar das promessas, é entre os nomes consagrados que se concentram os filmes mais aguardados - e o primeiro da lista é “Natal Amargo”, de Pedro Almodóvar, que estreou em Espanha embalado pelo entusiasmo da crítica e do público (entre nós, está apontado para a reabertura pós-verão). Será desta que o espanhol conquista a Palma de Ouro, logo depois de ter triunfado em Veneza com “O Quarto ao Lado”? “Natal Amargo” volta a apostar na autoficção à maneira de “Dor e Glória” e, em França, o próprio distribuidor optou por catalogá-lo como “autofiction”.

Grandes expectativas recaem também sobre Asghar Farhadi, que apresenta “Histoires Parallèles”, novamente rodado em França e apoiado por um elenco de luxo: Vincent Cassel, Pierre Niney e Isabelle Huppert. Aqui está um projeto claramente desenhado para rentabilizar o prestígio do realizador, com ambições de ser um grande sucesso de bilheteira de autor, por assim dizer. Outro título muito aguardado é a coprodução franco-japonesa de Ryusuke Hamaguchi, “Soudain”, filmada em Paris. Desta vez, o realizador de “Drive My Car” atravessa fronteiras e coloca no centro a grande atriz belga Virginie Efira.

São dos consagrados os filmes mais esperados, a começar por “Natal Amargo”, de Pedro Almodóvar, mais uma autoficção na linha de “Dor e Glória”

Entre os favoritos mais “orgânicos”, impõe-se a menção a “Coward”, de Lukas Dhont, apontado como o seu filme mais ambicioso: uma história situada nas trincheiras da I Guerra Mundial. Do autor de “Close”, diz-se que está a tentar sair da zona de conforto.

Nesta edição, Cristian Mungiu volta a tentar a segunda Palma de Ouro com “Fjord”, rodado na Noruega e com estrelas internacionais, incluindo os nomeados aos Óscares Renate Reinsve e Sebastian Stan. Sabe-se que o filme gira em torno de uma intriga envolvendo uma família romena emigrada na Noruega.

Com a competição sempre de portas abertas, Andrey Zvyagintsev chega com “Minotaur”. Um festival fica sempre bem servido com a obra de um dissidente russo - e fica ainda melhor quando consegue chamar, outra vez, Pawel Pawlikowski. O polaco regressa com “Fatherland”, protagonizado por Sandra Hüller: o filme é a preto e branco e, ao que consta, ainda não tem distribuidor português com contrato fechado.

Para fechar este lote de realizadores já premiados, há ainda um novo Kore-eda - um cineasta que raramente entrega um filme menor. No futurista “Sheep in the Box”, o japonês propõe um debate em torno da inteligência artificial.

Afinal, há cinema português no Palais Lumière

Do lado português, e na prestigiada secção Cannes Première, Paulo Branco destaca-se ao apostar em Tiago Guedes e no filme “Aquí”, inspirado numa obra literária de J. M. Coetzee; “A Trilogia de Jesus”, falado em espanhol e com um elenco que inclui Manolo Solo, Patricia López Arnaiz e Albano Jerónimo. Com a possibilidade de filmar uma distopia num tempo de reinvenção da humidade, “Aquí” pode funcionar como passaporte para Tiago Guedes consolidar um fôlego internacional definitivo, depois de “A Herdade” ter competido em Veneza e “Restos do Vento” ter integrado a seleção oficial em Cannes. O grande desafio, neste festival, é perceber se a imprensa concentrada na competição consegue abrir espaço na agenda para uma sessão - até porque o filme tem 204 minutos…

Curtas portuguesas, La Cinef e Cannes Immersive

Na corrida à Palma de Ouro das curtas-metragens, Portugal volta a marcar presença com Daniel Soares e “Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de um Rio”. O cineasta regressa à mesma competição após “Bad for a Moment” (2024). O ponto de partida é um jogo em que adolescentes se deixam levar pela corrente de um rio, antes de o filme seguir por outro caminho. É um cinema totalmente livre, empenhado em abrir novas formas de linguagem, onde entram as redes sociais e as novas doenças da alienação social.

Ainda mais instigante é a curta da ESTC assinada por Clara Vieira, “Onde Nascem os Pirilampos”, uma espécie de fábula alternativa escolhida para La Cinef, a seleção oficial de filmes de escola. É mais um conto de bosque, também com adolescentes - dois deles a reagir às regras da atração romântica e a serem seduzidos por seres encantados. Traz uma ternura juvenil “desviante” e uma mão-cheia de achados visuais: um pequeno cometa inescrutável que funciona como espelho nacional de um cinema do presente, distante de linhagens bafientas.

Na secção Cannes Immersive, há igualmente sangue jovem português. Merece reverência sem fim “Lúcido”, de Vier, pensado para sessões em realidade virtual. A animação é produzida por Bruno Caetano, da Cola Animation, a mesma produtora que foi nomeada ao Óscar por “Ice Merchants”, de João Gonzalez - e a ligação não é acaso: Vier foi um dos animadores dessa pérola.

Esta “experiência”, passível de ser vivida de forma interativa, leva-nos pelo universo onírico de Gil, que, juntamente com o namorado, tenta dominar e controlar os sonhos. A certa altura, entra-se na noção de “sonho lúcido”, quando quem sonha sabe que está a sonhar. Tudo isto é trabalhado com um imaginário LGBTQ+ exuberante. No mínimo, entusiasma - e a música de Filipe Raposo faz maravilhas. Não se traduz, vive-se. Vamos certamente ouvir falar muito desta obra no futuro.

Da Quinzena dos Realizadores, há uma sessão especial de “Les Roches Rouges”, o muito aguardado filme de Bruno Dumont, que também traz uma ligação portuguesa: Rosa Filmes, de Bruno Sapinho, surge nos créditos. Esta secção paralela apresenta, este ano, trunfos capazes de impressionar: “Butterfly Jam”, de Kantemir Balagov; “Merci d’être venu”, de Alain Cavalier; “La Perra”, de Dominga Sotomayor; e “Le Vertige”, de Quentin Dupieux, que também coloca na secção oficial “Full Phil”, com Kristen Stewart.

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