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Luís Neves, Ventura e os bons e maus da esquadra do Rato

Homem em fato fala ao microfone com dois polícias e bandeira de Portugal ao fundo, em sala iluminada.

Luís Neves como “o bom”: firmeza e consciência no Ministério da Administração Interna

Luís Neves demorou muito pouco a mostrar que está no sítio certo e, por isso, é o “bom” desta história. Mesmo para quem, como Passos Coelho, viu na nomeação do diretor nacional da PJ para ministro da Administração Interna um “precedente grave”, Luís Neves tem de merecer nota máxima pela forma corajosa como exerce a função.

Segurança em Lisboa, Moedas e a recusa da “teoria do caos”

Politicamente, não lhe torna a vida mais simples ter de desdizer o principal autarca do partido sobre a segurança que existe - ou não existe - em Lisboa, deixando o apelo para que "ninguém utilize os números para, através da manipulação, massificação e deturpação, possa vir a criar uma teoria do caos em que o objetivo é combater o respeito por todas as formas de diversidade do ser humano".

Num tema em que até o próprio primeiro-ministro tem recorrido às perceções para comunicar politicamente, é de assinalar que o ministro não vacile nas suas convicções. Podia optar por uma postura mais reservada, mas avisou na posse que não aceitaria nada que violasse a sua consciência.

Não se conclua, ainda assim, que as críticas de Neves tenham como alvo direto o governo de que faz parte. O ministro não dá tréguas ao populismo de Moedas, mas o seu dedo aponta, sobretudo, a Ventura - e o líder do Chega não lhe perdoa. Só isso já bastaria para alguns lhe quererem pôr uma comenda.

O confronto político mais recente nasce da forma como ambos reagiram à miséria humana do que se passou na esquadra do Rato, situação que levou o ministro, em entrevista à TVI, a sublinhar que "são crimes particularmente graves, muito graves”, condenando-os de “uma forma muito ampla e veemente".

No faroeste realizado por Sergio Leone, Blondie, interpretado por Clint Eastwood, é “o bom” não porque seja virtuoso, mas porque é o menos cruel dos três. Neste policial da vida real, Luís Neves só tem revelado virtudes.

Os maus

O mau desta história é cada um dos criminosos que veste a farda para violar, torturar e ofender pessoas em situação de grande vulnerabilidade. E, sendo verdade que há uma distância considerável entre quem cometeu esses crimes e quem - depois de ter sabido deles através de grupos WhatsApp - não os denunciou, não se pode fazer de conta que esse comportamento é neutro: esse silêncio também tem de ser combatido, e penalizado, para que não se transforme num código de honra entre profissionais da polícia que apenas beneficia os criminosos.

Silêncio, extrema-direita e a defesa da PSP e da GNR

Também não dá para fingir que não existe um problema de infiltração das forças de segurança por pessoas de extrema-direita. E, sabendo-o, não podemos ignorar que há uma ligação entre uma coisa e outra. O que não se pode é varrer o tema para debaixo do tapete, como se assim se protegesse a imagem da PSP ou da GNR. É assumindo que a esmagadora maioria da polícia está comprometida com a lei e, ao mesmo tempo, condenando os criminosos, que se defende verdadeiramente as forças de segurança.

Na coboiada, Angel Eyes, interpretado por Lee Van Cleef, é “o mau” e nunca demonstra empatia. Representa a maldade calculista e sem remorsos.

O vilão

Perante tudo isto, não espanta que André Ventura tenha aparecido a criticar o ministro da Administração Interna: o líder do Chega vive do oportunismo político. Mas não deixa de ser grave que o líder do segundo maior partido no Parlamento, perante os crimes hediondos que foram praticados na esquadra do Rato, se refugie em salamaleques à PSP para não condenar os criminosos com a veemência necessária.

Ventura invoca as agressões de que as forças de segurança são alvo - e que, como devem ser, têm uma moldura penal mais grave do que uma agressão comum - como se, em algum momento, uma realidade fosse consequência da outra, ou como se pudessem servir de justificação mútua. O líder do Chega não é quem defende a Polícia; quem o faz é o ministro da Administração Interna, o diretor nacional da PSP e os agentes que cumprem e fazem cumprir a lei.

No filme, Tuco, interpretado por Eli Wallach, é impulsivo, falador e caótico. Oportunista e sobrevivente nato, alternando entre comicidade e brutalidade, Tuco é “o vilão” mais por ser desordeiro do que por pura maldade.


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