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Francesco Farioli e o FC Porto: o detalhe que os une

Treinador de futebol orienta jogadores durante treino no relvado com quadro táctico e banco ao fundo.

Há lugares-comuns que parecem colados com supercola ao futebol: um deles é o “cinismo” atribuído aos italianos, o catenaccio, a ideia feita de que primeiro se fecha a baliza e depois logo se vê. Com as antenas bem sintonizadas, Francesco Farioli ainda ia a caminho do Dragão e já deixava uma garantia: “Não sou um treinador italiano defensivo, mas alguém que é capaz de libertar os jogadores e de os levar a criarem oportunidades no último terço do campo. É o que tento fazer todos os dias”, afirmou ao “Cronache di Spogliatoio”, na única entrevista que concedeu enquanto gozava férias, no verão passado, entre o Ajax e o FC Porto. Mesmo aí, notava-se o gosto pelo pormenor.

Quanto ao último técnico italiano chamado pelos dragões, Luigi Del Neri, até é simpático dizer que chegou a treinar verdadeiramente a equipa. Ficou apenas 65 dias no cargo, em 2004, sem qualquer jogo oficial para mostrar, e deixou um pequeno trauma no imaginário portista - e sabe-se como os humanos tendem a generalizar. Farioli vive de detalhes e, talvez por isso, já na entrevista procurava afastar-se do estereótipo. E também quem o levou para Norte, para o FC Porto que se orgulha de representar, parece ter seguido esse mesmo fio: quando o treinador saiu do Aeroporto Francisco Sá Carneiro, com a mulher e os dois filhos ao lado, todos exibiam um cachecol listado de azul e branco bem vistoso. O detalhe.

Italiano de raiz, nascido na Toscânia, o sotaque marcado de quem vem do país em forma de bota, quando fala inglês, é inconfundível. E o futebol que impôs no FC Porto desde o arranque da época também se percebeu depressa, precisamente pela forma minuciosa como se apresentou. “Gostando-se mais ou menos, havendo críticas e elogios a fazer, Farioli tem uma ideia de jogo clara”, sustenta o treinador Blessing Lumueno, a propósito do homem que desenhou uma equipa que, com três jornadas em falta no campeonato, precisa apenas de três pontos para agarrar um título que escapa desde 2022.

A conquista está à mão, salvo uma hecatombe, por via de um “futebol de autor” que coincide com “as ideias, as convicções e a personalidade do seu treinador”, nota quem na época passada foi adjunto no Desportivo de Chaves, na II Liga. O retrato desse futebol é simples: este FC Porto alinha em 4-3-3, pressiona alto, reage imediatamente à perda para recuperar depressa, não perde tempo a polir o jogo, prefere chegar à baliza com poucos passes e é rígido a proteger a sua área. Se tudo correr como indica o momento, Farioli vai tornar-se o 13º treinador a ser campeão na primeira época no clube.

Ainda antes do primeiro pontapé de saída, quando se apresentou no Dragão impecável, com gravata, Francesco Farioli deixou o recado: “Mentalidade, atitude e a vontade de dar tudo em campo são inegociáveis para mim, porque passamos tantas horas aqui, a trabalhar, que sair com a sensação de que não demos tudo num jogo é algo que me faria não dormir.” Não há como dizer que vendeu uma coisa e entregou outra.

O exigente incansável

A reputação de meticuloso já o acompanhava: elegante, bem-aprumado, barba e cabelo afinados ao milímetro. “Somos um pouco obsessivos com o que fazemos”, admitiu no Dragão nas primeiras palavras, o que bate certo com relatos de outras paragens - incluindo histórias de mensagens a jogadores a meio da madrugada, num antigo clube na Turquia, para discutir ideias de movimentos e jogadas. Antigo guarda-redes, estudou Filosofia em Florença, com a ambição de se licenciar no berço do Renascimento italiano para “desenvolver a forma de pensar”, contou à UEFA.

Fez a melhor 1ª volta de campeonato na história do FC Porto: 49 pontos em 51 possíveis e quatro golos sofridos

Quem convive com ele diz que isso transparece: Farioli é “muito empático, extremamente afável com as pessoas e no trato”. Para fora, prefere quase sempre o preto - a cor de eleição em qualquer peça que vista em dia de jogo. Para dentro, garantem, há bem mais tonalidades. “É uma pessoa muito curiosa, que quer saber mais, que ouve as opiniões dos outros e as respeita, tendo a dele bem fundamentada”, descrevem ao Expresso sobre um treinador jovem (37 anos) para a profissão, apostado pelo próprio percurso de André Villas-Boas, que também era novo (33) quando, em 2011, ganhou quatro títulos no mesmo banco.

Com Francesco Farioli, os dragões dispararam para uma primeira volta histórica: 49 pontos em 51 possíveis, apenas quatro golos sofridos, 13 jogos sem sofrer e nenhuma derrota. O balanço levou-o, em janeiro, a voltar a apertar o nó da gravata - desta vez na icónica Livraria Lello, no Porto - para assinar a renovação até 2028. O clube justificou o acordo com “o rigor, a ética e a obsessão saudável pelo detalhe”; quem o conhece reforça a ideia: é “muito focado no trabalho, muito exigente consigo e com todos os que trabalham com ele”.

Quem acompanha esta ligação diz que o encaixe faz sentido. “Há um encaixe que valorizou o treinador, mas que também não existiria sem o treinador, na ligação perfeita entre a estrutura do clube e a forma de jogar de Farioli”, resume Tomás da Cunha, analista da Tribuna Expresso, destacando “reforços cirúrgicos” como Jan Bednarek, polaco que manda na defesa da área, ou Victor Froholdt, dinamarquês papa-quilómetros que o scouting apresentou e que dá o tom à pressão. “O FC Porto mesclou garantias de competitividade de jogadores mais experientes com outros que trouxeram alguma rebeldia, com encaixe perfeito no sistema e no modelo de Farioli. Esta harmonia não existiria sem o treinador. Villas-Boas acertou em cheio na contratação e parece-me um projeto que não vai ficar por aqui”, acrescenta o comentador da DAZN, elogiando uma sintonia construída sobre o controlo, o mantra do italiano.

Jogas tu, depois jogo eu

Se um jogador começa, faz 60 minutos e sai; na partida seguinte entra outro de início na mesma posição, mas volta a sair quando o relógio marca o mesmo tempo; e se esta dança se repete, de forma mais ou menos constante, ao longo da época… quem é, afinal, o titular? O método de Fario­li tornou-se visível cedo. Desde o arranque da temporada, e enquanto a equipa se manteve viva em várias competições, o treinador afastou a lógica de haver, sem margem para dúvidas, titulares fixos em determinadas posições. “A forma como programa as substituições e gere o plantel são marca de água do italiano”, observa Blessing Lumueno.

Entre vários casos, o de Gabri Veiga e Rodrigo Mora é evidente: nos últimos meses, o espanhol ganhou maior protagonismo, mas os seus 2357 minutos não ficam assim tão longe dos 1683 do português. Já os dois médios mais usados como elemento mais recuado, Alan Varela e Pablo Rosario, somam 2851 e 2828 minutos, embora o dominicano tenha sido utilizado noutros lugares. No lado direito da defesa, Martim Fernandes (1796), não fossem as duas lesões que o tiraram de cena durante uns dois meses, estaria bem mais perto de Alberto Costa (2927). E Oskar Pietuszewski, adolescente e principal agitador no drible, tem 785 minutos na esquerda do ataque contra 717 de Borja Sainz, se contarmos apenas a utilização em provas nacionais desde janeiro, quando o polaco foi contratado.

Licenciado em Filosofia, Farioli é “uma pessoa muito curiosa, que quer saber mais e ouve as opiniões dos outros”

Esta “contagem de minutos rigorosa” - e, considera Tomás da Cunha, “por vezes anticlímax”, por dar a sensação de substituições já desenhadas independentemente do rendimento - expõe a “lógica de controlo na gestão do plantel” entre campeonato, taças e Liga Europa, além do “rigor” aplicado para o FC Porto chegar “à altura das decisões” com a maioria dos jogadores “em perfeitas condições”. Ainda que ganhar ajude sempre, porque um futebolista também gosta de sorrir, é um animal de relvado: quer jogar sempre. O modelo de Farioli “é muito particular”, admite quem acompanha o trabalho no FC Porto, mas sublinha a contrapartida: assim “todos se sentem importantes, porque sabem que têm a confiança dele e a qualquer momento podem ser chamados”. E, garantem ao Expresso, há outro efeito direto: “Isso faz com que os jogadores andem no limite nos treinos.”

O lado atlético

A exigência do italiano “não permite distrações” e essa postura não nasceu agora. Depois de pendurar as luvas, Farioli passou por experiências como treinador de guarda-redes no Fortis Juventus e no Lucchese, emblemas secundários em Itália, antes de Nuno Proa o encontrar no Catar. “A principal imagem que guardo do Farioli é a energia que metia nos treinos e o nível de exigência que tinha com os guarda-redes”, relata o atual responsável pelos sub-17 do Al-Qadisiyah, na Arábia Saudita, lembrando “uma pessoa sempre educada e de bom trato”, em quem já se adivinhava a ambição de ser treinador principal: “Notava-se o interesse pela análise de jogo e organização da equipa.”

A gestão dos jogadores, com substituições quase programadas, fez com que “andem no limite nos treinos”

O italiano chegou ao projeto endinheirado da Aspire Academy, com infraestruturas de topo, alguns meses depois do português. “Era muito exigente, tinha uma relação muito próxima com os jogadores. Ainda deve ser assim”, diz Nuno Proa, explicando que tal não o impedia de ser “uma pessoa de afeto”, com uma relação “muito próxima com eles”. A descrição encaixa no que é partilhado ao Expresso sobre o impacto do homem do detalhe no FC Porto, metódico e adepto de um “processo muito pessoal e vincado”: “Uma grande proximidade no tratamento com todos os departamentos e as pessoas, daí que o dia a dia seja leve e prazeroso.”

O resto exige trabalho - e bastante. Em público, Fario­li insiste, vezes sem conta, nos quilómetros percorridos, sprints realizados e outras estatísticas físicas ao longo da época, e não é por acaso: “dá muito valor à fisicalidade”. Isso nota-se num FC Porto que, coletivamente, funciona como uma máquina de pressão e “obriga a grandes esforços físicos”. Pelo caminho, teve de enfrentar um golpe mental para o qual ninguém é preparado: a 5 de agosto morreu Jorge Costa, diretor para o futebol, numa tragédia no centro de treinos do Olival. E enfrentou ainda um revés desportivo quando uma lesão afastou Samu, o avançado principal, em fevereiro, obrigando-o a criar “nuances” para compensar a falta de golo, explica Tomás da Cunha: “Mais peso dos médios interiores em movimentos de rutura e os laterais, Zaidu e Alberto Costa, a avançarem mais.”

Fluente em inglês, com domínio de francês e já habituado a ouvir português, foi respondendo, repetidamente, às perguntas sobre a sombra do Ajax: na época passada, perdeu 10 pontos nas últimas cinco jornadas e acabou ultrapassado pelo PSV, vendo o rival festejar o título. Vencesse, empatasse ou perdesse, a lembrança aparecia nas conferências de imprensa. “Não se sentiu esse receio de perder”, frisa Tomás da Cunha, convencido de que o FC Porto será campeão. “Hoje o clube tem uma certeza, a garantia da competitividade pela forma como Farioli pensa o jogo, com mais controlo do que risco.” E tem mais uma: encontrou um treinador italiano detalhista - e que lhe assenta bem.

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