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Eurovisão em Viena: 70ª edição arranca com boicote, Israel e protestos

Jovem segura placa com símbolo da paz em protesto com bandeiras da Europa, Israel e arco-íris frente a edifício clássico.

A Eurovisão começa esta terça-feira à noite, em Viena, na Áustria, com a primeira semifinal de uma edição que, por assinalar a 70ª, já era apontada como histórica - mas que pode vir a ficar marcada pelos piores motivos. Para lá de vários países terem boicotado o concurso por Israel se manter em competição e de mais de mil artistas terem subscrito uma carta a apelar ao boicote, estão previstos protestos e manifestações pró-Palestina ao longo desta semana nas ruas da capital austríaca.

Quem boicota

No início de dezembro, Espanha, Países Baixos, Irlanda, Islândia e Eslovénia decidiram bater com a porta depois de a organização da Eurovisão ter confirmado que Israel continuaria como concorrente este ano. A saída de Espanha é especialmente sensível: trata-se, historicamente, de um dos “big five” - o grupo dos cinco maiores financiadores do concurso (juntamente com Reino Unido, França, Alemanha e Itália) - o que representa um rombo nos cofres desta edição. Num momento em que as televisões públicas europeias, que integram a União Europeia de Radiodifusão (UER) - entidade responsável pela Eurovisão - estão sob pressão e a lidar com cortes orçamentais, o sinal é tudo menos animador.

Já a ausência da Irlanda cria um problema adicional para a UER, uma vez que é um dos dois países com mais vitórias na história da Eurovisão - a par da Suécia - somando sete triunfos. Para além de não participarem, as televisões de Espanha, Irlanda e Eslovénia optaram também por não transmitir o concurso, cenário que pode traduzir-se numa quebra significativa das audiências. Este ano, alguns sites de fãs anunciaram igualmente boicote: o Eurovision Hub, por exemplo, justificou a decisão com a frase “não nos sentimos alinhados com o concurso, neste momento”. Também o clube de fãs oficial irlandês escolheu não comparecer no evento.

Menor participação em mais de 20 anos

Como resultado destes boicotes, a 70ª edição passa a ser a de menor participação em mais de 20 anos, desde 2003: serão 35 os países a levar uma canção a Viena. O total não desce ainda mais devido ao regresso de três países este ano: a Bulgária, ausente desde 2022; a Roménia, que não concorria desde 2023; e a Moldova, que falhou a edição do ano passado.

Os protestos agendados

De acordo com a agência Reuters, está prevista uma primeira manifestação para a tarde desta terça-feira, com cerca de 500 participantes esperados. Na sexta-feira, o Resselpark, em Viena, deverá juntar três mil pessoas no Nakba Day, data que homenageia os 700 mil palestinianos que foram expulsos ou migraram na sequência da guerra que conduziu à criação do Estado de Israel, em 1948. No sábado, dia da final, também são esperados milhares de pessoas numa marcha com o mote “Solidariedade com a Palestina”.

Entretanto, as autoridades reforçaram as medidas de segurança na capital austríaca, e a polícia de Viena antecipa protestos espontâneos, sobretudo no sábado. Para esse dia, está igualmente prevista uma contramanifestação, com menos de 100 participantes esperados, sob o nome “12 pontos contra o antissionismo”.

Alterações na votação

Embora nunca tenha havido confirmação oficial, as suspeitas de manipulação do voto do público na edição do ano passado - alegadamente para favorecer Israel - levaram a mudanças nas regras: o público passa a poder votar no máximo 10 vezes, em vez de 20 como sucedia anteriormente, quer seja online, por mensagem de texto ou por chamada telefónica (os votos ficarão bloqueados ao método de pagamento). Recorde-se que, nas duas últimas edições, os representantes israelitas obtiveram classificações muito elevadas: em quinto em 2024 (segundo lugar no voto do público) e em segundo em 2025 (primeiro no televoto).

Neste momento, a canção israelita surge como a sexta favorita à vitória na tabela que reúne as principais casas de apostas. A promoção feita pelo governo israelita nas redes sociais tem sido alvo de críticas, levando a União Europeia de Radiodifusão a avisar a televisão pública de Israel para retirar os vídeos de uma campanha online que colidiam com uma das novas regras: “desencorajar campanhas de promoção desproporcionais… particularmente aquelas levadas a cabo ou apoiadas por terceiros, incluindo governos ou agências governamentais”.

Carta aberta

O movimento “No Music For Genocide” divulgou uma carta aberta com mais de mil assinaturas de artistas de vários países - entre eles Brian Eno, Roger Waters, Massive Attack e, de Portugal, Jorge palma, Linda Martini, Selma Uamusse e Fado Bicha - defendendo o boicote à Eurovisão por Israel se manter como concorrente. No texto lê-se: “Recusamo-nos a ficar em silêncio quando a violência genocida de Israel serve de banda sonora e silencia vidas palestinianas”.

A carta prossegue: “Em maio deste ano, espera-se que milhões de pessoas assistam ao 70º Festival Eurovisão da Canção. Pelo terceiro ano consecutivo, verão Israel ser celebrado no palco, apesar do genocídio em curso em Gaza, enquanto a Rússia continua banida devido à sua invasão ilegal da Ucrânia”, começa por ler-se, “como músicos e trabalhadores culturais, muitos dos quais vivendo em territórios abrangidos pela União Europeia de Radiodifusão, rejeitamos que a Eurovisão seja usada para encobrir e normalizar o genocídio, o cerco e a ocupação militar brutal de Israel contra os palestinianos”.

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