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Quem pode suceder Keir Starmer no Partido Trabalhista e no n.º 10 de Downing Street

Homem de fato azul visto de costas em frente à caixa de cartas vermelha da 10 Downing Street em Londres.

Numa fase em que a eventual saída de Keir Starmer da liderança do Partido Trabalhista e do Governo britânico parece ser mais uma questão de “quando” do que de “se”, o Reino Unido pode acabar com o sexto primeiro-ministro em seis anos - ou o sétimo em dez. E, não estando no horizonte uma solução que passe por eleições legislativas, o mais provável é que o próximo ocupante do n.º 10 de Downing Street resulte da escolha dos militantes trabalhistas.

Apesar do ambiente de tensão, nesta manhã de terça-feira não existe qualquer eleição marcada, nem sequer foi anunciado um pedido de demissão. No fim do Conselho de Ministros, o ministro do Trabalho, Pat McFadden, fez questão de sublinhar que ninguém, na reunião, colocou em causa o primeiro-ministro. Starmer mantém a narrativa de que ficará em funções até 2029, quando termina a legislatura, e diz ainda que pretende ir a votos nas legislativas desse ano. À saída do encontro, os ministros limitaram-se a falar de dossiês de governação.

Na quarta-feira, o rei Carlos III fará, no Parlamento, o discurso tradicional da abertura solene da sessão legislativa - um texto preparado pelo Governo onde são elencadas as prioridades para o ano seguinte. Seria estranho que o monarca o lesse com um chefe do Executivo já demissionário; para já, esse cenário parece afastado, a menos que até ao final do dia surja uma surpresa, algo que não seria inédito na política do Reino Unido, embora também não pareça provável com a informação disponível.

Com os nervos à flor da pele, poucos querem cometer erros: há quem se apresse por sentir que parte em vantagem, quem tenha entraves que recomendam ganhar tempo e, ainda, a possibilidade de surgir uma figura menos expectável. O certo é que várias personalidades do partido - e até do Governo - se vêm a posicionar há semanas ou meses, apesar de o atual primeiro-ministro estar no cargo há menos de dois anos, à espera do momento em que a corrida arranque.

Quem são, então, alguns dos nomes que podem tentar substituir o líder que, em julho de 2024, conquistou uma maioria absoluta de deputados (411 de 650), mas não de votos (33,7%)? A lista que se segue baseia-se no que tem sido avançado pela imprensa britânica e no facto de os visados não afastarem o cenário. Ainda assim, vale a pena recordar que as duas disputas internas anteriores à de Starmer, em 2020, deram resultados inesperados… basta recuar ao arquivo para ver como Ed Milband (2010) e Jeremy Corbyn (2015) acabaram por ganhar, e quem eram, então, os favoritos.

Wes Streeting

Entre os potenciais candidatos, Wes Streeting é o que aparenta maior urgência em ir a votos, por considerar que beneficia de uma dianteira - mais determinada pelas circunstâncias de cada pretendente do que por atributos pessoais de governação (ver, mais abaixo, Andy Burnham e Angela Rayner). É deputado há onze anos por Ilford Norte, na área metropolitana de Londres, e exerce funções como ministro da Saúde desde que Starmer chegou ao poder. Tem 43 anos e integra a ala direita do Labour, associada ao antigo primeiro-ministro Tony Blair (1997-2007), embora tenha vindo a assumir posições mais à esquerda no que toca a Gaza e ao Estado social. O seu noivo, Joe Dancey, é militante trabalhista e tentou, sem sucesso, ser candidato a deputado.

A ligação a figuras do blairismo, como Peter Mandelson, tende a ser um peso para Streeting. Mandelson foi nomeado por Starmer embaixador em Washington, mas ficou no posto apenas sete meses, depois de se tornar pública a sua proximidade a Jeffrey Epstein, o milionário norte-americano condenado por abuso sexual de menores, que morreu numa prisão de Nova Iorque, em 2019, num caso que a polícia considerou suicídio. Essa escolha prejudicou de forma significativa a imagem do atual primeiro-ministro.

Streeting poderá contar com apoio até 200 deputados. Um dos primeiros nomes a surgir na vaga de trabalhistas que, na segunda-feira à noite, pediram a demissão de Starmer foi o do seu aliado e adido parlamentar Joe Morris. Na rede social X, John McDonnell, deputado da ala esquerda, acusa Streeting, “protegido de Mandelson”, de ter “lançado um golpe, por temer um processo democrático”, tirando partido dos impedimentos que atingem outros candidatos. Já no outono tinham circulado rumores sobre uma tentativa de golpe interno promovida (e travada) por Streeting.

Angela Rayner

Angela Rayner, que foi vice de Starmer no partido e no Governo até setembro de 2025 e acumulava a pasta da Habitação, demitiu-se por ter pago menos imposto do que devia relativamente a uma casa de que é proprietária. Pertence à esquerda não radical do partido e tem raízes na classe trabalhadora (a mãe era analfabeta e bipolar). Desde 2015, representa na Câmara dos Comuns o círculo de Ashton-under-Lyne, na região de Manchester. Tem 43 anos, deixou os estudos quando foi mãe na adolescência (do primeiro de três filhos), e mais tarde formou-se em Serviço Social. Aos 37 anos, tornou-se avó.

O processo fiscal pendente é um obstáculo ao avanço de Rayner, embora não seja necessariamente inultrapassável. Foi uma das figuras mais relevantes do Labour a responder aos maus resultados das eleições locais e regionais (Escócia e País de Gales) de 7 de maio, ao pedir a Starmer que recentre a ação política nos mais desfavorecidos e no custo de vida. Criticou ainda o líder por ter bloqueado, em fevereiro, a candidatura a deputado de Andy Burnham numa eleição intercalar - condição indispensável para que Burnham pudesse ambicionar a liderança.

No seu percurso, Rayner traz experiência sindical e, da passagem pelo Governo, legislação laboral que beneficiou os trabalhadores, medidas de habitação que reforçaram a proteção de inquilinos e um impulso à construção de casas. Esteve também entre os que exigiram a Starmer a divulgação integral da documentação sobre Mandelson. É frequentemente descrita como autêntica e capaz de comunicar com o eleitorado, assumindo-se adepta de um socialismo pragmático.

Andy Burnham

Andy Burnham, presidente da Câmara da Grande Manchester, já tentou por duas vezes chegar ao topo do partido (2010 e 2015). Tem 56 anos e cumpre o terceiro mandato autárquico, depois de ter sido deputado por Leigh, na mesma área, entre 2001 e 2017. Durante a era Blair foi secretário de Estado da Reforma da Saúde; com Gordon Brown (2007-10), ocupou as funções de secretário de Estado do Tesouro, ministro da Cultura e, posteriormente, ministro da Saúde. Já na oposição, foi ministro-sombra da Educação sob a liderança de Ed Miliband e assumiu a pasta da Administração Interna no Governo-sombra de Jeremy Corbyn.

Burnham não disfarça a vontade de se candidatar uma terceira vez, e fá-lo-ia com um capital político superior ao de outras fases. Com elevada popularidade em Manchester e reconhecido no plano nacional, ofereceu-se, em fevereiro, para concorrer ao círculo de Gorton e Denton, após a renúncia do deputado por doença. A direção do partido, alinhada com Starmer, rejeitou a sua candidatura, numa decisão interpretada como forma de travar um avanço à liderança (já que ser deputado é requisito). Burnham é visto como ponte entre a esquerda e o centro, no mesmo espaço político de Rayner, com quem poderá, inclusive, formar uma aliança.

Para Burnham, seria útil que Starmer saísse de forma gradual, permitindo-lhe tempo para regressar a Westminster. Contudo, isso traz dois riscos: que um sucessor não consiga manter a autarquia de Manchester e esta seja conquistada pela direita populista (o Reform UK teve ali bons resultados a 7); e que o próprio Burnham perca uma eleição intercalar, o que comprometeria a sua carreira. Ainda assim, não deverá ser difícil encontrar uma vaga, dado que vários deputados críticos de Starmer - e também aliados desses críticos - estariam disponíveis para abdicar do lugar para favorecer a candidatura de Burnham.

Ed Miliband

Ed Miliband, atual ministro do Ambiente, foi um líder inesperado do Labour entre 2010 e 2015, ao derrotar o próprio irmão, David - que tinha sido ministro dos Negócios Estrangeiros, era apontado como favorito e acabaria por abandonar a política. A vitória de Ed ficou a dever-se, em grande medida, aos votos dos sindicatos afiliados ao Partido Trabalhista, que viam em David um herdeiro político de Blair. Depois de abandonar a liderança, na sequência da derrota nas legislativas de 2015 frente ao primeiro-ministro conservador David Cameron, Ed manteve um perfil discreto, até ser chamado por Starmer para uma pasta de que gosta.

Miliband tem 56 anos, é descendente de refugiados judeus polacos e formou-se em Filosofia, Política e Economia na Universidade de Oxford. Passou pela Channel 4, já em conteúdos de política, antes de entrar plenamente na vida partidária, trabalhando com uma figura destacada do Labour: Harriet Harman, recentemente recuperada por Starmer. Nessa fase, teve como colega Yvette Cooper, hoje ministra dos Negócios Estrangeiros. Mais tarde, colaborou com Gordon Brown, de quem foi ministro da Presidência e, depois, ministro da Energia.

Sem ter assumido, até agora, uma candidatura, Miliband surge como hipótese robusta caso haja disputa interna antes de Burnham conseguir regressar ao Parlamento (ou se o tentar e falhar) e antes de Rayner resolver o contencioso com o fisco. Mantém popularidade entre os militantes, apesar de episódios de gafe, como a fotografia pouco favorável a comer uma sanduíche e a célebre - e muito ridicularizada - pedra com mandamentos para a campanha de 2015. A desconfiança crescente em relação à capacidade de Keir Starmer para vencer as próximas legislativas, em 2029 ou antes, é precisamente uma das razões que alimenta o debate sobre a sucessão.

Shabana Mahmood

Shabana Mahmood, ministra da Administração Interna, está associada à ala Blue Labour, que privilegia as preocupações dos trabalhadores e tende a adoptar um conservadorismo cultural. Nasceu há 45 anos em Birmingham, filha de emigrantes paquistaneses - o pai foi militante e dirigente local trabalhista -, e estudou Direito em Oxford. Antes disso, viveu na Arábia Saudita, onde o pai trabalhou como engenheiro numa central de dessalinização. A mãe foi proprietária e gestora de uma loja de conveniência. Shabana exerceu advocacia durante vários anos.

Entrou na política em 2010, quando foi eleita deputada por Birmingham Ladywood. Ela e duas colegas tornaram-se as primeiras muçulmanas na Câmara dos Comuns. Com os trabalhistas relegados para a oposição após o período Blair-Brown, integrou o Governo-sombra com as pastas, sucessivamente, das Prisões, do Ensino Superior e do Tesouro, durante a liderança de Ed Miliband. Afastou-se da linha da frente quando o esquerdista Corbyn tomou as rédeas do partido, em 2015, embora tenha mantido o lugar de deputada.

O regresso à ribalta deu-se com Starmer: foi ministra-sombra da Justiça e integrou a direção da campanha vencedora nas legislativas de 2024. Nos primeiros meses do Governo trabalhista, como ministra da Justiça, enfrentou a sobrelotação prisional e prometeu firmeza contra manifestantes violentos. No ano seguinte, transitou para a Administração Interna, onde adoptou uma linha dura contra a imigração irregular, congratulando-se, em novembro, com “o nível mais baixo em meia década”.

Os outros

John Healey é ministro da Defesa (e foi sempre o porta-voz de Starmer para essa área), tem 66 anos e pode surgir como solução de compromisso ou temporária. Com reputação internacional, está no Parlamento desde o tempo de Blair e foi ministro da Habitação com Brown, além de ministro-sombra sob Miliband e Corbyn. Estudou Ciência Política em Cambridge e trabalhou como jornalista. Atlantista e defensor da Ucrânia contra o invasor russo, crítico cauteloso de Donald Trump, tem encontrado dificuldades em fazer crescer o orçamento da sua tutela.

Catherine West levou muitos a procurar quem era quando declarou, após as eleições locais, que avançaria contra Starmer caso ninguém o desafiasse. Deputada por Hornsey e Friern Barnet (norte de Londres), atenuaria a ameaça na segunda-feira, ao reconhecer falta de apoios e ao exigir apenas um calendário para a saída do líder trabalhista. Nos Comuns desde 2015, nasceu na Austrália, formou-se em Serviço Social em Sydney e especializou-se depois em Estudos Chineses. Foi autarca em Londres.

Al Carns, antigo membro dos Royal Marines - unidade anfíbia das forças armadas britânicas -, só é deputado desde a vitória trabalhista nas legislativas lideradas por Starmer. Escocês, com 46 anos e experiência de guerra no Afeganistão (que lhe rendeu condecorações e a alcunha “Action Man”), é deputado por Birmingham Selly Oak e secretário de Estado das Forças Armadas, depois de ter sido subsecretário de Estado dos Veteranos. Aconselhou três ministros da Defesa conservadores e é o único deputado atual ou antigo a ter escalado o Evereste.


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