Ativistas da Flotilha 'Global Sumud' serão desembarcados na Grécia
Os ativistas da Flotilha 'Global Sumud', que tentavam chegar a Gaza e foram detidos ao largo de Creta por forças israelitas, vão ser encaminhados para a Grécia - e não para Israel -, informou esta quinta-feira o ministro dos Negócios Estrangeiros israelita.
Numa primeira indicação, as autoridades tinham referido que os 175 ativistas detidos - incluindo três portugueses (211, segundo os promotores da iniciativa) - seguiam rumo a Israel. O grupo encontrava-se a bordo de cerca de duas dezenas de embarcações que navegavam em águas internacionais, a grande distância da costa israelita.
Entretanto, “na sequência de um acordo com o Governo grego, os civis transferidos dos navios da flotilha para um navio israelita serão desembarcados nas próximas horas nas costas gregas”, escreveu Gideon Saar na rede social X.
“Agradecemos ao Governo grego a disponibilidade para acolher os participantes da flotilha”, acrescentou o chefe da diplomacia israelita.
Posição grega e reação de Portugal e outros países europeus
Do lado grego, o Governo precisou que não participou na operação israelita dirigida contra 22 navios da flotilha, a oeste da ilha de Creta. Atenas sustenta que, estando em águas internacionais, não dispõe de competência para atuar, uma vez que essa responsabilidade cabe ao Estado de bandeira de cada embarcação.
“As autoridades gregas não têm o direito de intervir em águas internacionais, salvo em caso de operações de busca e salvamento”, declarou Pavlos Marinakis, porta-voz do Governo conservador grego, numa conferência de imprensa em Atenas.
E, apesar de a ação israelita ter acontecido a oeste de Creta, numa área de jurisdição grega de busca e salvamento (SAR, na sigla em inglês), “a Guarda Costeira da Grécia não tem o direito de exercer competências policiais em águas internacionais”, acrescentou.
Em Lisboa, o ministro dos Negócios Estrangeiros afirmou hoje que o embaixador israelita foi chamado para prestar esclarecimentos sobre a detenção de ativistas pró-palestinianos, assegurando que os serviços consulares estão prontos para receber os portugueses, quer na Grécia quer em Israel.
“Nós temos as nossas autoridades consulares em Telavive e em Atenas a fazerem todas as diligências para darem a proteção consular a estes ativistas que terão sido detidos, e eventualmente a outros que possam vir a ter problemas com Israel”, disse Paulo Rangel, a propósito da interceção, pelas forças israelitas, da Flotilha 'Global Sumud' que se dirigia à Faixa de Gaza.
Em declarações à agência Lusa, à margem do Fórum Portugal Nação Global, o governante sublinhou ainda que, por a flotilha ter sido detida em águas internacionais, o representante diplomático de Israel em Lisboa foi convocado para explicar a operação ao Governo português, à semelhança do sucedido noutros países europeus.
“Como houve esta operação em águas internacionais, dei instruções e já foi chamado o embaixador de Israel para dar explicações junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros”, afirmou Rangel, acrescentando que “toda a proteção diplomática está ativada, aliás já tinha sido ativada preventivamente, mas está neste momento ativada nas duas capitais (Telavive e Atenas), onde ela pode ter efeitos favoráveis aos nossos cidadãos”.
Também o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Espanha manifestou inquietação e chamou a chefe da embaixada de Israel em Madrid, para lhe transmitir um protesto pela detenção de membros da Flotilha 'Global Sumud', que procuravam chegar a Gaza, visto que cerca de 30 pessoas com passaporte espanhol integravam a flotilha.
Roma e Berlim disseram acompanhar o caso com “viva preocupação”, Madrid condenou “veementemente” a interceção e Paris apelou a “todas as partes” (sem especificar) para que respeitem o direito internacional.
As autoridades francesas indicaram que 15 cidadãos franceses foram detidos. Já Roma, segundo a agência noticiosa italiana ANSA, exigiu a “libertação imediata de todos os italianos detidos ilegalmente” (24).
Antecedentes, alegações e contexto do bloqueio a Gaza
Em 2025, uma primeira viagem da flotilha 'Sumud' (“resiliência”, em árabe) com destino à Faixa de Gaza já tinha despertado atenção internacional.
Nessa ocasião, várias centenas de ativistas - entre os quais a sueca Greta Thunberg e a eurodeputada franco-palestiniana Rima Hassan - foram detidos no mar, levados para Israel e mais tarde expulsos, depois de afirmarem ter sido alvo de maus-tratos durante a detenção, acusações que as autoridades israelitas negaram.
Os participantes desta nova flotilha diziam pretender furar o bloqueio a Gaza e entregar ajuda humanitária ao território palestiniano, cujo acesso continua fortemente condicionado, apesar do cessar-fogo frágil em vigor desde outubro passado entre Israel e o movimento islamista Hamas.
Segundo os organizadores, que divulgaram informação na rede social X, as embarcações foram abordadas durante a noite de quarta-feira “por vedetas militares que se identificaram como sendo de Israel”. Acrescentaram que os ocupantes “apontaram lasers e armas de assalto semiautomáticas” e “ordenaram aos participantes para se reunirem na proa das embarcações e se colocassem de gatas”.
Os ativistas foram “raptados” por Israel, denunciou a organizadora Yasmine Scola numa conferência de imprensa por videoconferência, a partir de um dos navios. De acordo com Scola, a embarcação transporta material escolar e alimentos.
Por seu lado, Israel disse ter encontrado a bordo apenas preservativos e cocaína, acrescentando que os ativistas “se divertiam” no convés das embarcações israelitas após a detenção.
A flotilha partiu inicialmente com mais de 50 embarcações, que zarparam nas últimas semanas de Marselha (França), Barcelona (Espanha) e Siracusa (Itália). De acordo com dados de navegação dos organizadores, cerca de duas dezenas permanecem ao largo de Creta.
“A operação foi realizada em águas internacionais, de forma pacífica e sem vítimas”, afirmou anteriormente o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita, Oren Marmorstein.
A Amnistia Internacional defendeu, pelo contrário, que “o facto de a Marinha israelita percorrer centenas de milhas no mar para impedir embarcações civis que transportam alimentos, leite para bebés e material médico de chegar aos palestinianos demonstra até onde Israel está disposto a ir para manter o seu bloqueio cruel e ilegal”.
A Faixa de Gaza, sob governação do Hamas, está sujeita a um bloqueio israelita desde 2007. A guerra devastadora desencadeada pelo ataque sem precedentes do movimento islamista em Israel, em 7 de outubro de 2023, provocou graves carências de alimentos, água, medicamentos e combustível. Desde o cessar-fogo precário em vigor desde outubro, o exército israelita controla mais de metade do território costeiro.
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