Discreto e pouco dado a revelar o que pensa, Ricardo Mendes, 48 anos, CEO e fundador da Tekever - a empresa que lidera na Europa no fabrico de sistemas autónomos para vigilância e segurança - vai deixando perceber, por trás da contenção típica de quem trabalha com temas sensíveis de segurança e de Estado, a dimensão da ambição. Ambição tão elevada como os pequenos computadores com asas que vende para vários países e que se tornaram decisivos na guerra na Ucrânia, ajudando a colocar Portugal no mapa da indústria da Defesa.
Entre visões de cidades onde a mobilidade se faz tanto no ar como no solo, e ideias como o teletransporte e as máquinas do tempo, garante que tudo isso acabará por acontecer - apenas não arrisca quando. O quotidiano passa-lhe, em grande medida, por antecipar o que aí vem: “não apenas onde estamos, mas onde podemos e queremos estar, e no que temos de fazer para lá chegar”. À frente, tem uma equipa de 1300 pessoas, com mais de 30 nacionalidades, distribuídas por Lisboa, Porto, Ponte de Sor, Caldas da Rainha, Toulouse, Cahors, Swindow e Bristol. Só em Portugal, contam-se já cerca de 900 trabalhadores.
A guerra na Ucrânia - onde os drones se afirmaram como a nova arma secreta e a Tekever passou a ser uma aliada no terreno - deu novo impulso à empresa fundada por cinco engenheiros do Instituto Superior Técnico. Em 2019, esteve muito perto da falência; hoje, tem uma faturação que Ricardo Mendes não divulga, mas que andará em torno da centena de milhões de euros. Para já, não se deixa entusiasmar com uma ida para a Bolsa e afasta a hipótese de uma parceria com o Estado.
Filho de um engenheiro que mudava com frequência de local de trabalho, habituou-se cedo a ver o mundo como um mapa por explorar. Talvez por isso, uma das frentes de crescimento da Tekever vá além da Terra: no espaço, a empresa já participou em missões espaciais. Como ele próprio sublinha, esse caminho obriga a organização “a empurrar os limites do possível em termos de tecnologia”. E, ao longo de uma longa conversa no centro de produção de drones em Ponte de Sor - dentro do aeródromo, um local privilegiado para testar as máquinas voadoras - nem uma febre de 39 graus e uma pneumonia lhe abrandaram o ritmo. No meio do discurso, surgia a formulação sobre a missão da empresa: “Estamos a construir uma empresa geracional, capaz de servir a sociedade nas próximas décadas.”
Curiosidade, organização e estratégia na Tekever
A Tekever é líder europeia na área dos drones de vigilância. Como é que massaja o cérebro? Já está a pensar na próxima grande nova invenção?
Leio muito, vejo filmes, ouço música - consumo tudo isso de forma intensa. Sou uma pessoa muito curiosa; sempre fui, desde criança. Dá-me um gozo particular encontrar um paradigma novo, algo publicado por alguém, sobre o qual eu ainda não sei nada. É um fio condutor na minha vida - em casa e no trabalho - e, felizmente, também na nossa equipa. Numa empresa, tem de existir um ambiente que estimule, porque estamos a crescer a um ritmo muito rápido, num sector extremamente interessante, em que ajudamos a empurrar a sociedade e a tecnologia para a frente.
É na organização que gasta a maior parte do seu tempo?
Antes de mais, penso em como é que construímos uma empresa que potencia as pessoas: que lhes dá espaço para crescerem, serem criativas e concretizarem. A minha função é definir para onde queremos ir e qual a estratégia para lá chegar. Uma fatia grande dessa estratégia passa por perceber como nos organizamos para ser muito ágeis, mas a operar em grande escala, em contextos com regras e exigências muito diferentes: União Europeia, NATO e cada um dos países. E passa também por acompanhar para onde a sociedade caminha, como a tecnologia evolui e de que forma as pessoas a vão adotar.
Hoje não se consegue pensar com muita antecedência.
Nós trabalhamos o futuro em dois horizontes: a três e a dez anos. Para os próximos três anos, o desafio é incorporar as aprendizagens da Ucrânia e das missões que fazemos por todo o mundo, ajudando os países a tirar o máximo partido desta tecnologia em defesa e segurança.
Exatamente de que tecnologia fala?
De sistemas autónomos - ou, mais precisamente, de inteligência artificial a bordo de sistemas que podem estar a voar, a deslocar-se em terra ou a nadar debaixo de água.
A Tekever é reconhecida como uma empresa de drones, genericamente algo que voa, mas então não é só isso?
Não é só isso. É uma tecnologia que acompanha a computação e evolui de forma exponencial: quando há mais capacidade computacional, os sistemas conseguem fazer mais, recolher dados e processá-los. A evolução do produto tem de ser muito rápida e flexível. Mas, quando se fala em utilização massiva, não basta evoluir tecnicamente: é preciso lidar com soberania e regulamentação, e fazê-lo em grande escala é duro.
Quando é que os drones apareceram na Tekever?
Nos primeiros anos, o nosso trabalho era sobretudo software que corria em dispositivos - telemóveis e outros. A certa altura, percebemos que existia espaço para criar dispositivos com uma abordagem totalmente diferente e começámos a olhar para eles como computadores, não como aviões.
“Nenhuma empresa ou mercado está estável. Basta olhar para a IA nos últimos dois anos”
Os drones não eram populares nessa altura.
Não. Começámos a investir em sistemas autónomos em 2008, numa altura em que quase ninguém falava em drones. Até então, fazíamos desenvolvimento de software, muito ligado a sistemas distribuídos, onde tudo está conectado, e em que o software e a inteligência artificial (IA) permitem ligar um conjunto enorme de coisas e gerar valor. Mas não fazíamos o veículo, a máquina.
Percebemos que o universo dos sistemas autónomos era dominado por empresas vindas do mundo mecânico - defesa e aeronáutica - que olhavam para drones como “aviões mais pequenos”. Para nós, não: é um computador com asas. Um AR5 [aeronave não tripulada de média altitude e longa autonomia concebida principalmente para missões de vigilância marítima] é praticamente um centro de dados com asas.
Ouvi-lo remete-nos para alguém que lê ficção científica, e que vê cidades com circulação aérea e não em estradas.
Quem lê ficção científica acaba por ter isso no imaginário. É óbvio que tudo está - e vai continuar - cada vez mais ligado, e a Tekever percebeu que, quando isso acontecer à escala, vai ser necessária IA para dar sentido ao que se passa à nossa volta, sabendo que a robótica será ubíqua.
Os sistemas de propulsão e o armazenamento de energia vão ser miniaturizados; vou ter coisas mais pequenas, a moverem-se com muito mais facilidade. É uma questão de tempo. Para mim, era evidente que isso seria real e eu queria ajudar a construí-lo. A melhor forma pareceu-me ser no software, porque a partir de nada conseguimos criar praticamente qualquer coisa.
A Tekever está numa fase de transição?
Somos uma empresa em fase de escala, não uma empresa emergente. Criámos uma base tecnológica, um conjunto de produtos e serviços e encontrámos um mercado. Agora estamos a ampliar o que fazemos - e, no nosso sector, isso implica operar numa geografia muito ampla.
É um momento perigoso?
No mundo tecnológico, não sei o que é que não é perigoso. Computação, software e IA mudam o tempo todo e estamos numa curva exponencial. Nada fica quieto - basta ver o que aconteceu com a IA nos últimos dois anos.
Autonomia multidomínio: do ar ao espaço, do solo à água
Falou há pouco em voar, andar, nadar debaixo da água. A Tekever está a alargar a produção?
O principal foco do nosso desenvolvimento está na autonomia, em todas as camadas tecnológicas que nos permitem, no solo, tirar partido de grandes volumes de informação e detetar padrões. É perceber o que se passa, analisar históricos, cruzar com dados atuais.
Chamamos a isto Pilha de Autonomia, um conjunto de sistemas que pode ser embarcado em veículos diferentes. Se tenho um sistema a voar, uma parte desta Pilha de Autonomia vai a bordo e controla esse sistema. Mas posso usar o mesmo conjunto para coisas que se movem em terra, que estão debaixo de água ou até num satélite.
Teremos o símbolo da Tekever num submarino?
Há áreas que estamos a estudar e muitos projetos de investigação para desenvolver estas tecnologias e, eventualmente, produtos. Uma coisa é a tecnologia, outra é o produto.
Estamos concentrados em criar uma tecnologia que possa ser multidomínio: aéreo, espacial, terrestre e aquático. Mas ter produtos não depende apenas da tecnologia; depende também do mercado e da nossa capacidade de servir bem os clientes.
Os desafios que os países enfrentam com autonomia não são só sobre “coisas que voam”. Falamos de robotização e do que se costuma chamar “potenciado por IA”: na prática, como cruzar IA com robótica para executar missões sem pôr em risco vidas humanas.
Insisto, vamos ver a Tekever em outros produtos?
Nos próximos anos, será cada vez mais comum ver a Tekever em sistemas robóticos com inteligência artificial, ao serviço da proteção da sociedade.
Fala em missões e em soberania, os vossos clientes são sempre países?
Nós não estamos num mercado de massas. Começámos na vigilância marítima, com clientes governamentais ou supragovernamentais. Fazemos deteção e apoio à prevenção de pesca ilegal, missões de busca e salvamento, proteção de vida marinha e também atividades como prevenção de incêndios. Tudo isto entra no conceito de segurança.
Depois existe um segundo segmento: o da defesa, com missões que podem ser de proteção e também de ataque.
E que explodiu com a guerra na Ucrânia.
Sim. Esse segmento tornou-se muito mais visível. Ficou claro que esta tecnologia está a revolucionar a forma como a defesa funciona.
Ucrânia, ritmo de desenvolvimento e “inteligência como serviço”
A guerra da Ucrânia mudou o vosso paradigma como empresa?
A Tekever já estava numa trajetória de crescimento exponencial na segurança marítima muito antes da guerra. Começámos a acelerar em 2019, a conquistar clientes em vários países. De repente, este sector ganhou uma notoriedade enorme.
Os primeiros grandes clientes de referência foram a Agência Europeia de Segurança Marítima (ASME) e o Ministério do Interior britânico, o Home Office. Encontrámos um segmento muito apelativo e tornámo-nos líderes europeus na vigilância marítima. Passámos a cobrir uma parte significativa dos mares da Europa. E não estávamos a vender produtos: estávamos a oferecer inteligência como serviço.
A Tekever bateu à porta dos ucranianos ou eles é que vos encontraram?
Foi uma combinação. Tínhamos a relação com a ASME e, em 2014, tudo começou num projeto de investigação para a Agência Espacial Europeia (ESA). Em conjunto, percebemos que podia ser uma forma muito diferenciadora de os apoiar na missão.
Trazíamos ainda a experiência de vigilância de oleodutos e de outras infraestruturas críticas em África. Quando a invasão russa começou, em 2022, como a maioria das pessoas, sentimos uma grande empatia pelos ucranianos. Criámos até programas para os receber na Tekever.
Mas não era claro, de início, como poderíamos contribuir, porque não éramos uma empresa com produtos “formatados” para defesa. Ao mesmo tempo, tínhamos - e temos - duas características importantes: somos fabricantes dos sistemas e controlamos tudo o que acontece dentro deles; e trabalhamos com um modelo de desenvolvimento ágil, o que nos permite evoluir rapidamente.
Além disso, nós próprios fazemos a operação dos sistemas: temos equipa a operar e a analisar dados, a perceber o que se passa. Cria-se um ciclo virtuoso de retorno entre operadores, engenheiros e produção.
Numa situação de guerra torna-se mais complexo.
Sim, porque o mercado de defesa tradicionalmente não funciona assim. O cliente define requisitos e há um ciclo de vários anos. Aquisição, desenvolvimento e produção são demorados; mesmo um projeto “rápido” dura três ou quatro anos.
Em sistemas autónomos, não. Na Ucrânia, ao fim de poucas semanas tornou-se evidente que os sistemas autónomos, no geral, iam ser determinantes. E ficou claro que haveria uma espécie de jogo do gato e do rato entre ucranianos e russos no desenvolvimento tecnológico.
Para alguns clientes nossos - como os ministérios da Defesa e do Interior britânicos - era evidente que, pelo que fazíamos e pela forma como estávamos organizados, os nossos sistemas poderiam ser muito úteis naquele cenário.
“Quando a guerra na Ucrânia acontece, torna-se evidente que os sistemas autónomos iam ser determinantes”
Foram os ingleses que vos levaram para a Ucrânia?
Foi o Governo britânico, foram as forças armadas ucranianas e fomos também nós, com a vontade de ajudar. Nessa altura, a Tekever já era bastante conhecida em sistemas autónomos; éramos líderes europeus em vigilância marítima e um elemento importante da guerra é o Mar Negro.
Mas foi decisiva a visão do Governo britânico sobre o modelo que tínhamos montado, com retorno constante entre desenvolvimento, produção e operação. Os primeiros sistemas que seguiram para a Ucrânia não estavam ajustados ao que era necessário no terreno e não eram eficazes; alguns meses depois, já eram.
Quando viu na televisão os russos a avançarem pela fronteira ucraniana foi o empresário ou o cidadão que reagiu?
Foi o cidadão primeiro. A Tekever tem valores humanos muito fortes e a primeira pergunta foi: como conseguimos ajudar?
No próprio dia fizemos uma campanha para trazer pessoas para trabalhar connosco e contactámos a Câmara Municipal de Ponte de Sor para resolver alojamento. Articulámos também com as escolas locais. Só depois é que pensámos na vertente empresarial.
É uma posição ideológica?
É sobretudo humana. São pessoas a precisar de ajuda, a fugir de uma situação horrível.
Ainda tem algum trabalhador dessa altura?
Provavelmente sim, mas não sei ao certo. A partir do momento em que a pessoa entra, é um colaborador da Tekever.
Desde o início percebeu que os drones iriam ter um papel preponderante na guerra?
Nos primeiros dias, não. Ao fim de algumas semanas, e depois nos meses seguintes, tornou-se claro que seriam centrais.
E porquê essa importância?
É curioso perceber que estas tecnologias cresceram brutalmente no sector civil na última década. Houve uma transferência do civil para a defesa, em vez do tradicional movimento inverso.
A Ucrânia não tinha acesso ao equipamento militar clássico nas quantidades necessárias e começou a usar o que existia no mercado civil.
Que era barato.
E acessível. Ao perceberem que não conseguiam obter tecnologia militar nas quantidades de que precisavam, tiveram de criar alternativas. Foram ao mercado civil e os drones estavam muito disponíveis: compravam-se online e chegavam a casa.
O equipamento tradicional da defesa foi complementado e, em muitos casos, substituído por estes equipamentos civis.
Porquê? Permitem progredir rapidamente no terreno?
Quando se diz que a Ucrânia usa ou fabrica quatro milhões de drones por ano, não estamos a falar como os nossos: são pequenos, bem mais simples, com objetivos mais limitados. E com custos controlados - centenas, e não milhares de euros.
O que ficou muito evidente é que este tipo de tecnologia pode criar uma assimetria enorme quando comparada com equipamentos muitíssimo mais caros.
Quando foi a primeira vez à Ucrânia?
No final de 2022 ou no início de 2023. Levei algum tempo a ir, porque não era útil lá. Queria ir o mais cedo possível, mas era muito mais útil cá, a ajudar a organização a preparar-se para contribuir.
As vossas equipas já estavam lá?
Foram enviadas no primeiro semestre de 2022.
Eram engenheiros?
Enviamos sempre equipas multidisciplinares: pessoas de operações - muitas com percurso militar - preparadas para zonas de conflito. Temos muitos ex-militares, acompanhados por equipas de engenharia para suporte local.
Começámos a montar equipas na Ucrânia sobretudo para formação, apoio logístico e também para ajudar a fazer investigação e desenvolvimento no terreno.
A Tekever opera drones no terreno?
Não. As nossas equipas estão lá para apoiar a operação: desde formar militares ucranianos, assegurar processos logísticos, tratar da chegada, preparação e manutenção do equipamento. E, se for preciso, reparar.
Nessas equipas entram advogados ou diplomatas para lidar com questões de soberania?
Normalmente não. As questões de soberania surgem mais nos processos de desenvolvimento, produção e logística.
Não é o que acontece na Ucrânia?
Como é um país em guerra, com conflito ativo, as questões regulatórias são muito menos relevantes. Há muito mais tolerância ao erro.
Como foi a experiência de ir à Ucrânia?
Já tínhamos um envolvimento significativo e eu achei importante ir perceber como nos podíamos envolver ainda mais no terreno. Havia equipas a ir regularmente, vários sistemas a operar e uma relação muito próxima com as forças armadas ucranianas.
Mas eu queria compreender melhor o país. A Tekever tem de ser também ucraniana, tal como é inglesa, francesa e portuguesa. Para isso, temos de conhecer o país - não por ser um cliente, mas porque passa a fazer parte de nós.
O que mais me ficou foi a imagem de um povo a tentar resistir mantendo, tanto quanto possível, a normalidade. Nunca tinha estado num país em guerra aberta e esperava o que se vê nos filmes: tudo destruído, pessoas fechadas em casa. O que mais me impressionou foi a força com que tentavam conservar hábitos diários. Senti uma empatia profunda.
Conheceu Volodymyr Zelensky? O que achou dele?
Estive em vários eventos em que ele também estava. Transmite uma energia e uma força impressionantes. É alguém com uma missão muito marcada, um comunicador excelente, e consegue causar grande impacto em quem o ouve.
Sem ele, a Ucrânia já tinha vergado?
Não sou a pessoa certa para responder. Não sou analista. Instituições, países e empresas precisam de líderes fortes, especialmente nas circunstâncias mais difíceis. Precisam de pessoas sem medo, que vejam o caminho e consigam motivar os outros. Acho que ele conseguiu.
Ele considerou que os drones eram importantes?
A Ucrânia tem líderes e pessoas brilhantes; já conheci vários. Juntam inteligência enorme com sentido prático.
E houve várias pessoas com visão para perceber que, ao apostar em tecnologias vindas do mundo civil para colmatar falhas no mundo militar, não seria “tecnologia militar de segunda”, mas quase uma reinvenção dos sistemas usados na defesa.
A Ucrânia transformou a Tekever em outra coisa?
Não. Diria que o mercado é que mudou muito: o que estava mais inclinado para segurança alterou-se e percebeu-se que o mercado de defesa seria muito maior e aceleraria fortemente o crescimento.
Já estão na área da defesa?
A partir do momento em que trabalhamos com forças militares, estamos na defesa.
A Rússia tentou contactar-vos?
Nunca. O mercado de defesa é altamente regulado. Quer queiramos quer não, só podemos vender para países e entidades para os quais os países de origem - aqui, Portugal, Inglaterra ou França - nos autorizem a exportar. Para a Rússia nunca poderíamos exportar; estamos limitados pela regulamentação.
A Rússia estava atrasada na tecnologia dos drones?
Não sei. A Rússia tem uma capacidade científica incrível. Hoje é evidente que existe capacidade tecnológica elevada de ambos os lados; não há assimetria.
Os Estados Unidos não estavam tão despertos para estas tecnologias?
É um tema interessante. Os EUA têm uma capacidade tecnológica incrível e, do ponto de vista de defesa, têm equipamentos e tecnologias.
Com décadas à frente da Europa...
Não sei se isso é verdade, porque depende da tecnologia em causa. Têm empresas extraordinárias, a desenvolver tecnologia incrível há décadas, mas criaram organizações otimizadas para a desenvolver de uma determinada forma.
Só que, nos últimos quatro anos, a forma de desenvolver e colocar no terreno estas tecnologias mudou radicalmente. Os ciclos de desenvolvimento passaram a ser de meses. Desde o fim da Guerra Fria, os ciclos eram lentos e os projetos eram grandes e muito planeados. O que a Ucrânia mostrou foi que isso não resulta no terreno.
Mas a guerra não se vai fazer só com drones. O equipamento tradicional é relevante?
Claro. Mas estas tecnologias têm um peso cada vez maior. Vemos carros de combate de milhões de euros a serem destruídos por equipamentos de centenas, milhares ou poucas dezenas de milhares de euros. O mesmo acontece no mar e no espaço aéreo.
A guerra da Ucrânia dá oportunidade a David de derrotar Golias?
A Ucrânia conseguiu posicionar-se como David. É uma metáfora útil para os países ocidentais, para a Europa e para a NATO, reinventarem capacidade e indústria de defesa. E nós estamos no meio disto, profundamente envolvidos nas missões militares na Ucrânia.
Quando a guerra acabar, os ucranianos serão fortes na indústria da defesa?
A sociedade está inteira mobilizada para defender o país: uns inventam, outros fabricam e outros utilizam. Já criaram uma indústria, mas o grande desafio é que o que uma empresa precisa num contexto de guerra não é o mesmo que precisa em tempo de paz.
Já vê o cenário do fim do conflito?
O que a Ucrânia fez até agora é inacreditável. Reinventam-se constantemente. Às vezes estão à frente, outras atrás, mas nunca desistiram.
Não sei como nem quando vai acabar. Mas é um povo que, de alguma forma, já ganhou, porque não ficou de braços cruzados.
Para a Tekever não é necessário que o conflito se perpetue?
De maneira nenhuma. Queremos que acabe o mais depressa possível, não só para parar a morte de pessoas, mas também porque as empresas têm de se focar em criar a próxima vaga de tecnologia para uma sociedade em paz.
E há muitos benefícios que podem chegar ao mundo civil. A guerra na Ucrânia desencadeou uma transformação profunda do mercado de tecnologias de defesa, mas, na minha opinião, era uma questão de tempo até acontecer. Aliás, os nossos planos de negócio diziam isso mesmo: vai acontecer, só não sabemos quando. E a mudança é tão radical que não vai recuar.
“Foi determinante o Governo britânico ter percebido que o nosso modelo podia ser muito útil na Ucrânia”
A Europa está a reindustrializar-se na área da defesa, mas está atrás dos EUA e vai demorar a recuperar o atraso. A aprendizagem na Ucrânia permite dar o salto mais rápido?
Sou extremamente otimista. Por termos menos capacidade industrial na defesa, temos a oportunidade de avançar muito mais depressa. É semelhante ao que aconteceu em alguns países africanos, que passaram de não terem telefone para adotarem diretamente a tecnologia móvel.
Já está a acontecer?
Sim. Estamos focados no desenvolvimento da guerra do futuro. E, na opinião da Tekever - e na minha - devemos apostar em tecnologias de duplo uso: equipamentos militares que possam ter impacto muito positivo na sociedade civil.
Se olharem para o que fazemos - IA, robótica, software - já são áreas com impacto forte e com impacto ainda maior na próxima década.
O mesmo dispositivo, com IA lá dentro, pode estar no lar de idosos ou no terreno de guerra?
Pode servir missões muito diferentes. Não sei se num lar de idosos, mas certamente não apenas na defesa.
E é por isso que passo tanto tempo a pensar em três a dez anos: em três anos, é muito claro que vamos crescer para sermos uma das principais empresas mundiais nesta área, focados em defesa e segurança - porque é o que achamos que a sociedade mais precisa agora e a melhor forma de a servirmos.
E a dez anos, porque acreditamos que estas tecnologias, impulsionadas pelo que se está a passar na defesa e na segurança, vão ter enorme impacto no mercado civil.
Estamos a falar de quê exatamente?
De fenómenos muito semelhantes ao que aconteceu com a internet há décadas. A internet nasceu no mundo militar e hoje está em todo o lado.
A IA é uma força que vai mudar profundamente a sociedade. E ainda estamos na infância da IA, mas vamos acelerar muito depressa na IA incorporada. Hoje, quando se pergunta a uma criança o que é a IA, a imagem imediata é o ChatGPT, a nuvem, o Grok ou outra ferramenta digital.
Daqui a dez anos, será diferente: a IA estará incorporada na robótica, ao nosso serviço. Tudo está ligado - o relógio, o carro, o frigorífico. A Tekever nasceu a antecipar que a sociedade iria ser assim.
E não vai acontecer apenas em dispositivos informáticos, como hoje, mas em dispositivos que se movem, conseguem agarrar e executar tarefas.
Tem um humanoide em casa?
Não. Mas teria.
É para isso que a Tekever vai evoluir?
A Tekever vai procurar sempre servir a sociedade naquilo em que achamos que conseguimos ter mais impacto. Nos próximos três anos, estaremos focados essencialmente na proteção da Europa - é uma missão que assumimos totalmente.
Acreditamos que a sociedade vai evoluir muito com o impacto da IA e da IA incorporada; queremos ter um papel nisso e estamos a desenvolver as tecnologias de base. Achamos que podemos vir a criar produtos e serviços muito interessantes, em segmentos de mercado que, hoje, ainda não sabemos quais serão.
Capital, investidores, talento e o papel de Portugal
A Tekever é para ficar na família Mendes?
A Tekever não “existe” na família Mendes. Há muitos acionistas. Sempre que fazemos uma ronda para atrair investimento, entram novos.
A sua percentagem direta no capital é de quanto?
Essa informação não é pública.
É o acionista maioritário?
Não. E tenho grande orgulho em dizer que uma parte significativa do capital é detida por pessoas que trabalham na Tekever - muitas connosco há muitos anos.
Depois, temos um conjunto relativamente pequeno de grandes parceiros institucionais e investidores, que foram entrando ao longo das diferentes rondas.
E que já salvaram a Tekever.
Foram decisivos. Todos os nossos investidores foram fundamentais e trouxeram contributos diferentes ao longo da vida da empresa.
Um dos primeiros foi a Iberius Capital. Temos a Ventura, a Baillie Gifford, o Fundo de Inovação da NATO, o Fundo Nacional de Investimento Estratégico do Governo britânico, entre outros. A estrutura acionista é muito rica.
Reinvestimos completamente todos os resultados no crescimento e desenvolvimento da empresa. Nunca distribuímos dividendos. Temos a sorte de ter investidores com uma perspetiva de longo prazo.
Não é uma daquelas empresas de sucesso que acaba vendida a multinacionais?
Não. O nosso objetivo é levar a empresa até ao limite do que conseguirmos construir.
Quando estava no Instituto Superior Técnico (IST) esperava vir a ter um unicórnio? Era uma meta?
Se o sonho está centrado na valorização da empresa, então não se deve fazer. O que nós sonhávamos era mudar o mundo com tecnologia. Hoje percebo que havia aí uma dose grande de ingenuidade.
Quantos anos tinha?
Tinha 23, era o mais novo. Éramos cinco ex-colegas do Técnico a juntarem-se para criar uma empresa - perfis muito diferentes e percursos muito diversos.
Eram filhos de engenheiros?
O meu pai era engenheiro químico, mas um dos fundadores era filho de um jardineiro.
O que vos juntou?
A vontade de fazer algo diferente e a incapacidade de não o fazer. Éramos todos engenheiros informáticos, mas em áreas distintas. Eu e outro colega éramos de IA; os outros três vinham de Sistemas Computacionais. Cruzámos a visão da IA com sistemas vindos das comunicações móveis. A Tekever nasce exatamente dessa ideia.
Saíam à noite, bebiam, iam dançar?
Fazíamos tudo o que jovens de 20 e tal anos fazem. Mas o meu filho mais velho nasceu em 2001, o ano em que a empresa foi criada. Portanto, a minha vida não era tanto de copos. Durante o Técnico, sim.
Como qualquer colega, tínhamos vida social e vida académica, mas fui pai muito cedo.
O Técnico foi importante na sua formação?
Muito. Sempre fui bom aluno e os colegas que foram para o Técnico também o eram. Há ali uma densidade grande de pessoas dedicadas, criativas, que escolheram engenharia.
De algum modo, partilham interesses comuns, mas podem ter vivências muito diferentes. E cria-se um espírito fortíssimo de discussão e descoberta em conjunto - isso é o mais importante.
É também o que eu gosto na Tekever, que eu descrevo como um pólo de atração de talento. Mas não é só o Técnico: qualquer universidade de excelência cria um ambiente de aprendizagem e condições para as pessoas crescerem. Atrai gente boa, que se desenvolve e puxa outros.
O Técnico é uma escola de excelência e hoje temos em Portugal várias outras, como a Universidade do Porto ou Aveiro.
O Técnico não tem um lado muito competitivo, com reflexo na saúde mental?
Isso aplica-se ao Técnico e a outras universidades. O mais importante que aprendi no Técnico foi aprender a aprender: método de trabalho e como evoluirmos.
Eu sempre fui extremamente competitivo e acho que isso é mais uma característica minha do que da instituição.
É injusto que essas pessoas saiam de Portugal?
Vivemos num mercado aberto, profundamente integrado na Europa, sem barreiras, e também num mercado global.
O que temos de fazer é criar, em Portugal, empresas e instituições que atraiam as pessoas - com missão, grandes desafios, salários adequados e capacidade de continuarem a desenvolver-se.
“Estamos a focar-nos em desenvolver uma tecnologia que pode ser multidomínio: aéreo, espacial, terrestre e aquático. Mas ter produtos não depende só da tecnologia”
A Tekever paga salários acima da média?
Não queremos que alguém venha - ou deixe de vir - por causa do salário. Queremos que se juntem porque acreditam na missão e querem trabalhar num ambiente extremamente desafiante. Não é para todos.
É muito exigente: empurramos os limites do possível na tecnologia e nas pessoas. Essa é a condição principal.
Depois, queremos criar condições para que ninguém deixe de vir por razões salariais; o salário tem de ser competitivo.
O equipamento da Tekever pode ser usado num ataque militar? Ficaria confortável?
O que fazemos são sistemas otimizados para transportar um conjunto grande de sensores, gerir grandes volumes de dados, processá-los em tempo real e transmiti-los.
Isto tem funções numa operação militar que são muito diferentes, por exemplo, das funções do equipamento usado num míssil.
Além disso, a tecnologia a bordo - e o custo que isso traz - torna absurdo usar os nossos equipamentos para esse fim. Seria como pegar num Porsche para andar em caminhos de cabras.
O vosso esforço não devia estar focado nos sistemas de defesa antidrone?
É uma área em que estamos a trabalhar. O mais visível do que fazemos são os aviões, mas a nossa tecnologia principal é a pilha de autonomia.
Uma parte está a bordo dos veículos e outra está no solo. Temos o sistema Atlas, que integra essa pilha e nos dá uma visão muito ampla do que acontece no terreno. Pode ser usado em cenários de defesa antiaérea.
Portugal não tem esses sistemas de defesa antiaérea. Estamos vulneráveis a um ataque de drones?
Essa pergunta é mais indicada para o Ministério da Defesa e para as Forças Armadas.
Alguns dos sistemas que desenvolvemos, como o Atlas, podem servir missões de proteção antiaérea. Estamos a trabalhar ativamente nisso com vários países.
As Forças Armadas portuguesas estão alerta e muito conscientes, tanto das ameaças potenciais como destas tecnologias em desenvolvimento.
Não estamos a dormir?
De forma nenhuma. E estamos a trabalhar ativamente. O cenário apocalíptico do “estamos completamente desprotegidos” não corresponde à realidade.
O almirante Gouveia e Melo defende que Portugal faça um cluster de drones. Concorda?
Portugal já tem empresas - como a Tekever - que desenvolveram, ao longo de muitos anos, capacidades extremamente interessantes.
Somos, em Portugal, a entidade mais conhecida nesta área porque estamos entre as maiores empresas na Europa. Mas há outras a surgir: empresas emergentes e também empresas mais consolidadas.
Acho que esse saber-fazer já existe e a Marinha, o Exército e a Força Aérea têm tido um papel muito importante.
Portugal é, na NATO, um exemplo na utilização de equipamentos no meio marítimo. Todos os movimentos que ajudem a colocar mais Portugal no mapa e a apostar nesta área são bem-vindos, porque é uma área onde Portugal pode ser muito bom. Vejo isso com muito bons olhos.
Portugal pode ser líder mundial se criar um produto inovador?
Temos de escolher muito bem - não tanto o que “queremos”, mas onde já temos vantagem competitiva - e aplicar energia a uma estratégia de longo prazo.
Uma área óbvia é a dos sistemas autónomos. A Tekever não é apenas portuguesa; é multinacional. Mas nasceu em Portugal.
Há outras áreas onde também podemos ser muito fortes, como materiais técnicos vindos do têxtil.
Portugal tem uma vantagem competitiva que pode parecer desvantagem: somos pequenos em terra, mas gigantes no mar. E temos tradição de diplomacia económica; sabemos lidar com povos diferentes. Isso é um ativo extraordinário.
Portugal é também o país mais ocidental da Europa e consegue ter um espaço aéreo mais desimpedido, o que pode criar condições excelentes para teste e treino.
Esse território precisa de ser vigiado e protegido - e daí pode resultar conhecimento. Podemos inovar na legislação e na regulamentação, dar mais agilidade ao sector público.
Se nos concentrarmos no que podemos fazer muito bem e criarmos condições para o fomentar, acho que Portugal consegue dar cartas.
Se pudesse inventar um dispositivo, seria uma máquina do tempo ou de teletransporte?
As duas coisas estão muito ligadas, porque espaço e tempo partem do mesmo princípio.
Aquilo para que trabalhamos hoje é, sobretudo, logística de informação: os nossos sistemas levam informação do ponto A ao ponto B quase instantaneamente.
Seria ótimo para a sociedade se conseguíssemos transportar coisas e pessoas de forma instantânea. Isso não é possível, mas trabalhamos para facilitar e ajudar.
Como explica aos seus filhos o que faz? O pai tem uma empresa que faz o quê?
O pai não “tem” uma empresa; o pai trabalha numa empresa.
Tenho a sorte de ter filhos com grande diferença de idades: entre o Rodrigo e a Francisca são 18 anos, e cada um vê o que faço de maneira diferente.
A Francisca acha que faço aviões. O Frederico, com 19 anos, entrou na faculdade e está a estudar IA; percebe que isto tem muito mais a ver com IA do que com aviões.
A Constança tem 21, é bióloga marinha e olha para isto do lado das missões de proteção da vida marinha.
Tem medo da IA?
Temos de ser inteligentes na forma como lidamos com a IA, que já está a provocar uma transformação profunda na sociedade.
A perspetiva que eu tinha quando estudei e depois dei aulas é diferente da que existe hoje; hoje é mais comum. Mas ainda vem aí uma transformação mais profunda.
A IA aumenta o que uma pessoa consegue fazer, e vamos usá-la cada vez mais. Isso vai ajudar-nos a perceber melhor em que é que somos bons e em que é que a IA nos pode potenciar.
O que é valorizado num trabalhador hoje não é o que vai ser valorizado no futuro. Ninguém sabe exatamente o que vai acontecer - sabemos é que será profundamente diferente.
A reflexão que temos de fazer, enquanto sociedade e individualmente, é o que vamos fazer para lidar com isso. A quem tem medo, incentivo a perceber como tirar partido da IA.
Mas como se controla?
Esse é o papel dos humanos: decidir onde é usada e como é enquadrada.
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