Quando Giorgia Meloni chegou ao poder, em outubro de 2022, a sua vitória foi lida de formas opostas: para uns, seria a resposta à paralisia estrutural da economia e da sociedade; para outros, um desastre anunciado. Passados três anos e meio, nenhuma dessas previsões se confirmou. A primeira mulher a chefiar o Governo em Itália continua a gerir um difícil exercício de equilíbrio, procurando provar que é possível liderar um executivo conservador, soberanista e culturalmente afirmativo sem resvalar para o autoritarismo. É esse o teste central do atual Governo italiano - e, no fim, o critério pelo qual o legado de Meloni será avaliado.
O seu é já o terceiro Governo mais duradouro da república italiana e, caso se mantenha em funções até setembro, tornar-se-á o mais longevo da História do país. Depois de uma campanha em que tentou virar a página do pós-fascismo, combinando-a com um registo populista e antieuropeu, em rutura com instituições da União Europeia, Meloni passou a liderar um dos executivos mais estáveis da Europa. Ainda assim, a relação próxima com o Presidente norte-americano Donald Trump - que a descreve como “grande líder” e “uma amiga”, apesar de a sua popularidade ter caído abruptamente em Itália no último ano -, a subida dos preços da energia e, sobretudo, a pesada derrota no referendo do mês passado empurraram a primeira-ministra para uma recalibração e um relançamento político.
Quando o inquilino da Casa Branca atacou o chefe da Igreja Católica - Trump acusou Leão XIV de ser “fraco” e tolerante ao crime -, Meloni viu-se obrigada a marcar posição. “O Papa é o chefe da Igreja Católica, e é correto e normal que peça a paz e condene todas as formas de guerra”, afirmou a líder da coligação de direita, ela própria católica, num país que acolhe a Santa Sé e onde a maioria da população é católica romana.
Trump, que anteriormente a tinha como uma das suas aliadas fiéis entre líderes mundiais - e como uma das poucas figuras com alguma margem de influência junto da Administração norte-americana -, reagiu de forma dramática: “Já não é a mesma pessoa”. Os dados sugerem que a mudança de tom foi acertada: uma sondagem da YouGov, realizada em março, indicava que 80% dos italianos (fortemente dependentes do gás natural) tinham uma opinião desfavorável sobre Trump, em particular depois do início da guerra com o Irão.
Da promessa ao teste do poder
Há poucas semanas, em Roma, Meloni declarou aos deputados: “O Governo está aqui, na sua capacidade máxima, determinado a dar o seu melhor até ao último dia do seu mandato”. E reforçou: “Comprometemo-nos a governar esta nação durante cinco anos, e é exatamente isso que faremos.” O Executivo afasta a hipótese de eleições antecipadas e a primeira-ministra - que, segundo politólogos, procurou reconfigurar a sua imagem, passando de radical a pragmática - tenta manter-se à tona num cenário internacional volátil. “Um aspeto notável à escala da instabilidade italiana é a sua capacidade de manter a coligação unida, mesmo perante consideráveis testes de stresse, e de manter a erosão dos seus índices de aprovação dentro de uma flutuação de 1%, à boleia de uma comunicação astuta e da competência de evitar gafes, que caracterizam a sua forma de governar”, afirma Alessandro Ferrara, professor de Filosofia Política na Universidade de Roma Tor Vergata e docente de Teoria do Direito na Luiss Guido Carli.
A estabilidade, porém, levanta a questão do preço. Ferrara observa que existe hoje “mais polarização em relação às mesmas questões de sempre, mais recentemente a remodelação dos órgãos administrativos do poder judicial”. A coligação liderada por Meloni junta três partidos - além de outras forças locais de menor dimensão: o seu partido, os Irmãos de Itália (com mais de 25% dos votos nas últimas legislativas), a Liga (nascida do protesto federalista e da exigência de maior poder para o Norte, mas transformada, sob Matteo Salvini - hoje vice-primeiro-ministro -, num partido anti-imigração) e a Forza Italia, fundada por Silvio Berlusconi. “As guerras culturais mais agressivas e o slogan antiwoke são externalizados para a Liga, e Meloni, e parcialmente o seu partido, vão mantendo um perfil mais moderado”, explica o professor.
Há quem sustente que, com Meloni no poder, pouco ou nada mudou de substancial. Federica Genovese, professora de Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade de Oxford, discorda: “O Governo de extrema-direita de Meloni remodelou a política italiana e, arrisco dizer, a política europeia, no sentido em que normalizou a capacidade dos movimentos de extrema-direita governarem o Estado.” Ainda assim, no terreno, e em várias frentes - sobretudo na política fiscal e nas relações internacionais -, Meloni acabou por seguir linhas próximas das tradições dos Governos tecnocráticos italianos, incluindo medidas lidas como austeritárias. No plano constitucional, também não conseguiu fazer avançar mudanças relevantes, como a reforma da justiça.
Com os ataques de Trump ao Papa, Meloni foi forçada a posicionar-se. “O Papa é o chefe da Igreja Católica, e é correto e normal que peça a paz”, disse
A derrota recente no referendo sobre a reforma do sistema judicial terá, provavelmente, travado o projeto mais ambicioso de Meloni: reforçar o executivo, instituindo a eleição direta do primeiro-ministro. “A partir de agora e até ao final do seu mandato de cinco anos, o objetivo mais ambicioso de Meloni é evitar perder uma moção de censura e ter de se demitir”, avalia Ferrara.
Estabilidade inédita num país instável
Para qualquer líder de um país com a dimensão e o peso internacional de Itália, a regra prática é simples: manter a economia a funcionar e impedir o isolamento externo. A distância percorrida por Meloni é significativa: de ameaçar abandonar o euro a cumprir as regras de Bruxelas. Essa viragem foi acompanhada por um prémio financeiro concreto - o estreitamento da diferença histórica entre as taxas de juro dos títulos de dívida pública alemães e italianos. “Isto significa uma enorme poupança no serviço da dívida nacional”, sublinha o investigador da Universidade de Roma Tor Vergata. Em termos macroeconómicos, o Governo seguiu uma linha de disciplina orçamental, reduziu o défice e preservou a credibilidade de Itália junto dos parceiros europeus. “Um feito notável para uma líder que muitos previam ser destruidora”, considera Lorenzo Castellani, investigador da Luiss Guido Carli, em Roma, especializado na História das instituições políticas.
Os dados mais recentes mostram uma descida do desemprego para 5,1%, o valor mais baixo desde 2004. Mas os indicadores não eliminam fragilidades: vários economistas chamam a atenção para o número ainda elevado de pessoas que não procuram emprego e, por isso, não surgem como desempregadas. Alguns especialistas explicam a queda pela dinâmica da construção civil, alimentada por subsídios anteriores a 2022 (ano em que Meloni tomou posse) e pelos fundos europeus pós-covid destinados a reforçar infraestruturas. Também a subida da idade da reforma tem contribuído para os números do emprego.
Alessandro Marrone, investigador do Instituto de Assuntos Internacionais, em Roma, aponta várias marcas conservadoras e de direita na ação governativa: redução de impostos para a classe trabalhadora e para a classe média, eliminação de apoios como o reddito di cittadinanza (subsídio de cidadania), endurecimento de medidas de segurança e “investindo em infraestruturas nacionais como comboios de alta velocidade ou a ponte sobre o Estreito de Messina, entre Sicília e Calábria”.
Mais do que uma grande arquitetura estratégica, politólogos reconhecem a Meloni capacidade de adaptação ao momento e uma preocupação em não exceder limites. Porém, como admite Ferrara, “quando o seu principal objetivo é evitar o descrédito, nenhuma notícia é uma boa notícia”. E embora o Governo constitua uma exceção, face à média italiana, no capítulo da durabilidade, “em termos de políticas implementadas e reformas transformadoras, não houve nada de particularmente radical ou disruptivo”, afirma Marco Improta, investigador de política na Universidade Luiss, em Roma.
A radical que é pragmática
Improta entende que a antiga ministra da Juventude de Berlusconi tem governado o Estado mais do que o tem reformulado. Essa tendência é especialmente visível em dois domínios decisivos: economia e Europa. A política orçamental permaneceu prudente, com leis de orçamento cautelosas e sem apostas expansionistas ou pouco convencionais. Em paralelo, o posicionamento europeu de Itália manteve-se cooperativo, e não confrontacional - sinal de continuidade, mais do que de rutura com executivos anteriores.
Já na migração, Meloni tem procurado afirmar liderança de forma mais ativa, incluindo em Bruxelas. Considera a matéria central para um país geograficamente exposto, por via das fronteiras marítimas. Na campanha de 2022, reforçou apoio ao insistir na necessidade de controlar e, potencialmente, reduzir as chegadas irregulares. No Governo, isso tomou a forma de iniciativas como o acordo para criar centros de processamento de migrantes na Albânia, medida que atraiu críticas significativas, tanto pela eficácia limitada como pelas dificuldades de implementação. Apesar disso, a migração continua a ser uma das frentes mais visíveis e politicamente decisivas para Meloni - e um palco através do qual procura projetar autoridade interna e liderança europeia.
Tem sido este “o principal terreno através do qual Giorgia Meloni exerce a soberania”, segundo Nando Sigona, professor de Migrações Internacionais e Deslocamento Forçado na Universidade de Birmingham. O académico conclui que o foco de Roma está “esmagadoramente nas fronteiras e nas chegadas: em impedir a entrada de barcos, externalizar o controlo e projetar a imagem de um Estado no comando”. Mas, acrescenta, esse foco tende a tapar uma realidade mais estrutural com a qual Meloni se deparou: “A economia italiana continua a depender fortemente da mão de obra migrante, particularmente em setores como a agricultura, a construção, a logística e os cuidados. A economia precisa de trabalhadores migrantes, mesmo que a política problematize a sua presença.”
Ambições travadas
O resultado é um modelo de dois níveis: um controlo fronteiriço sobretudo simbólico e musculado convive com uma dependência efetiva de mão de obra estrangeira. Nas palavras de Sigona, “os trabalhadores migrantes são frequentemente direcionados para empregos precários e mal remunerados, onde a vulnerabilidade legal e as perceções racializadas reforçam a exploração”.
Perante o envelhecimento progressivo do país e para compensar a saída em massa de jovens italianos, a primeira-ministra avançou discretamente com uma política que autoriza a entrada legal de quase meio milhão de migrantes nos próximos três anos. Meloni tinha assinado acordos polémicos com países do Norte de África para travar travessias no Mediterrâneo, construiu um centro de detenção na Albânia para encaminhar requerentes de asilo rejeitados de volta aos países de origem e chegou a ameaçar um bloqueio naval total para impedir entradas ilegais. Ainda assim, a coligação conservadora permitirá, nos próximos três anos, a entrada de até 497.550 imigrantes de fora da União Europeia, procurando responder à falta de mão de obra e ao declínio demográfico.
Esta será a segunda vaga de imigração “legal”, depois de o Governo ter emitido 450 mil autorizações entre 2023 e 2025. Uma parte substancial destina-se a trabalho agrícola sazonal, com vistos de nove meses, obrigando ao regresso no final do período. No entanto, os titulares podem pedir a extensão do visto de nove meses por tempo indeterminado.
À primeira vista, a opção parece colidir com a promessa de mão firme na imigração. Em paralelo, porém, o Governo aprovou legislação para apertar o cerco às chegadas irregulares por mar. A coligação pretende acelerar repatriamentos e restringir a atuação de ONG que resgatam migrantes no Mediterrâneo, tornando politicamente mais nítida a fronteira entre entradas regulares e irregulares.
O paradoxo migratório italiano
Sigona enquadra estas escolhas numa deslocação cultural de maior alcance: “As narrativas de nação, família e identidade enquadram a diversidade menos como um facto social do que como um desafio à coesão. Neste contexto, a fronteira não se limita às fronteiras nacionais, reproduzindo-se também no mercado de trabalho e no quotidiano.” Para o professor, trata-se de uma lógica com impacto duradouro: “A Itália continua a resistir a vias mais inclusivas para a cidadania para as crianças nascidas ou criadas no país, filhas de pais migrantes, reproduzindo, na prática, a exclusão ao longo do tempo. O sentimento de pertença é adiado, mesmo para aqueles que nunca viveram noutro lugar.”
No verão de 2025, o Parlamento aprovou um projeto de lei controverso destinado a reprimir protestos e a alargar a proteção legal das forças de segurança. O decreto de segurança, apresentado pelo Governo de direita de Giorgia Meloni, passou com 109 votos a favor, 69 contra e uma abstenção. O diploma agravou penas para crimes ligados a manifestações - incluindo danos materiais e ocupações ilegais -, ampliou poderes das forças de segurança e passou a permitir que agentes dos serviços de informações cometam determinados crimes por motivos de segurança nacional sem serem alvo de processo.
Paolo Gerbaudo, sociólogo e teórico político na Universidade Complutense de Madrid, classifica o decreto como “legislação draconiana contra protestos e outros direitos civis”, criticando o facto de Meloni e aliados terem vindo a “apoiar retoricamente as forças policiais, mesmo nas ocasiões em que estas se têm claramente comportado mal”.
As batalhas culturais
Para alguns setores, a normalização mais relevante não é uma medida concreta, mas aquilo a que chamam “uma gramática política”. Castellani aponta “uma forma de falar de nação, soberania e identidade que, durante décadas, foi artificialmente suprimida do discurso dominante por um consenso antifascista do pós-guerra que nunca foi tão universal como os seus defensores alegavam”. Nesse quadro, a retórica de “Deus, Pátria, Família” surge como um regresso que uns consideram perigoso e outros entendem como a representação legítima de uma sensibilidade conservadora transversal à Europa. “Merece uma representação como qualquer outra”, sustenta Castellani.
O país também revisitou aniversários de uma das suas maiores tragédias associadas à Segunda Guerra Mundial - o Massacre das Foibe, com entre 5 mil e 17 mil mortos italianos. O episódio ocorreu em 1947, quando a Jugoslávia comunista procurava anexar a região italiana do Friulli-Venezia Giulia, no extremo nordeste. Quem se opunha era executado por forças ligadas ao marechal Josip Broz Tito. Para Castellani, “A elevação das foibe a um lugar central na memória nacional não é revisionismo; é o reconhecimento tardio de uma tragédia histórica que foi suprimida por razões políticas durante a Guerra Fria”, defendendo que uma democracia madura deve conseguir sustentar memórias paralelas - a resistenza e as foibe, a coragem dos partisans e a violência comunista. “Meloni avançou nesse sentido e isso, no geral, é um contributo para a honestidade histórica, e não uma distorção da mesma”, conclui.
Improta integra um conjunto de analistas que vêem o maior impacto de Meloni no clima político, mais do que na produção legislativa, “principalmente porque não houve alterações legislativas particularmente abrangentes ou disruptivas”. Nesse sentido, a Itália encaixa num fenómeno mais amplo, onde guerras culturais e política antiwoke ganham peso - tendências que, em regra, chegam dos Estados Unidos com atraso.
Mas existe também um padrão italiano, de fundo histórico. A direita critica há décadas aquilo que descreve como “hegemonia cultural” de esquerda, sobretudo nas artes, música e entretenimento, onde o progressismo é frequentemente encarado como dominante. Nesse contexto, admite Improta, “houve tentativas de obter uma maior influência na esfera cultural”. A radiodifusão pública continua a ser o palco mais exposto, por ser tradicionalmente sensível à alternância do poder.
Media, poder e controlo
Castellani considera a reconfiguração do Estado mais complexa do que sugerem os críticos. Defende que “as nomeações institucionais seguiram a lógica de todos os Governos italianos que assumiram o poder” e que “a esquerda nunca hesitou em preencher a RAI, as universidades e as instituições culturais com os seus próprios membros”.
“U que é diferente é que, pela primeira vez, é a direita que o está a fazer, e um ecossistema mediático habituado ao domínio da esquerda liberal viveu-o como um ataque, e não como a rotação normal do poder”, acrescenta. Em 2024, jornalistas da estação pública fizeram greve, com o sindicato a denunciar “controlo sufocante” do Governo e a alegar que o problema histórico da influência política se agravara desde a chegada de Meloni. O professor reconhece que há razões legítimas para preocupação com a liberdade de imprensa e a independência da RAI, e que o tema exige vigilância. Ainda assim, sublinha que “a Itália sempre teve um panorama mediático altamente politizado, sendo que a questão é de grau, não de essência”. E, acrescenta, o grau “ainda não atingiu o limiar do verdadeiro retrocesso democrático visível na Hungria ou na Polónia”.
No sistema escolar, Itália voltou a uma medida que permite reprovar alunos por mau comportamento, justificando-a com a crescente preocupação com agressões contra professores. A política de “notas por conduta” aproxima-se de uma medida introduzida pelo Governo fascista de Benito Mussolini em 1924. O novo enquadramento dá às escolas poder para chumbar com base exclusiva no comportamento: alunos do ensino básico e secundário que obtenham nota igual ou inferior a cinco em dez valores em conduta serão reprovados no ano letivo e podem ter de o repetir, mesmo com aproveitamento académico.
Educação com autoridade e os clássicos
Governo e Parlamento passaram a valorizar mais o domínio da língua italiana, o património cultural nacional, textos clássicos, poesia, caligrafia e a reintrodução facultativa do latim. James L. Newell, professor de Ciência Política na Universidade de Salford, interpreta as alterações como “tentativa de reancorar a educação numa ideia mais conservadora de transmissão cultural e autoridade”.
A presença de Itália como país convidado de honra na Feira do Livro de Frankfurt de 2024 gerou polémica: autores de renome acusaram a apresentação oficial de estar excessivamente alinhada com a orientação cultural do Governo. A exclusão de Roberto Saviano - escritor que já se insurgiu contra Meloni - da delegação oficial desencadeou protestos e boicotes por parte de outros escritores. Para Newell, o episódio espelhou uma disputa sobre quem pode representar culturalmente a nação e sobre se a crítica ao Governo pode, de forma discreta, tornar-se um entrave na diplomacia cultural oficial.
Ainda assim, a captura da esfera cultural não foi homogénea. A Bienal de Veneza, sob uma nova presidência conservadora, não se limitou a tornar-se uma montra nacionalista: a edição de 2026 foi entregue a Koyo Kouoh, a primeira mulher africana a assumir essa curadoria, contrariando expectativas de uma simples viragem nacionalista. “Isto é importante porque mostra que a era Meloni não está a produzir uma simples ordem cultural unipartidária; está a produzir um campo mais conflituoso”, observa Newell.
Gerbaudo descreve mesmo uma tentativa de mudança do ambiente social. “Na política educativa, ao tentar introduzir elementos mais autoritários na educação e, em termos de reafirmação do orgulho nacional, também ao apagar a autoconsciência sobre a participação da Itália em massacres na Segunda Guerra Mundial e o respeito pela ordem e disciplina”, enumera. O sociólogo teme ainda a normalização da ideia de que o passado fascista não é motivo de vergonha e de que Itália foi uma vítima da guerra. “É isso que o partido de Meloni defende há muitos anos, promovendo inclusive celebrações nacionais nesse sentido, em memória dos italianos mortos às mãos dos partisans jugoslavos, mas omitindo o facto de a Itália ter invadido a Jugoslávia. De um modo mais geral, procura-se normalizar a ideia da primazia da nação, da nacionalidade, do patriotismo e da identificação com o país no seu todo.”
Para compensar a emigração de jovens italianos, Meloni introduziu uma política para autorizar a entrada de quase meio milhão de migrantes nos próximos três anos
O facto de um partido com raízes pós-fascistas - Fratelli d’Italia - ocupar o centro do Governo deixou de ser tratado como exceção. “As referências a figuras ou símbolos historicamente associados a esta tradição são hoje consideradas menos politicamente tóxicas”, nota Newell. “Há três anos, isto teria causado maior alarme nacional e internacional. Desde então, tem havido um certo grau de habituação.”
Meloni recorre com frequência à ideia de um “povo” coeso - do qual se apresenta como representante mais autêntica - e dirige críticas às elites, aos tribunais e a intermediários, espelhando uma impaciência típica do populismo perante limitações constitucionais à autoridade do executivo. Newell considera que essa linguagem, antes própria da oposição, passou a ser “utilizada dentro do Governo sem grande estigma”, acrescentando: “Esta mudança é importante porque, juntamente com os estilos de líderes populistas de outros lugares, mais obviamente o de Donald Trump, redefine subtilmente a linguagem legítima e os estilos de comunicação daqueles a quem foi confiada a responsabilidade de governar.”
Um país mais dividido?
Em simultâneo, Gerbaudo argumenta que a coligação não entregou o que prometeu. “Porque ainda estão muito alinhados com o individualismo neoliberal de Berlusconi e sabem que o seu eleitorado não está preparado para os sacrifícios nacionais.” Para o sociólogo, a reafirmação de autoridade estatal convive com uma desconfiança libertária face ao próprio Estado. “Exemplo emblemático disto tem sido a forma como a direita abraçou a guerra cultural em torno do caso da chamada famiglia del bosco, um casal australiano que vivia numa cabana num bosque no centro de Itália, cujos filhos foram retirados da sua guarda por juízes devido a receios sobre o seu bem-estar. Em vez de apoiarem os juízes, Meloni e os seus aliados demonstraram total apoio ao casal que defendia o ‘regresso à natureza’.” Na leitura de Gerbaudo, o episódio expõe uma incoerência estrutural na ideologia atual da direita nacionalista italiana.
No campo da família, a mensagem mais claramente normalizada é a de que o Estado deve favorecer a “família tradicional”, não apenas como uma forma social entre outras, mas como referência moral preferencial. Newell recorda que isso se traduziu em tentativas de impedir municípios de registarem ambos os pais em filhos de casais do mesmo sexo, na oposição governamental à parentalidade por casais do mesmo sexo e na lei de 2024 que criminaliza a gestação de substituição feita no estrangeiro. “Estas medidas não criaram o conservadorismo italiano a partir do zero, mas fizeram com que uma definição mais excludente de parentalidade legítima parecesse senso comum na governação.”
Ao mesmo tempo, o Tribunal Constitucional moveu-se em sentido inverso: reconheceu direitos parentais a mães lésbicas em casos de fertilização in vitro e permitiu que pessoas solteiras adotem crianças estrangeiras. Para Newell, isto “recorda-nos que o Estado não foi capturado nem transformado de forma uniforme”. Na vida social diária, as mudanças foram também menores do que muitos antecipariam: as uniões entre pessoas do mesmo sexo não desapareceram; pelo contrário, atingiram o valor mais alto em seis anos em 2023, mesmo com o endurecimento de políticas e retórica. A sociedade continuou a evoluir, enquanto partes do Estado tentaram reposicionar um vocabulário moral mais restritivo.
A realidade impõe-se
O adiamento de reformas pela primeira-ministra prolonga um traço antigo da política italiana: a instabilidade crónica, durante anos, dificultou qualquer reforma estrutural. Meloni tentou garantir ao executivo uma base constitucional mais sólida, mas, para muitos analistas e para os eleitores que derrotaram a proposta, tratava-se de um projeto controverso e demasiado específico. Com a derrota no referendo sobre a reforma da justiça, outras reformas institucionais tornam-se, agora, impraticáveis.
Apesar da longevidade, a transformação profunda prometida para a sociedade não se materializou, dizem muitos observadores. Em vez de uma Itália amplamente convertida à visão de Meloni, o retrato atual é o de um país dividido e polarizado, com blocos pró e anti-Meloni bem delimitados. Uma ideia mais tradicional de família e de identidade de género “tornou-se certamente mais visível no discurso público, e esta é uma área que o Governo tem enfatizado”, aponta Improta, embora descreva a atuação da líder como “relativamente cautelosa”.
O objetivo do Executivo não passou por expandir direitos civis, mas também não houve um esforço inequívoco de os restringir. “O aborto nunca foi seriamente posto em causa, e as figuras conservadoras mais radicais permaneceram em grande parte à margem da agenda do Governo”, exemplifica Improta. Na sua leitura, a diferença tem sido sobretudo narrativa: “Em comparação com 2022, a Itália de hoje parece mais à vontade para invocar abertamente a ideia de ‘patriotismo’, um termo que Meloni prefere a ‘nacionalismo’.” E essa visão coloca Itália a afirmar-se mais dentro da Europa - e não contra ela -, procurando mais influência sem sair do quadro europeu.
O pragmatismo do Governo aproxima-se, também, de um realismo crescente face às limitações estruturais do país, sobretudo em relação à União Europeia e aos Estados Unidos. Meloni deixou claro que pode haver crítica a Washington, mas não um distanciamento da relação. Como disse numa conferência de imprensa no início deste ano, Itália não pode simplesmente “invadir os restaurantes da McDonald’s”. No passado, a aliança transatlântica era contestada com maior frontalidade, ainda que muitas vezes apenas na retórica.
Um rosto interno, outro rosto internacional
Com Meloni, Itália tem-se mantido como parceiro fiável da NATO e interlocutor construtivo - embora exigente - no apoio à Ucrânia, em Bruxelas. A estratégia de duas pistas - assertiva na soberania, responsável nas alianças - não é, para todos, uma incoerência. Meloni é atlantista por convicção, privilegiando a aliança ocidental como comunidade civilizacional, mais do que como expediente burocrático. Defende uma herança partilhada de valores, História e interesses estratégicos, mas mantém ceticismo quanto a algumas formas específicas de integração europeia e, internamente, insiste na identidade nacional, nas estruturas familiares tradicionais e na reafirmação da soberania popular.
“Em política, as contradições são tão comuns que, muitas vezes, deixam de ser contradições em sentido estrito”, comenta Improta, acrescentando: “O que observamos é, mais precisamente, uma estratégia que, por vezes, pode parecer incoerente ou mesmo ineficaz, tornando-se assim numa mera tática, mas que, no entanto, é estruturada.” Meloni percebeu que o confronto aberto com Bruxelas ou Washington implicaria custos muito maiores do que endurecer a retórica na política interna.
Já Gerbaudo interpreta a política externa como mais um exemplo de desfasamento entre a retórica identitária, de “alto nível”, e uma “realidade de oportunismo político e conservadorismo, que é bastante diferente das promessas revolucionárias de Donald Trump”.
Abrindo a Janela de Overton
A distância entre atmosfera política e legislação é, de facto, palpável. O ambiente alterou-se, mas Castellani entende que muito desse movimento corresponde a “um realinhamento genuíno da sociedade italiana que precedeu Meloni, e que ela canalizou, em vez de criar”. A questão de fundo é se a moderação legislativa traduz hesitação ou prudência. Para Castellani, “Um Governo que chegou ao poder com receios de uma rutura radical e que, em vez disso, governou de forma gradual dentro das restrições constitucionais e europeias, pode ser razoavelmente creditado com um certo grau de responsabilidade institucional”.
Ao fim de três anos e meio, a mudança mais consequente pode ser a normalização plena da direita italiana como cultura de governo - culminando um processo iniciado com Berlusconi em 1994, mas nunca totalmente consolidado. “Pela primeira vez, um partido enraizado na tradição pós-fascista governou a Itália com estabilidade e credibilidade internacional”, num momento que Castellani descreve como “verdadeiramente histórico e que merece ser reconhecido como tal, em vez de ser visto apenas pela perspetiva das suas origens”.
Meloni ainda não transformou o Estado italiano de forma radical. Mas terá produzido um efeito mais discreto - e potencialmente mais duradouro: deslocou as fronteiras do que passa a ser considerado politicamente aceitável, legítimo e governável. Isto importa porque o “discurso normalizado” de hoje tende a converter-se no “espaço político disponível” de amanhã.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário