Não vale a pena dourar a realidade: aquela mulher estava sozinha. Ficara viúva quando os filhos ainda eram pequenos e, com o tempo, esqueceu-se até de que existiam roupas que não fossem pretas. E, à medida que se vestia de luto por fora, ia-se também a escurecer por dentro, apesar de tudo o que tentava fazer para não ceder.
A Miquinhas e a vida vestida de preto
Ninguém atravessa o funeral de um filho e sai intacto; ela atravessou dois. No segundo, já era a mais morta de todo o velório. Até o rapaz estilhaçado parecia transbordar vida quando comparado com ela. O primeiro a partir foi o Fábio - como se não pudesse ser de outra maneira. Mas quando o Marcelo acabou debaixo de um carro, o impacto das rodas foi o golpe final para a mãe. Quem a via chegava a pensar que teria sido preferível o condutor distraído ter atropelado os dois de uma vez.
Fábio: o primeiro funeral e a queda aos 24
Quando o Fábio morreu, repetiram-lhe todos a mesma frase: “Pelo menos, tem o Marcelo.” E, durante anos, o Marcelo foi mesmo uma espécie de bengala. Passava os sábados com ela, fazia-lhe as compras, aparecia-lhe em casa com tupperwares de empadão de pescada e sopa - para ela poupar tempo, esforço e costas. Além disso, desde a adolescência do Fábio que se sabia que ele tinha de terminar antes de nós.
E terminou: morreu aos 24. A mãe fez o que pôde para o impedir de insistir em ser um Ícaro moderno, a cambalear rumo ao abismo, mas a vida deles não era feita de mal-entendidos; era de desentendimentos. Ela queria que ele arranjasse trabalho na repartição das finanças e deixasse de lhe surripiar notas da carteira; ele queria era ir ao coreto do parque à procura da veia, com a ponta da seringa. O Marcelo enchia-se de raiva com aquilo: era a mãe a trabalhar como uma escrava nas limpezas para ele depois gastar em droga; era a mãe a consumir-se, como ele se consumia. E o Fábio nunca entendeu que consumir heroína era, ao mesmo tempo, consumir a mãe.
Marcelo: a “bengala” e o segundo golpe
Foi o meu pai quem o encontrou morto à porta da nossa casa. Era domingo, muito cedo, e ninguém tinha forma de saber que a mãe estava acordada, às voltas na cama, gasta de tanto esperar pelo filho - um filho que só chegou para lhe morrer aos pés. A nossa casa era paredes-meias com a dela. Viu-o o meu pai, viu-o a minha mãe, vi-o eu, com seis ou sete anos. E o Fábio ali, inerte, vindo do parque, que ficava a três passos. No fim, foi a minha avó quem foi bater à porta da senhora que, a partir daí, nunca mais foi gente.
O urro que lhe saiu da garganta ficou-me a assombrar para o resto da vida - e nunca mais lhe saiu da voz. Bastava olhar para ela para se perceber: era uma mulher adoecida pela perda de um filho, marcada por um funeral que devia ter sido o dela. Já ao ver o Marcelo, ninguém sabia o que dizer. As pessoas queriam dar-lhe pêsames e tristeza, mas ele sentia, mais do que a dor por perder o irmão, a dor da dor que via na mãe. Até no funeral, ele era só fúria. Eu estive lá 15 minutos e depois mandaram-me ir brincar, mas aquele homem furioso ficou-me preso à cabeça. Homem, como quem diz - um miúdo. Aos meus olhos, do alto dos seus 19, parecia-me velho; e mais velho me pareceu depois, quando teve o azar de ser colhido por um carro.
Desta vez, já nem havia frases feitas. Por muito que alguém tentasse puxar um fio de otimismo, toda a gente pensava que não havia remédio. E a Miquinhas - que no primeiro funeral já era sombra, e que mesmo antes do primeiro sombra já era - a partir dali tornou-se uma escarpa. Víamos-la várias vezes, e a minha avó falava com ela todos os dias, mas nunca mais a voltámos a ver viva.
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