A deslocação inaugural de Péter Magyar a Bruxelas serviu como prenúncio da postura construtiva que diz querer adoptar para que a Hungria volte a ter acesso aos fundos europeus actualmente congelados, num montante próximo de €18 mil milhões. O quase primeiro-ministro mostra-se disponível para levar por diante reformas há muito pedidas por Bruxelas, destinadas a contrariar a corrupção e as ameaças ao Estado de Direito associadas ao regime de Viktor Orbán. “Gostaria de tranquilizar todos quanto ao facto de a União Europeia [UE] não estar a impor quaisquer condições contrárias aos interesses nacionais da Hungria”, escreveu nas redes sociais, após o encontro com a presidente da Comissão Europeia.
Magyar apresenta este momento como uma ruptura com o tom de hostilidade e as acusações permanentes entre Budapeste e o executivo comunitário, a quem Orbán se referia, de forma depreciativa, como “bruxelenses”. “Os fundos da UE começarão, em breve, a chegar à Hungria, permitindo-nos relançar a economia”, antecipa Magyar, garantindo que regressará a Bruxelas a 25 de maio, já depois de tomar posse, “para concluir o acordo político” que permita desbloquear as transferências.
Ambiente mais leve, mas não perfeito
Na quarta-feira, a reunião com o presidente do Conselho Europeu teve como foco a articulação no seio do clube dos líderes, com a Ucrânia, a competitividade e o próximo Orçamento Comunitário entre os temas em discussão. “Estou ansioso pela nossa estreita cooperação no Conselho Europeu”, escreveu António Costa nas redes sociais no final do encontro com Magyar.
O antigo primeiro-ministro português deixou ainda uma mensagem adicional: “A UE enfrenta muitos desafios, mas, quando estamos unidos, a Europa alcança sempre resultados.”
A cimeira de líderes realizada na semana passada em Chipre foi a primeira sem Orbán, que optou por não comparecer, evitando despedidas e declarações depois da derrota nas urnas. Nos corredores, fala-se de um ambiente mais leve sem a presença do conservador iliberal.
“Estou ansioso pela nossa estreita cooperação no Conselho Europeu”, atira Costa a Magyar
Perante os jornalistas, vários governantes reconhecem que obter unanimidade se tornou um pouco mais simples, sobretudo no dossiê do apoio à Ucrânia. “É positivo que a Europa fale a uma só voz. Temos dois conflitos na Europa e nas imediações, e é extremamente importante coordenarmos os nossos pontos de vista”, declarou o primeiro-ministro luxemburguês, Luc Frieden, quando questionado sobre a existência de um novo espírito de unidade. O croata Andrej Plenković diz igualmente ter tido “uma boa conversa com Magyar” e acrescenta que espera “boa cooperação, sobretudo no que diz respeito à Ucrânia”.
Nem tudo era impossível com Viktor Orbán
Com mais reservas, o primeiro-ministro belga considera que a saída de Orbán está “a ser ligeiramente sobrevalorizada”. Para Bart de Wever, lidar com o húngaro “não era fácil, mas também não era impossível”. Ainda que admita que “as coisas vão correr um pouco melhor”, chama a atenção para o facto de existirem “outros países na Europa com dirigentes que nem sempre seguem o consenso europeu, por exemplo, no que diz respeito à Rússia”. A indirecta aponta para o eslovaco Robert Fico, mas também reflecte receios quanto à eventual posição do próximo primeiro-ministro búlgaro, Rumen Radev.
“ A preocupação é compreensível. Radev tem assumido posições favoráveis à Rússia. Opôs-se à ajuda militar a Kiev, criticou o acordo de segurança entre a Bulgária e a Ucrânia, assinado no mês passado, e defendeu ‘relações práticas com a Rússia’”, escreveu Jessica Moss num artigo do think thank European Policy Centre (EPC).
Depender dos fundos da UE tira margem de manobra a checos e eslovacos, afirma a perita Marta Mucznik
Resta saber se o búlgaro tem intenção - ou capacidade - para se impor como Orbán. Marta Mucznik, do International Crisis Group, entende que não, nem no caso de Radev nem no dos líderes checo (Andrej Babis) e eslovaco (Fico), que são vistos como mais próximos do húngaro.
“Podem fazer barulho a nível nacional para os seus eleitorados, mas à mesa do Conselho Europeu não têm grande margem para alterar radicalmente o consenso.” Segundo a especialista, isso explica-se “na dependência que têm dos fundos comunitários”, o que lhes limita a margem de manobra, disse ao Expresso.
Abertura à Ucrânia aguarda há muito
Do lado neerlandês, há sinais de confiança em relação a Radev. “Falei com ele, e garantiu-me que não quer bloquear a cooperação na UE”, afirma Rob Jetten. “Espero que possamos contar com isso.”
A cimeira de Chipre evidenciou a forte expectativa de que Magyar desbloqueie, finalmente, a abertura dos primeiros capítulos de adesão da Ucrânia à UE. Até aqui, 27 estiveram disponíveis para avançar, com excepção da Hungria. Com a mudança de Governo em Budapeste, abre-se uma nova janela para decidir antes do verão, mas há indícios de que o novo chefe do Governo húngaro procure contrapartidas para o “sim”. A Bloomberg escreve que Magyar terá sido claro com Costa: antes, quer que Kiev garanta direitos reforçados à minoria húngara residente na Ucrânia.
Vem aí a batalha pelos fundos comunitários
Eric Maurice deixa um aviso: “Magyar não vai dizer sempre sim a tudo”. O húngaro, recorda, opõe-se a um alargamento acelerado à Ucrânia, discorda da política de migração e também das propostas para o Quadro Financeiro Plurianual (QFP) pós-2028 - a grande disputa sobre os fundos europeus que se vai travar nos próximos meses.
O analista do EPC refere ao Expresso outros pontos que demonstram que a saída de Orbán não converteu a UE num paraíso. No tema do alargamento, poderá forçar outros países a explicitarem até onde pretendem ir no processo relativo à Ucrânia. Em Chipre, uma vez mais, ninguém quis comprometer-se com prazos.
Ao mesmo tempo, Orbán não bloqueava tudo. “Na política industrial, os problemas não vinham dele, e continuam a existir. Quanto ao que fazer com o QFP, como sabem, Orbán não estava presente na cimeira da semana passada e ainda não há acordo sobre o que fazer”, continua Maurice. Pelo contrário, a discussão em Nicósia mostrou que existe uma divergência muito acentuada de posições.
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