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“Será mesmo com todo o prazer?”: excitação, orgasmo e prazer sexual no podcast O Prazer é Todo Meu

Duas pessoas a gravar um podcast num ambiente luminoso e descontraído com microfones e chá na mesa.

Durante muito tempo, o discurso público sobre sexo centrou-se sobretudo no perigo e na prevenção, deixando em segundo plano a dimensão do prazer. No entanto, abordar sexualidade sem incluir prazer é ficar com uma narrativa incompleta.

No episódio “Será mesmo com todo o prazer?”, Mafalda Cruz conversa com Nuno Louro, médico urologista com prática dedicada à andrologia, e com Iolanda Fontaínhas, socióloga e investigadora na área da sexualidade conjugal, para explorarem excitação, orgasmo e prazer sexual.

Costuma dividir-se a resposta sexual humana em etapas - desejo, excitação e orgasmo - e, apesar de esta organização ajudar a estruturar a conversa, não consegue abarcar toda a complexidade do que se vive. A excitação, por exemplo, não se reduz ao corpo: envolve cérebro, contexto, relação e a forma como aprendemos a habitar o nosso corpo.

A excitação não é só física

No universo masculino, é comum associar-se excitação a ereção. Ainda assim, Nuno Louro sublinha que a ereção resulta de um mecanismo neurológico e vascular, condicionado não apenas por estímulos mentais ou genitais, mas também por variáveis hormonais, psicológicas, relacionais e sociais.

A testosterona, muitas vezes apontada como explicação imediata para problemas de ereção, não tem uma ligação tão direta como se imagina. “É muito mais importante para o desejo do que propriamente para a ereção”, explica o urologista.

As dificuldades de ereção podem surgir com o avançar da idade, estar ligadas a patologia vascular ou neurológica, a alterações hormonais, ao efeito de certos medicamentos ou a fatores psicológicos. Resumir o tema apenas à testosterona, porém, é reduzir em excesso um fenómeno que é, por natureza, multifatorial.

O clítoris e a história de um esquecimento

Na mulher, a excitação é frequentemente traduzida pela lubrificação genital, mas também aqui existe uma componente cerebral decisiva. E quando o tema é prazer genital feminino, falar do clítoris é inevitável.

Iolanda Fontaínhas recorda que o clítoris é o principal órgão de prazer sexual feminino: é altamente vascularizado e concentra milhares de terminações nervosas. Além disso, grande parte da sua estrutura não é visível externamente.

Apesar deste papel central, o clítoris foi durante muito tempo desvalorizado. Não por se ignorar totalmente a sua existência, mas porque o corpo feminino foi repetidamente entendido como uma “variação” do corpo masculino. A medicina, construída ao longo de séculos sobretudo por homens, acabou por colocar o prazer feminino num plano secundário.

Esta herança continua a produzir efeitos. Ainda hoje, muitas mulheres crescem com pouco conhecimento da própria anatomia e sem a noção de que a penetração, por si só, raramente é a principal fonte de prazer feminino.

O mito do orgasmo vaginal

Um dos eixos centrais da conversa passa pela distinção entre orgasmo vaginal e orgasmo clitoriano. Do ponto de vista científico, esta separação não se sustenta tal como foi popularizada.

A ideia - fortemente influenciada por Freud - de que o orgasmo vaginal seria mais “maduro” e o clitoriano mais “infantil” marcou durante décadas a leitura que muitas mulheres fizeram da sua sexualidade.

Como sintetiza Mafalda Cruz, muitas acabam por sentir frustração por não conseguirem algo “que na verdade não é suposto conseguirem” dessa forma.

Quando o foco é apenas o orgasmo

Embora o orgasmo seja frequentemente tomado como sinónimo de prazer, também pode transformar-se numa fonte de ansiedade e exigência. Iolanda Fontaínhas explica que, em relações heterossexuais, persiste um guião muito centrado na penetração, tratando o orgasmo como o indicador final de “sucesso”.

“O orgasmo pode ser repressor”, defende. Não por ser irrelevante ou pouco prazeroso, mas porque passou a funcionar como um barómetro: se aconteceu, então o sexo “correu bem”; se não aconteceu, assume-se que algo falhou.

Esta pressão não recai apenas sobre um lado. Muitas mulheres sentem-se empurradas para fingir orgasmos para corresponderem à expectativa. Muitos homens, por sua vez, sentem a obrigação de garantir o orgasmo da parceira como prova de competência sexual.

E, no meio desse processo, perde-se uma noção essencial: prazer não é apenas orgasmo.

Como reforçam os convidados, o prazer está na experiência completa - no percurso, e não exclusivamente no destino. Pode haver relações sexuais gratificantes sem orgasmo. E também pode existir orgasmo sem que a vivência tenha sido, de facto, livre, prazerosa ou desejada.

Também há pressão sobre os homens

Nuno Louro chama a atenção para a forma como a sexualidade masculina é muitas vezes reduzida a ereção, ejaculação e orgasmo, quando estes fenómenos não são rigorosamente equivalentes.

Orgasmo e ejaculação podem acontecer ao mesmo tempo, mas não são a mesma coisa. E existem dificuldades ejaculatórias que continuam pouco faladas, como a ejaculação precoce, a ejaculação retardada ou a dificuldade em ejacular durante a relação, apesar de isso acontecer na masturbação.

Também os homens vivem sob a pressão de encaixar num modelo de desempenho: ter desejo, ter ereção, penetrar, ejacular. Quando esse guião falha, muitos interpretam isso como um falhanço enquanto homens.

Falar de prazer é falar de saúde

No fecho do episódio, fica uma mensagem-chave: o prazer tem de ocupar um lugar legítimo nas conversas sobre sexualidade.

Falar de prazer é falar de conhecer o corpo, de comunicar melhor, de liberdade, de igualdade e de relações mais satisfatórias.

E talvez a pergunta mais relevante não seja apenas se houve orgasmo. Talvez seja: foi mesmo com todo o prazer?

Pontos altos da conversa

  • “Muitas** mulheres priorizavam os desejos e vontades sexuais dos maridos** em detrimento do seu próprio prazer, quase numa lógica de fazer o trabalho de amor.” - Iolanda Fontaínhas
  • “A mulher sente uma pressão enorme porque, por uma questão de ego, o homem quer que ela atinja o orgasmo.” - Iolanda Fontaínhas
  • “Vemos homens cada vez mais preocupados em que a outra pessoa tenha prazer e em perceber como. Mas o que nós vemos muito pouco é comunicação.” - Nuno Louro
  • “Tanto nos homens como nas mulheres, há algumas doenças ou medicações que podem dificultar o orgasmo, sobretudo os antidepressivos ou outros fármacos para tratar diabetes e hipertensão.” - Nuno Louro
  • Se eu não digo aquilo que efetivamente é mais satisfatório, e que gosto mais, a probabilidade de eu conseguir ter uma relação prazerosa vai reduzir.” Iolanda Fontaínhas
  • “Há aquilo que chamamos o tempo refratário. Após a ejaculação e orgasmo (...) há uma incapacidade em termos de ereção que para alguns homens podem ser um ou dois minutos, para outros pode ser um dia até conseguir ter uma ereção suficiente.” - Nuno Louro

O Prazer é Todo Meu é um podcast dedicado à saúde sexual, às relações e à intimidade, com o objetivo de reforçar a literacia em saúde sexual através de uma abordagem científica, acessível e empática. Objetivo: desmistificar conceitos, quebrar tabus e incentivar a discussão sobre prazer, consentimento, disfunções sexuais e bem-estar emocional.

Em cada episódio, a médica Mafalda Cruz traz para a conversa aquilo que raramente se diz sobre sexo, dor e relacionamentos.

'O Prazer É Todo Meu' inclui convidados especialistas e também histórias reais. Porque todos temos uma sexualidade para explorar sem filtros. Todas as terças-feiras há um novo episódio no Expresso e na sua app de podcasts.

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