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Paulo Rangel e Matthew Whitaker: NATO, FLAD e pressão pelos F-35, com a Base das Lajes no radar

Dois homens em fato conversam numa sala com modelos de aviões e uma bandeira dos EUA ao fundo, junto a uma janela.

Esta quarta-feira de manhã, em Lisboa, houve dois palcos a ecoar a mesma conversa, mas com tons diferentes. Na Fundação Gulbenkian, quando o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, acabava um discurso cheio de subtilezas diplomáticas sobre as relações transatlânticas, o embaixador dos EUA na NATO, Matthew Whitaker - um dos diplomatas mais próximos de Donald Trump - iniciava, na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), uma intervenção destinada a aplaudir o investimento português em Defesa e, ao mesmo tempo, a insistir na compra de caças norte-americanos F-35.

Diplomacia em dois palcos em Lisboa

No Foro La Toja, conferência luso-espanhola de alto nível, Paulo Rangel descrevia a aliança com a potência dominante no Atlântico - ontem a Inglaterra, hoje os Estados Unidos - como um traço histórico persistente da política externa portuguesa e um ponto de divergência face a Espanha. Noutro ponto da cidade, Matthew Whitaker - que chegou a procurador-geral na primeira Administração Trump - apontava o dedo a Madrid: “Vocês têm um vizinho que tem sido um desafio para os EUA, que não nos concedeu acesso a bases nem permissão de sobrevoo como esperávamos”, a propósito da guerra no Irão.

Ao seu lado, a sublinhar o contraste com as críticas dirigidas a Espanha, o embaixador norte-americano em Lisboa, John Arrigo, elogiava o papel português: “Portugal dá-nos um apoio fundamental na Base Aérea dos Açores, o que garante a segurança da NATO todos os dias. E o Governo atingiu os 2% de despesas com a Defesa este ano, com um plano claro para atingir os 5% até 2035.”

Lajes mais relevantes

O enquadramento é determinante. Numa altura em que cresce o ruído vindo de Washington - esta semana Trump voltou a ameaçar retirar tropas da Alemanha - Whitaker passou por Portugal no âmbito da ronda que está a realizar junto de aliados, recolhendo elementos que podem vir a contar se os EUA avançarem para uma reconfiguração da sua presença na Europa. A razão invocada é um “cálculo e uma reavaliação do valor da aliança da NATO”.

Apesar de manter elevada a exigência de mais investimento, observadores políticos e militares dizem ao Expresso que Whitaker pareceu procurar reduzir os danos retóricos da Administração, ao mesmo tempo que não evitou pressionar publicamente Portugal a adquirir os caças “invisíveis” da Lockheed Martin.

É precisamente essa transformação profunda na Aliança que está a ser preparada - com impacto na Europa e em Portugal. Camille Grand, especialista francês, secretário-geral da Associação Europeia das Indústrias Aerospaciais, Segurança e Defesa, e antigo responsável na NATO, afirma ao Expresso que “a relação com os EUA não voltará aos velhos bons dias do passado” e que os Estados Unidos “já pediram aos europeus para tomarem conta da defesa convencional do continente”. Este ponto deverá ser discutido na Cimeira da NATO de julho, em Ancara, na Turquia. Já o guarda-chuva nuclear, garantiu Whitaker na conferência da FLAD, continuará assegurado pelos EUA.

“Sei que Portugal tomará, em breve, a opção” pelos F-35, diz o embaixador dos EUA na NATO

Neste novo cenário estratégico, os Açores podem voltar a ganhar peso à medida que o Ártico se torna central para a segurança norte-americana - ideia partilhada por várias fontes políticas e militares. O raciocínio é simples: se russos e chineses pretendem usar o Ártico, o objetivo é chegar ao Atlântico. E isso abre a possibilidade de Portugal interpretar que os EUA poderão atribuir mais centralidade, no futuro, à Base das Lajes.

Não é claro de que forma isso ocorreria, nem se se trata apenas de uma expectativa portuguesa. Ainda assim, Matthew Whitaker visitou esta semana a ilha Terceira, por onde têm passado meios militares e de apoio logístico ligados ao esforço de guerra. Paulo Rangel, por sua vez, continua a desvalorizar a utilização norte-americana da base, classificando-a como “ínfimo” e “pouco relevante”, como disse numa entrevista à RTP esta quarta-feira.

Americanos não são melhores?

F-35 e a lógica transacional de Washington

A abordagem transacional da Administração Trump permanece omnipresente, mesmo com Portugal fora do grupo de países visados pelos alegados castigos de que a Casa Branca tem falado para os europeus menos cooperantes. Na FLAD, Whitaker disse querer “aliados fortes”, capazes de “aliar-se aos Estados Unidos, contribuir com capacidades reais, projeção real de poder, e dissuasão real”. Para esse objetivo, acrescentou, é preciso “investir em projetos como o F-35”.

A pressão do responsável norte-americano subiu ainda mais: “Sei que Portugal tomará, espero que em breve, a decisão de optar por essa plataforma”, afirmou. “É, de longe, a melhor plataforma possível e o melhor investimento que se pode fazer em defesa e dissuasão, não só para o país, mas para a Aliança.”

Na nova circunstância estratégica, a Base das Lajes poderá recuperar importância

Rafale, Gripen e o argumento industrial

Embora Washington procure vender armamento à Europa, há também o objetivo de ver os europeus reforçarem a sua base industrial de defesa. Ainda assim, num outro encontro de alto nível realizado esta terça-feira, no Estoril (ver caixas), dirigentes de topo da indústria militar europeia contestaram a hegemonia dos EUA.

Éric Trappier, presidente da francesa Dassault Aviation - fabricante dos caças Rafale - foi direto: “Não é verdade que compremos americano porque eles são melhores, isso não é verdade.” Do lado sueco, Micael Johansson, diretor executivo da Saab, que produz os aviões de combate Gripen, reforçou a crítica: “Estamos a produzir quatro ou cinco vezes mais do que eles, e não é verdade que tenhamos de comprar americano por ser a única maneira de ter as coisas a tempo.”

Com a pressão de Washington a intensificar-se em Lisboa, Micael Johansson reconheceu ao Expresso que a Saab já teve “contactos com o Ministério da Defesa, a Força Aérea e a indústria, para mostrar o potencial do programa do caça Gripen”. Entre as hipóteses apresentadas, disse, está a montagem de partes do avião nas OGMA, em Alverca, ou até uma montagem final. Trata-se de um argumento industrial ao qual o Governo parece dar atenção, apesar de a Força Aérea manter clara a preferência pelos norte-americanos.

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