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Têxteis técnicos portugueses na Techtextil, em Frankfurt: inovação, defesa e economia circular

Homem jovem examina tecido camuflado numa feira, com cones de linha e colete refletor amarelo à sua frente.

O princípio enunciado por Antoine Lavoisier - “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” - não foi pensado para a poluição. Ainda assim, no século XXI, a indústria têxtil parece ter dado uma nova leitura à ideia, como ilustra a ATB, que está a desenvolver “uma fibra capturada do carbono, muito leve, com propriedades antiestáticas e termorreguladoras, entre outras, para fazer vestuário”.

Do CO2 ao fio: a aposta da ATB e o Reocoer

A origem desta matéria-prima pode estar, por exemplo, nos gases libertados pelos tubos de escape de autocarros na Índia ou nas chaminés de unidades industriais na China. Sobre o Reocoer - um poliéster inovador concebido por uma empresa parceira - Miguel Domingues, diretor de desenvolvimento de negócio da ATB - Acabamentos Têxteis de Barcelos, explica: “Trata-se de capturar o CO2 diretamente na fonte de emissão e transformá-lo em fibra, através de processos químicos”. Acrescenta que esse material já está a ser “combinar com lã merino para roupa de trabalho para países frios”.

Com 200 trabalhadores e vendas de €18 milhões por ano, a ATB esteve na semana passada entre as três dezenas de empresas portuguesas presentes na Techtextil, em Frankfurt, numa procura ativa por oportunidades nos têxteis técnicos e funcionais - um segmento que, de acordo com a consultora Fortune Business Insight, poderá duplicar e superar os €400 mil milhões até 2034.

A defesa como motor nos têxteis técnicos

A movimentação nos expositores das empresas portuguesas na maior feira mundial de têxteis técnicos sugere um mercado mais dinâmico, em contraste com a retração no sector da moda. O número de companhias que têm vindo a deslocar o centro do negócio do vestuário tradicional para soluções com maior valor acrescentado - como a ATB, a Trimalhas e a Fiação da Graça - evidencia essa mudança. Como relata Carla Freitas, diretora-geral da empresa: “Estávamos na moda, mas começámos a desenvolver têxteis funcionais há sete anos para um cliente, e já temos aqui 30% do negócio, entre soluções para vestuário de proteção, fardamentos e desporto de alta competição”. A empresa emprega 180 pessoas, fatura €20 milhões por ano e, em Frankfurt, recebeu no seu expositor representantes das forças armadas de vários países europeus.

“Temos feito muitos desenvolvimentos e começamos a colher frutos”, diz António Falcão, da Fitexar

Do fio aos acabamentos: inovação para equipamento de segurança

A área da defesa está a impulsionar negócios e desenvolvimento, abrangendo desde fios até soluções de equipamento. Na Heliotêxtil, em São João da Madeira, com 115 trabalhadores, essa trajetória é descrita como continuidade do trabalho já em curso. “É uma evolução natural do trabalho que temos vindo a desenvolver”, afirma Miguel Alberto Pacheco, diretor de impressão. Entre os projetos da produtora de etiquetas, transfers (técnica de estampagem personalizada de acessórios) e passamanarias (fitas, tiras, cordões e outros componentes), a empresa salienta a criação de amostras com produtos ignífugos e tinta infravermelha destinados a equipamento de segurança e defesa.

A tendência é confirmada também pela Penteadora, do grupo Paulo Oliveira. “Já trabalhamos com forças militares, forças de ordem pública e bombeiros, designadamente em França, e a procura está a aumentar em toda a gama de defesa, mas os contratos exigem confidencialidade”, refere Ângelo Correia, diretor comercial. Os tecidos de lã da empresa reúnem várias valências - incluindo resistência à abrasão, à tração e ao fogo - e juntam uma nova proposta orientada para a economia circular e para o aproveitamento dos 700 quilos de desperdícios produzidos diariamente pelo grupo.

Noutra frente, a Impetus, que está a expandir uma oferta tradicionalmente focada na roupa interior para o vestuário técnico de desporto e trabalho, leva à feira propostas ancoradas na sustentabilidade e na economia circular. Entre os exemplos estão camisolas produzidas com fios que incorporam 30% dos desperdícios do corte, além de peças com rastreabilidade total desde a origem da matéria-prima e com propriedades hipoalergénicas, termorreguladoras, de absorção de humidade e durabilidade. É nesta base que a empresa, com 800 trabalhadores e vendas anuais de €35 milhões, antecipa “algum crescimento, apesar da incerteza gerada pelo conflito no Médio Oriente”, assume o administrador Tércio Pinto.

Planos e metas para crescer

As vantagens competitivas variam - inovação, sustentabilidade ou diversificação para domínios como a defesa -, mas a ambição de crescimento é transversal à comitiva portuguesa em Frankfurt, mesmo com cautela. Rui Lopes, presidente executivo da Trim NW, admite “um travão no otimismo devido à conjuntura internacional”. Especializada em não-tecidos para o sector automóvel, a empresa do Cartaxo, com 35 trabalhadores, começou 2026 a contar com um aumento de 10% na faturação (de €3,5 milhões em 2025) e ainda mantém a expectativa de crescer, embora “numa percentagem inferior”, afirma.

António Falcão sintetiza o momento: “Temos feito muitos desenvolvimentos e começamos a colher os frutos desse trabalho”. O presidente executivo da Fitexar, de Barcelos, com 70 trabalhadores e vendas de €7,5 milhões por ano, aponta como trunfo fios inovadores, que prometem “elevada elasticidade e conforto sem perda de características técnicas como a resistência à temperatura e ao fogo”. O responsável sublinha ainda: “Somos competitivos face à concorrência, maioritariamente europeia”.

O Expresso viajou a convite da Messe Frankfurt

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