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Alergias sazonais em Portugal: anti-histamínicos, imunoterapia e pycnogenol

Homem com expressão desconfortável segura um copo de água junto a frascos de medicamentos e fruta à beira de um rio.

Nas últimas décadas, as alergias sazonais têm vindo a atingir um número crescente de pessoas. “Estima-se que em Portugal afetem cerca de um terço da população”, afirma a imunoalergologista Ana Castro Neves. Entre as patologias mais frequentes, destaca a rinite, a rinoconjuntivite e a asma, sublinhando que hoje estas alergias pesam mais na qualidade de vida por se manifestarem de forma mais continuada e intensa. “Atualmente, vejo doentes mais sintomáticos. Os sintomas causam maior interferência no sono, na sua produtividade e bem-estar, e os doentes têm maior dificuldade em controlar a doença, como, por exemplo, a asma”, acrescenta.

Porque aumentam as alergias sazonais em Portugal

O crescimento da incidência das alergias sazonais - que, como alertou a Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC) no ano passado, deverá continuar a verificar-se nos próximos anos - relaciona-se com o estilo de vida, mas também com a poluição e com épocas de polinização mais prolongadas, impulsionadas pelas alterações climáticas. Há uma alteração do ciclo de vida das plantas, o que leva “à alteração dos períodos de libertação do pólen, à quantidade produzida pelas mesmas e alteração da composição dos pólenes, tornando-os mais propensos a desencadear reações alérgicas. Como resultado, a época polínica tende a começar mais cedo na primavera e prolongar-se por mais tempo no outono”, explica Ana Castro Neves.

A isto juntam-se fenómenos meteorológicos extremos - como ondas de calor, secas e tempestades -, os incêndios florestais e o aumento de episódios de poeiras provenientes do deserto do Saara, fatores associados ao aparecimento ou ao agravamento de determinadas doenças respiratórias. O impacto pode sentir-se em todas as idades, mas crianças e idosos são particularmente vulneráveis. “Embora os idosos não sejam normalmente o grupo com maior prevalência de alergias sazonais, podem sofrer consequências mais sérias quando os sintomas se agravam”, refere a especialista.

Medidas diárias e alimentação com efeito anti-inflamatório

Para reduzir o desconforto e atenuar os sintomas, há medidas simples que podem fazer diferença: usar óculos de sol para proteger os olhos; manter as janelas fechadas, sobretudo nas horas de maior calor e vento; lavar com frequência as mãos e a cara; e trocar de roupa ao chegar a casa. Também a alimentação pode contribuir. “Tentar optar por uma alimentação de base mais anti-inflamatória poderá ser uma estratégia prudente, porque o que as alergias fazem é potenciar esta resposta inflamatória”, explica Mariana Cardoso, nutricionista. Nesse contexto, aponta opções com propriedades antioxidantes, como frutas e legumes, sementes e peixe, por ser fonte de ómega-3.

De medicamentos anti-histamínicos a suplementos como o pycnogenol

Do ponto de vista terapêutico, existem medicamentos - como anti-histamínicos e aerossóis nasais - que ajudam a manter os sintomas sob controlo. Há ainda a imunoterapia, frequentemente designada por “vacina das alergias” e descrita por Ana Castro Neves como “o único tratamento que pode alterar a história natural da doença alérgica”. De acordo com a imunoalergologista, a finalidade é “reduzir os sintomas que ocorrem após a exposição às substâncias a que se é alérgico, reduzindo a necessidade de medicação, sendo possível obter benefícios que se mantêm por vários anos após a paragem desta terapêutica”.

Em paralelo, alguns profissionais de saúde referem uma substância cujos benefícios no alívio das alergias sazonais e um possível efeito anti-histamínico têm sido estudados nos últimos anos: o pycnogenol. Trata-se de um extrato natural da casca do pinheiro marítimo, em particular de uma região francesa. “É rico em polifenóis, que têm vários tipos de ação: anti-inflamatória e antivirais, e sobretudo, aquela que é a mais importante, a antioxidante”, afirma Miguel Baião, médico de medicina geral e familiar, com pós-graduações em nutrição clínica funcional, suplementação ou fitoterapia.

Miguel Baião exemplifica com evidência disponível, salientando as limitações típicas dos estudos iniciais: “Há um estudo, que envolveu poucas pessoas – no princípio dos estudos é normal – e foi na época do pólen. A redução dos sintomas oculares foi em menos de 35% e dos sintomas nasais em menos de 20%. O melhor efeito veio depois de fazer as tais 3, 4, 5 e 8 semanas, e concluiu-se uma melhoria da rinite alérgica”, refere, mencionando ainda outros trabalhos focados na ação da substância na diminuição da libertação de histamina.

O médico admite que, em situações específicas, pode fazer sentido ponderar este tipo de abordagem, inclusive como complemento: “em vez de receitar tanto anti-histamínico ou anti-inflamatório clássico – que têm alguns inconvenientes e efeitos secundários –, poderemos tentar utilizar este produto, até como adjuvante”, observando que alguns dos seus doentes recorrem ao pycnogenol e “sentem-se muito bem”. Ainda assim, chama a atenção para potenciais riscos quando se conjugam suplementos e medicamentos, pelo que é essencial confirmar o diagnóstico e discutir sempre o tema com um profissional de saúde.

Também Mariana Cardoso diz que tem vindo a sugerir este suplemento nas consultas com o mesmo objetivo. “Noto que as pessoas não têm uma crise tão forte. Alguns medicamentos anti-histamínicos podem provocar sonolência, o que acaba por ser um entrave para algumas pessoas, e ao usar o pycnogenol têm a vantagem de poder fazê-lo de forma contínua sem ter este efeito secundário associado. O feedback que tenho tido, ao nível da rinite alérgica, é positivo”, garante.

“Ainda não há provas suficientes”

Apesar disso, Ana Castro Neves defende que “atualmente não há evidência científica robusta que permita recomendar o pycnogenol como alternativa ou complemento à terapêutica existente, como os anti-histamínicos clássicos”. Acrescenta que “há alguns profissionais que sugerem o pycnogenol como adjuvante, mas isto não faz parte das normas orientadoras científicas convencionais de Imunoalergologia”, pelo que a sua utilização será “mais experimental do que prática corrente”. E, mesmo reconhecendo que “poderá ter algum interesse científico, mas ainda não há provas suficientes para o recomendar de forma generalizada no tratamento das alergias”, mantém reservas.

A imunoalergologista refere, ainda, outras linhas de intervenção que têm suscitado atenção científica no campo das alergias, incluindo suplementos e compostos bioativos, “embora com diferentes níveis de evidência”. Menciona, por exemplo, os probióticos e a modulação do microbioma intestinal, bem como terapêuticas mais avançadas, onde se enquadra o desenvolvimento de fármacos biológicos direcionados, que “já estão aprovados para algumas doenças alérgicas graves e refratárias”. Neste grupo, as terapêuticas biológicas são “as que apresentam maior impacto clínico”.


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