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Ormuz e a ressurgência dos estreitos marítimos no comércio marítimo mundial

Homem a traçar rota numa carta náutica com vista para vários navios porta-contentores num canal marítimo.

Os estreitos marítimos nunca foram espaços neutros. Atualmente existem mais de uma dezena de ‘gargalos’ relevantes, distribuídos pelo planeta, cada um com o seu grau de vulnerabilidade. O que mais pesa no comércio marítimo mundial é o de Malaca - com uma longa trajetória na história asiática - por onde circula 30% do comércio marítimo global; logo a seguir surge Ormuz, no Médio Oriente, que se distingue hoje por ser o ponto mais determinante do mundo para a energia, num sistema ainda dominado pelos combustíveis fósseis.

Ormuz, familiar aos portugueses desde há mais de 500 anos, passou a ocupar o centro das atenções por causa da guerra entre os Estados Unidos da América (EUA) e o Irão. Na passada segunda-feira, em declarações à Fox News, Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, equiparou um bloqueio de Ormuz ao recurso, por Teerão, a uma arma nuclear económica.

Ormuz, Suez e o ecossistema regional do comércio marítimo

Vistos em conjunto, os estreitos do Médio Oriente e o Canal do Suez formam um ecossistema regional que concentra 40% do comércio marítimo mundial. Este peso é suficiente para o considerar sistémico para a economia global e, de forma particular, para o Mediterrâneo e para o Indo-Pacífico.

Paulo Duarte, da Univ. do Minho, aponta que metade dos estreitos do mundo apresentam níveis elevados de exposição ao risco

Impacto imediato do bloqueio: crude, navios e crescimento mundial

Os efeitos da crise em Ormuz já se traduzem em números concretos. De acordo com a plataforma Windward, suportada por inteligência artificial, somam-se 1100 milhões de barris de crude que não saíram. E o total de navios mercantes “reféns” dos bloqueios aumentou, em pouco mais de um mês, de 592 em 24 de março para 868 a 29 de abril.

Com danos já materializados, o Fundo Monetário Internacional (FMI) foi forçado a cortar em três décimas a previsão de crescimento mundial para 2026 - um valor equivalente a pouco mais do que o Produto Interno Bruto (PIB) de Portugal: em vez de 3,4%, o cenário central encolheu para 3,1%. Já o banco Goldman Sachs indica que a produção de petróleo das economias do Golfo recuou 57% face ao nível anterior à guerra.

Mais decisiva ainda é a vertente estrutural, sublinha um relatório da Windward. O domínio das rotas marítimas está a deixar de ser uma geografia passiva para se tornar uma ferramenta de alavancagem ativa: os estreitos funcionam como ativos estratégicos no plano geopolítico e também no plano económico, ao condicionarem fluxos de comércio, ao tornarem dinâmico o cálculo de custos e ao ampliarem o leque de riscos.

É neste contexto que vários analistas falam numa ‘ressurreição’ dos estreitos na geopolítica e na geoeconomia, impulsionada pelo duplo bloqueio de Ormuz e do Golfo de Omã e do Mar Arábico na atual guerra do Golfo, iniciada com o ataque israelo-norte-americano ao Irão desde final de fevereiro. Ainda assim, o tema ultrapassa Ormuz: a consultora Sterling Gasset Group avisou que entrámos numa era que obriga empresas globais - e as restantes - a um “risco com precisão”.

O Expresso entrevistou Paulo Duarte, da Escola de Economia, Gestão e Ciência Política da Universidade do Minho, em Braga, que realizou uma avaliação de risco e concluiu que mais de metade dos estreitos se situa entre o nível elevado e o crítico, com destaque para Ormuz, Taiwan e Malaca. No caso de Taiwan, o potencial de risco é muito elevado devido ao diferendo entre a China e a ilha e às tensões nos Mares da China com todos os vizinhos. Já Malaca tornou-se “um dilema estratégico” para a China, observa Paulo Duarte. A formulação do problema remonta a há mais de duas décadas, quando o então Presidente chinês, Hu Jintao, o colocou nos termos que ainda hoje ecoam. Pelo estreito - localizado a mais de mil quilómetros da China - circula 60% do comércio marítimo chinês. Ainda assim, Luís Mah, professor no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, relativiza: “não me parece que haja risco elevado em termos securitários no contexto atual”, declarou.

Não foi um ‘cisne negro’

Mesmo sendo os estreitos companheiros antigos das guerras económicas e da geopolítica, a crise de Ormuz foi rapidamente tentada a ser rotulada como um ‘cisne negro’, o primeiro do ano - isto é, por definição, um acontecimento raro e extremamente imprevisível. Porém, entre especialistas de economia e de história ouvidos pelo Expresso, o entendimento dominante recusa essa classificação. “Não se tratou de uma surpreendente raridade”, afirma José Semedo de Matos, capitão de fragata e professor na Escola Naval.

A relevância crítica dos estreitos para o comércio internacional e para a projeção militar está documentada desde a Antiguidade. Semedo de Matos evoca dois momentos europeus separados por mais de 1600 anos. “Foi a vontade de Roma controlar o estreito de Messina, entre a Itália e a Sicília, que desencadeou a primeira Guerra Púnica, em 264 antes de Cristo. E, em 1415, a conquista de Ceuta pelos portugueses tem uma motivação semelhante. Neste caso, a chave de entrada e saída do Mediterrâneo”.

Fruto do impacto do bloqueio de Ormuz, o FMI cortou a previsão de crescimento da economia global de 3,4% para 3,1%

João Paulo Oliveira e Costa, também historiador, reforça que “qualquer estratégia minimamente competente está ciente do papel crucial dos estreitos”. Por isso, o professor do Departamento de História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa admite que “aparentemente, norte-americanos e israelitas subestimaram essa realidade, salvo se os seus desígnios foram mais cínicos do que os media e a opinião pública percecionam”. Ainda assim, considera que “as companhias de navegação e os outros estados do Golfo foram apanhados de surpresa e ficaram encurralados face à evolução dos acontecimentos”.

Paulo Duarte acrescenta que “a surpresa propriamente dita tem a ver sobretudo com a rapidez, escala e impacto imediato nos preços, seguros e logística”. Na sua leitura, “se descurou a preparação para a eventualidade de isso suceder”.

Por sua vez, Corina Lozovan, investigadora na Universidade Católica Portuguesa em Lisboa, desafia leituras lineares: “Muitos especialistas têm analisado o bloqueio como um ‘cisne negro’, contudo eu acho importante pensar fora da caixa, ou fora de todas essas análises que no fundo seguem todas a mesma linha narrativa”. Para a investigadora, vale a pena ponderar “uma hipótese contraintuitiva, em que determinadas dinâmicas, aparentemente caóticas ou prejudiciais no curto prazo, possam ser instrumentalizadas dentro de uma lógica estratégica mais ampla, ainda que não linear”.

Estreitos são nós estratégicos

Independentemente da avaliação sobre o momento, há um ponto que se mantém: “O princípio do controlo dos estreitos é tão antigo quanto a atividade naval”, lembra José Virgílio Pissarra, historiador naval e investigador no Centro História, Territórios e Comunidades da Universidade de Coimbra. Por isso, entende que o que ocorreu em Ormuz “era mais do que previsível”.

Ainda assim, sublinha que os armadores e os transportadores - fundamentais para fazer funcionar as cadeias globais de abastecimento - “não têm influência na política externa israelo-norte-americana ou iraniana”.

Corina Lozovan deixa, por fim, a ideia-chave: “Os estreitos estão a assumir, cada vez mais, um papel central na arquitetura do poder global como nós estratégicos onde se cruzam interesses energéticos, comerciais, militares e tecnológicos. O caso de Ormuz agora não gerou esta realidade. Veio acelerá-la e torná-la mais visível”.

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