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Jovens, esquerda e direita reacionária: cinco razões, Carris e um fracasso

Passageiros variados, incluindo jovens com skate, sentados e em pé num autocarro urbano durante o dia.

Cinco razões para a viragem dos jovens

Primeira. É difícil suportar a presunção de superioridade moral da esquerda, tão visível em cada manifestação do 25 de Abril e em tantas outras. A avenida parece ter dono; eu só consigo descer a avenida sem levar com bocas se for pela trela de algum progressista - isto é, se tiver padrinho, se for benzido pelo pote sagrado, se me portar como um catecúmeno da esquerda. Se apareço por iniciativa própria ou ligado a uma instituição à direita, o acolhimento tende a ser frio, ríspido ou até hostil. O sectarismo nunca foi escasso à esquerda. De resto, os intelectuais de esquerda dificilmente exibiriam a humildade que os de direita mostraram na última eleição presidencial: entre um radical de esquerda e um moderado de direita, a elite intelectual de esquerda escolhe sempre o radical, porque o radicalismo de esquerda - não é ódio, é virtude, não é? Ainda assim, a geração mais nova revolta-se contra essa arrogância beata, à Bloco de Esquerda. É a roda da história.

Segunda. As universidades, em grande medida sob a mundividência da esquerda, tornam-se conservadoras quando se trata de defender os dogmas esquerdistas. Há uma crise violenta de conformismo no pensamento académico. Um académico um pouco mais independente é logo carimbado de negacionista (ou pior) e rapidamente lhe sugerem que mude, apague ou esconda x, y ou z. Roland Fryer é um caso exemplar: quando uma investigação de grande escala concluiu que a polícia norte-americana não dispara mais armas de fogo em interações com negros, Fryer foi pressionado e intimidado por colegas. Se for preciso, os factos transformam-se em tabu. Hoje, a esquerda está mais inclinada a inquirir do que a pensar livremente; proclama tolerância e liberdade, mas não tolera quem raciocina de outra maneira. E, à medida que se vai esvaziando, derrota após derrota, vai ficando ainda mais intolerante nos redutos que lhe restam.

Terceira. A velha esquerda marxista do tempo da URSS também era soberba, mas ao menos mantinha coerência. Já a “nova” esquerda identitária acumula arrogância sem a mesma coerência. Feministas e ativistas LGBT marcham nas avenidas ao lado de símbolos do radicalismo islâmico. Um tipo da manosfera é um aprendiz de misoginia ao pé de um muçulmano convicto, mas a esquerda fecha os olhos ao segundo; pior, protesta ao lado da misoginia muçulmana, traindo assim as próprias mulheres muçulmanas. Onde esteve a esquerda quando era preciso apoiar as mulheres iranianas na guerra contra o regime? Estava a defender a burca em território europeu. Em suma: o feminismo aplica-se apenas à mulher branca, mais ou menos privilegiada, porque as mulheres pobres também não entram no radar desta esquerda que apagou a classe social e que nem disfarça o desdém snobe pelos mais pobres, os “desprezíveis”. A esquerda acabou transformada num desporto alternativo, uma variante do capitalismo tardio, para usar o jargão da tribo.

Quarta. Esta geração é, no sexo e nos costumes em geral, mais conservadora; os miúdos arriscam muito menos, até porque vivem debaixo de uma ameaça sufocante: podem ser filmados a qualquer instante. A mera hipótese de existir uma câmara escondida algures está longe de ser afrodisíaca; por isso, eles estão muito mais na defensiva em todas as fases da sedução - do bar à dança, e depois no ato em si. Não admira que saiam menos e dancem menos. Compare-se um concerto ou uma discoteca de 1990 com algo semelhante em 2026: são dois mundos. O primeiro é mais rebelde, mais livre, mais solto, porque ninguém nos estava a gravar. Aliás, quando se discute a saúde mental dos jovens, este medo de ser filmado pode ser mais nocivo do que as redes sociais. O que fazíamos numa discoteca morria nessa discoteca. O que eles fazem hoje numa discoteca, numa praia, num bar, num estádio ou num concerto pode reverberar para sempre. Nós crescemos com o medo da sida; eles agora - sobretudo elas - crescem com um medo objetivamente mais castrador: a possibilidade de uma “caminhada da vergonha” na internet para o resto da vida. A pornografia a um clique de distância pode criar a sensação de que por aí reina uma libertinagem total. Não é verdade. Todos os indicadores apontam no sentido contrário: os miúdos têm menos sexo do que nós; jogam sempre à defesa. Repare-se: se existe sempre um risco intrínseco na cama, então esse medo do erotismo (um medo criativo e criador, mas medo) será inevitavelmente recusado por uma geração obcecada com segurança e zonas de conforto. E aqui há uma ironia: o wokismo de uns e a beatice de outros produzem o mesmo resultado - ficam mais conservadores, mais distantes da revolução sexual.

Quinta. Há um retorno do sagrado. A religiosidade está a crescer entre os mais jovens. Outra vez, a roda da história. Há 100 anos viu-se algo semelhante. Depois de meio século de globalização e de avanços tecnológicos que demoliram o mundo antigo entre meados do século XIX e o início do século XX, a geração do começo do século XX regressou ao cristianismo para encontrar pertença a algo fixo, imutável, eterno. Navio a vapor, eletricidade, elevador, motor de combustão, automóvel, avião, telégrafo, telefone, água canalizada, a massificação dos jornais: estas inovações transformaram por completo a sociedade. Uma pessoa nascida em 1850 teria mais em comum com alguém de 1500 do que com alguém de 1920. Nascidos no meio desse turbilhão, sem referências sólidas na sociedade, na política e até na família, muitos jovens agarraram-se a uma pedra estável há dois milénios. Um jovem nascido em 2000 ou 2010 sente algo parecido hoje. A revolução digital destruiu partes do velho mundo - na economia, nos costumes e na guerra. Sem surpresa, há quem descubra na fé a constância que falta em quase tudo o resto.


Retratos do quotidiano e códigos em conflito

A Carris é a Humanidade

A senhora que carrega o saco das compras com a ponta do alho-francês a espreitar; o velhote que cheira a melão com dois dias; o homem que nunca usa desodorizante e que acredita que o seu odor tem feromonas irresistíveis - o pelo a aparecer no peito da camisa aberta não engana; a universitária que sublinha os apontamentos da amiga com marcadores fluorescentes; a jovem que lê um romance leve, escondido por uma capa de tecido; a jovem que lê os Karamazov com o orgulho inteiro da pedante, sublinhando e anotando nas margens; o rapaz que ouve um programa de áudio e toma notas num caderno preto que depois enrola e enfia no bolso de trás das calças; a senhora que se esquece de carregar no botão de paragem; o miúdo que carrega no botão em vez das velhinhas que nem lá chegam; o universitário com aura de CUPAV que se levanta sempre que surge alguém mais frágil, mas hoje calha-lhe o azar: ergue-se para ceder o lugar a uma jovem que parece grávida, mas que é apenas uma rapariga com uma circunferência abdominal mais generosa.

O silêncio embaraçado dos dois é, por si só, um tratado sobre a ausência de um código de conduta comum entre eles e elas. Ela sente-se profundamente ofendida e descarrega no rapaz, que não fez nada de errado. Ele fica vermelho, entre a vergonha e a raiva. Ela não sabe ler a expressão do miúdo; está apenas empenhada no seu palanque: começa a falar com a linguagem da vergonha corporal. Não, não é isso: foi apenas um equívoco nascido de uma gentileza atenta. É bem provável que este rapaz já se tenha levantado muitas vezes para senhoras gordas que lhe agradeceram. Será esta mais uma das razões que empurra jovens para o campo reacionário? É que hoje já não existe um código social partilhado; existe uma dispersão de códigos tribais: o que é delicadeza para uns, para outros é desprezo. Perante este cardápio infinito de códigos contraditórios, alguns podem ser atraídos pela suposta pureza e simplicidade do código de antigamente.


Realidade, perceção e pessimismo no Ocidente

Um fracasso

A distância entre realidades e perceções pode ser enorme, quase caricata. Se um extraterrestre chegasse agora à Terra, só poderia concluir o seguinte: Portugal - ou qualquer outro país ocidental - tem de ser mais otimista do que a Nigéria. Em termos objetivos e mensuráveis, a Nigéria está entre os piores países do mundo para uma criança ou para uma parturiente. Nós, no Ocidente, temos condições de deuses do Olimpo quando nos comparamos com os nigerianos. A mortalidade infantil da Nigéria em 2025 equivale à do Portugal salazarista de 1960. E, no entanto, são os nigerianos que são otimistas. Sobre o otimismo dos africanos, falaremos noutra ocasião. Hoje quero apenas sublinhar o falhanço dos sistemas de ensino no Ocidente, que produziram uma geração sem história e, por isso, pessimista.

Daí este paradoxo: como é que nos conseguimos sentir, subjetivamente, no fundo do poço, quando objetivamente temos as melhores condições de vida de toda a história da espécie? Na prática, esta é mais uma das razões da viragem dos jovens para a direita reacionária que, tal como a esquerda, ignora os avanços formidáveis que a sociedade liberal alcançou nas últimas décadas.

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