A Mobilização Progressista Global reunida em Barcelona
Chamam-lhe Mobilização Progressista Global - ou, em versão abreviada, Internacional Progressista. No recente encontro em Barcelona, o movimento apresentou-se com a ambição de “resgatar” a economia mundial através de uma receita tão inesperada quanto previsível: taxar os super-ricos. A bandeira é erguida pelo primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, um verdadeiro contorcionista político que, desde 2022, não consegue fazer passar um Orçamento no próprio país. Ao seu lado surgem, entre outros, Lula da Silva e Gustavo Pedro, rostos da velha esquerda latino-americana alimentada pelo ressentimento contra o “imperialismo ianque”. Sánchez, dentro e fora de portas, não está sozinho.
A proposta de Gabriel Zucman e o caminho do G20
A taxação dos super-ricos como resposta às desigualdades está longe de ser novidade. O tema voltou a ganhar espaço nos últimos tempos por impulso do economista francês Gabriel Zucman, que lidera o Observatório Fiscal da União Europeia. Convidado pelo Brasil, Zucman marcou presença na cimeira do G20, em 2024, onde defendeu a criação de uma taxa de 2% sobre patrimónios acima de 100 milhões de euros, estimando uma receita de 250 mil milhões de euros.
Perante a clivagem entre países e os entraves práticos à execução, o assunto acabou remetido para o estatuto de “cooperação técnica”. E o que se seguiu só veio confirmar como é difícil pôr de pé a proposta de Zucman. Na cimeira do G20 de 2025, realizada na África do Sul, a tónica deslocou-se para o “combate à evasão fiscal” e para o “intercâmbio de informações e melhores práticas entre as autoridades fiscais nacionais”.
Por que razão o foco certo é combater a evasão fiscal
Esse é, de facto, o alvo mais acertado. A ideia de taxar os super-ricos seduz pela simplicidade, mas revela utilidade duvidosa e uma implementação particularmente complexa. Há países - a França é exemplo - que já pagaram caro por tentativas semelhantes.
Além disso, por si só, a política fiscal não é o instrumento mais eficaz para corrigir desigualdades. O motor mais determinante é o crescimento económico. E os dados, neste ponto, são difíceis de ignorar.
O que mostram os números sobre desigualdades e consumo
Contra aquilo que os chamados progressistas insistem em repetir, as desigualdades não estão a agravar-se; estão a recuar. Um estudo divulgado recentemente pela revista “Economist” indica que o consumo dos 50% mais pobres já ultrapassou o consumo do 1% mais rico. No ano 2000, os super-ricos consumiam o dobro do que consumia metade dos mais pobres. Nessa altura, os ricos - e não apenas os muito ricos - gastavam 40 vezes mais do que os pobres. Hoje, essa proporção baixou para 18.
Retórica, poder e a caça aos super-ricos
Nada disto, porém, tem lugar na narrativa da Mobilização Progressista Global, para quem o inimigo principal é a riqueza - e não a pobreza. O que defendem não é progresso, mas retrocesso. Propõem enfrentar a extrema-direita com o mesmo simplismo ideológico, apenas invertendo o sinal.
No fundo, trata-se de um embuste conveniente para disfarçar o desgaste de figuras como Pedro Sánchez, capaz de fazer alianças com quem for preciso para se manter no poder, tanto na política interna como na externa. Ver José Luís Carneiro e António Costa envolvidos nisto mostra até que ponto a esquerda ficou sem agenda, sem ideias e sem projeto para responder aos desafios da economia atual. Sobra-lhes a perseguição aos super-ricos. Boa sorte.
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