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Iryna Terekh e a Fire Point: mísseis Flamingo FP-5

Jovem a montar um drone num atelier subterrâneo com equipamento de impressão 3D e computador portátil.

Uma geração de criativos ucranianos perante a guerra

Iryna Terekh integra a geração de criativos ucranianos cujo percurso foi profundamente alterado pela guerra injusta que se vive desde 24 de fevereiro de 2022. Numa guerra não existem “bons” vencedores. Ainda assim, no meio de perdas incontáveis, surgem conquistas que evidenciam a resiliência de um povo, a força do coletivo e, também, a importância da iniciativa individual. Por vezes, são precisamente essas vitórias que se tornam determinantes para encerrar um conflito a partir de uma posição de vantagem.

Cruzei-me com ela recentemente e ouvir a sua história, contada na primeira pessoa, ficou gravado como um exemplo invulgar de inteligência, inovação e combate. Com formação em design e arquitetura, Terekh distancia-se do retrato convencional associado ao universo da defesa e aproxima-se, antes, de uma cultura contemporânea feita de investigação, experimentação e pensamento estratégico interdisciplinar. O seu percurso pode ser entendido como uma demonstração clara de como o design, sob pressão extrema, revela a sua natureza mais essencial: a de instrumento capaz de reorganizar a realidade.

Do design e dos moldes aos drones na Ucrânia

Vinda de um contexto marcado pela precisão - era empresária na indústria dos moldes -, Terekh protagonizou uma mudança que é, ao mesmo tempo, técnica e simbólica. Passou de fabricar moldes a produzir drones na Ucrânia, mas o ponto crucial não está apenas no objeto final. A possibilidade de converter competências altamente especializadas, ligadas à produção e à engenharia, em dispositivos operacionais para um cenário de guerra mostra uma leitura do design como sistema adaptativo.

Aqui, o que está em causa não é só fazer objetos: é construir processos, aplicar inteligência, reconfigurar redes produtivas em tempo real. Nesse sentido, o seu trabalho inscreve-se numa visão alargada do design, em que este deixa de responder apenas à lógica de mercado para se tornar ferramenta de sobrevivência coletiva e de resistência.

A dimensão de empoderamento feminino é igualmente impossível de ignorar. Num território historicamente dominado por estruturas masculinas, Terekh afirma uma liderança que nasce da sociedade civil, reposicionando o lugar das mulheres não apenas como participantes, mas como agentes de transformação estratégica.

Os primeiros protótipos do míssil/drone Flamingo incluíam peças cor-de-rosa, não por escolha estética, mas porque era esse o revestimento industrial disponível. A equipa optou por não disfarçar essa improvisação. Pelo contrário: assumiu-a e transformou-a em identidade. Há, nessa escolha, uma camada quase cultural: aceitar a precariedade, convertê-la em linguagem e recusar a ideia de que a sofisticação tecnológica tem de seguir os códigos visuais tradicionais do poder militar.

Fire Point, mísseis Flamingo FP-5 e a reorganização em tempo real

Num período em que a Ucrânia foi forçada a reinventar os seus sistemas de defesa, figuras como Iryna Terekh - hoje CEO da Fire Point, empresa que também fabrica os mísseis Flamingo FP-5 - passaram a fazer parte de um novo ecossistema híbrido, onde engenharia, design, comunicação, tática e inovação atuam em simultâneo.

O pensamento de projeto, antes ligado sobretudo à criação cultural, converteu-se numa ferramenta de soberania. Mais do que uma designer que entrou no mundo da defesa, Iryna Terekh representa, talvez, uma transformação ainda mais funda do papel do criativo contemporâneo: alguém capaz de operar entre cultura, tecnologia e política, num tempo em que essas fronteiras deixaram de ser estáveis.

Produção em caves, artesanato e o lema da Fire Point

É num cenário muitas vezes de destruição total que as ucranianas e os ucranianos que sobrevivem tiveram - e têm - de se reorganizar. Os primeiros drones foram concebidos e montados em caves. Iryna explicou que muitas das mulheres envolvidas, devido à delicadeza exigida para manusear peças muito pequenas, vinham da joalharia e de outras áreas de artesanato. O mote da Fire Point é: “Se não formos nós, quem?”.

Guta Moura Guedes escreve de acordo com a antiga ortografia


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