A Provedoria de Justiça aponta à Universidade de Coimbra (UC) “lacunas graves” na forma como respondeu às denúncias de um estudante israelita de doutoramento sobre alegadas manifestações antissemitas no campus. Num despacho datado de 27 de março de 2026, o provedor-adjunto, Ravi Afonso Pereira, entende que a UC adotou uma atitude de “fundamental passividade”, não tendo tomado “providências para prevenir, mitigar ou resolver a situação”, o que, acrescenta, configurou “violação dos direitos fundamentais” do queixoso.
Denúncias de antissemitismo na Universidade de Coimbra: origem do caso
O episódio teve início em junho de 2024. Bar Harel, então aluno de doutoramento em Engenharia Informática na UC, apresentou queixa à provedora do Estudante por causa da distribuição e afixação de panfletos no interior da universidade, que considerava terem teor antissemita.
No ofício consultado, a Provedoria de Justiça menciona ainda um e-mail da provedora do Estudante dirigido aos Serviços de Ação Social da UC, no qual se assinalava que Harel “precisava de ‘tratamento médico’ e que poderia ‘causar [à UC] problemas’”.
Resposta da UC e intervenção da Provedoria de Justiça
Harel descreveu ao Expresso que foi este “ambiente de ameaça” que o levou a abandonar o doutoramento em outubro de 2025. Ainda assim, em janeiro desse ano, já tinha exposto a situação à Provedoria de Justiça, que solicitou esclarecimentos à Universidade de Coimbra.
Na resposta enviada, a UC afirmou ter removido os cartazes do campus e sustentou que não avançou com outras diligências por o estudante não ter facultado “informação concreta que habilitasse qualquer atuação da Universidade”. A instituição referiu também que iria “comunicar [o caso] ao Ministério Público e à Polícia de Segurança Pública”, comunicação que acabou por realizar - embora, segundo Ravi Afonso Pereira, apenas “após a sinalização do provedor de Justiça”.
A UC acrescentou não ter conhecimento de queixas semelhantes por parte de outros alunos. O provedor-adjunto contraria essa afirmação e remete para uma reclamação registada no Livro Amarelo, em outubro de 2024.
Essa reclamação, a que o Expresso teve acesso, foi apresentada por uma estudante alemã depois de dirigir uma carta ao reitor da UC, Amílcar Falcão. No Livro Amarelo, a estudante escreveu: “Desde 2023, o antissemitismo é amplamente aceite na UC”, defendendo que tal ocorria “contra o código de conduta da Universidade”.
UC “impotente” e “alheia”
No despacho, o provedor-adjunto critica também o facto de a UC ter colocado sobre Bar Harel o ónus de apresentar “informação concreta” para que a instituição interviesse. Para Ravi Afonso Pereira, “competia à UC, no quadro do princípio do inquisitório, a adoção de uma postura proativa e atempada de descoberta da verdade”.
Noutro excerto, o documento conclui que a atuação da UC revela que esta “se considera impotente ou mesmo alheia à circunstância de um seu estudante poder estar a ser vítima de antissemitismo”.
A Provedoria chama ainda a atenção para uma carta enviada pelo reitor Amílcar Falcão a Harel, datada de 9 de outubro de 2025, por nela constar - “em tom suscetível de inibir a exercício de direitos” - que, caso a reputação e o bom nome da universidade fossem postos em causa “em qualquer momento ou local”, nomeadamente “através de declarações falsas ou de factos deturpados”, a UC “não deixará de adotar todas as medidas legais necessárias para proteger e restaurar a integridade da instituição.”
Alegações do estudante, queixas à PSP e proposta de acordo
Bar Harel, que tem passaporte português, relatou ao Expresso que, em junho de 2024, foi agredido por dois indivíduos junto à Faculdade de Direito. Dessa situação resultaram duas queixas na PSP de Coimbra, nas quais afirmou ter ouvido expressões como “tu merecias um segundo Holocausto”.
No campus, diz que lhe gritaram, a si e à colega alemã: “os judeus são responsáveis pelo seu próprio Holocausto porque trabalharam nos campos de morte”. E acrescentou: “Passámos por muito. Houve pessoas no dormitório a dizer-me que não deveria poder dormir à noite. Uma professora, que posso identificar, admitiu que colocava cartazes para nos sentirmos indesejados.”
Depois de apresentar a queixa à Provedoria e de expor o assunto no Parlamento Europeu, o estudante afirma que está a decorrer uma ação judicial contra a UC e admite avançar para o Tribunal Europeu de Direitos Humanos.
Num e-mail a que o Expresso teve acesso - e cuja autenticidade Harel confirmou -, o estudante propõe à universidade “um acordo no valor de €3.000.000”, ou de €1.300.000 caso a UC “emitir um pedido de desculpas público”. “Os valores incluem responsabilidade civil e criminal, violação do Regulamento Geral de Proteção de Dados, danos à reputação, prejuízo financeiro e indemnizações”, enumera Harel.
Contactada pelo Expresso, a Universidade de Coimbra afirma ter comunicado a proposta às autoridades, classificando-a como uma “forma de pressão” que “rejeitou de imediato”. Diz também ter ficado “perplexa” com as conclusões da Provedoria, por, segundo a instituição, assentarem no pressuposto de que a UC tem responsabilidade ou que falhou algum dever - “o que não corresponde à verdade”.
Enquanto prepara uma resposta oficial ao despacho, a universidade garante que fez “tudo o que estava ao seu alcance no âmbito do acompanhamento a este estudante” e que, assim que recebeu as queixas, “providenciou, de imediato, o seu acompanhamento pelos serviços e entidades competentes”, incluindo a disponibilização de apoio psicológico.
Ainda na resposta enviada ao Expresso, a UC volta a sustentar que o estudante não apresentou elementos “concretos”, afirmando que a descrição dos episódios denunciados foi “tão vaga e genérica” que “não foi possível confirmar a sua veracidade nem promover ações subsequentes”.
O artigo foi alterado às 10h36 de 1/5/2026. O estudante Bar Harel só abandonou os estudos na Universidade de Coimbra em outubro de 2025, meses depois de interpor a queixa na Provedoria de Justiça, em janeiro desse ano.
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