Com a aproximação das celebrações religiosas de 13 de maio, Fátima entra nesta fase com expectativas animadoras para o turismo ao longo de todo o ano. Ainda assim, o conflito no Médio Oriente está a provocar anulações de grupos asiáticos - um segmento com peso relevante no destino, acima de 10%.
“Prevemos que Fátima feche o ano com um crescimento de 5%, mesmo se a operação da Ásia correr mal”, avança Alexandre Marto Pereira, administrador executivo (CEO) do Fátima Hotels Group, um dos principais operadores locais, responsável por sete unidades hoteleiras na região.
Turismo em Fátima: o peso do mercado asiático e a dinâmica de crescimento
De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), os mercados da Ásia somaram em Fátima 132,5 mil dormidas entre janeiro e novembro de 2025, num universo total de 1,28 milhões registadas no destino no ano passado. Alexandre Marto Pereira destaca, em particular, o alargamento de comunidades católicas em países como a Coreia do Sul, Filipinas, Índia, Vietname ou Sri Lanka, sublinhando que “se o cristianismo na Europa e Américas está estável, na Ásia continua a crescer”.
O CEO assinala ainda um movimento inesperado para o sector: “Do nada, surgiram no ano passado 18,9 mil dormidas de indonésios em Fátima, mercado que não era habitual.”
Cancelamentos ligados à guerra e substituição por outros mercados
A guerra no Irão desencadeou uma vaga de cancelamentos de grupos de peregrinos oriundos da Ásia, que, só no Fátima Hotels Group, já ultrapassa 2000. “Mas não estou preocupado”, afirma o responsável, explicando que “uma parte substancial dessas noites tem vindo a ser substituída por outros mercados”.
Apesar das anulações, a procura asiática por Fátima mantém-se elevada e nem todos os peregrinos desistiram da viagem: o impacto tem sido mais forte nos itinerários que dependiam de escalas em grandes hubs do Médio Oriente, como o Dubai ou Doha.
Ligações aéreas: hubs do Médio Oriente e voos diretos para Lisboa
“A guerra bloqueou a operação de três companhias (Emirates, Qatar e Ethiad) cujos hubs servem de escala a voos de diversas origens na Ásia, foram cancelados milhares de voos mas muitos já foram retomados”, explica Alexandre Marto Pereira, lembrando que as ligações diretas da Ásia, ou com escalas alternativas, sentiram menos este efeito.
O responsável destaca a Coreia do Sul, atualmente o principal mercado asiático em Fátima, com mais de 57 mil dormidas em 2025, referindo que não se observam quebras “pelo facto de termos um voo direto de Seul a Lisboa”. Já no caso da China, existem também voos diretos para a capital, mas, segundo o empresário, “mas as ligações da Ásia a Lisboa são mínimas e, não havendo slots, não podem crescer”. Acrescenta ainda que “parte significativa dos fluxos asiáticos em Fátima são gerados via aeroporto de Madrid, e esses não foram afetados”.
Fátima tem uma oferta de cerca de 8 mil camas turísticas, sem contar com alojamento local
Recordando que, antes da pandemia de covid-19, a Coreia do Sul atingia em Fátima mais de 100 mil dormidas por ano, Alexandre Marto Pereira reforça a convicção de que a trajetória asiática continuará em alta: “esperamos que o mercado da Ásia continue a crescer, é o continente com o maior aumento do Produto Interno Bruto (PIB) e de riqueza internacional, o país não pode virar costas a esses fluxos, e a retração que está a acontecer com a guerra é uma questão logística, que se vai resolver”.
Papa já convidado para vir a Fátima em 2027
Para os próximos meses, os hotéis de Fátima registam uma evolução favorável das reservas, com procura diversificada a partir de vários mercados europeus, incluindo o nacional. Os portugueses sobressaíram com um aumento de 39% nas dormidas nos dois primeiros meses no concelho de Ourém, que, neste período, foi o nº 1 em Portugal em crescimento turístico, segundo o INE. “Mesmo com as tempestades, Fátima foi o destino nacional que mais cresceu em janeiro e fevereiro, com um aumento homólogo de 14%, quando a média do país foi inferior a 2%”, observa o hoteleiro.
O Santuário de Fátima, contactado pelo Expresso, refere um “aumento” de peregrinos registados entre 1 de janeiro e 26 de abril, totalizando 859 mil (820 mil no mesmo intervalo de 2025). No conjunto, estes participantes estiveram presentes em 2,7 mil celebrações e chegaram sobretudo de Espanha, Polónia, Itália, EUA ou Brasil - com a Coreia do Sul em sétimo lugar. Com cerca de oito mil camas em hotéis classificados (excluindo alojamentos locais ou da Igreja), mantém-se a projeção habitual de ocupação a 100% na noite de 12 para 13 de maio, que em 2025 mobilizou 8,8 mil peregrinos registados.
As perspetivas para 2027, ano em que se assinalam 110 anos das aparições de Nossa Senhora aos pastorinhos, surgem reforçadas, uma vez que o Papa Leão XIV já foi convidado por D. José Ornelas, bispo da diocese Leiria/Fátima, para presidir às celebrações.
Alexandre Marto sublinha também a alteração do padrão anual do destino: “o 13 de maio costumava ser a abertura de época, hoje não é verdade, cada vez temos mais peregrinos o ano todo, muitos vêm a pé, e a sazonalidade em Fátima já é mais baixa do que no Algarve”.
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