O FBI e a Procuradoria dos Estados Unidos para o Distrito de Massachusetts tornaram públicas as conclusões relativas ao tiroteio em massa perpetrado por Cláudio Neves Valente, de 48 anos, na Universidade de Brown, a 13 de dezembro de 2025, bem como ao homicídio de Nuno Loureiro, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em Brookline, Massachusetts, ocorrido dois dias depois.
Dimensão da investigação do FBI
Segundo o FBI, foram recuperadas "mais de 112 peças de prova", analisadas "mais de 490 pistas" e revistos "mais de 11 mil ficheiros de imagens de vigilância". No âmbito do exame dos dispositivos eletrónicos do atirador, os investigadores analisaram 815 vídeos e 1327 ficheiros de áudio, além de terem conduzido mais de 260 entrevistas.
Percurso de Cláudio Neves Valente nos Estados Unidos
A investigação determina que o cidadão português, residente permanente legal e a viver em Miami, na Flórida, atuou sozinho tanto no tiroteio em massa na Universidade de Brown como no homicídio de Nuno Loureiro. "Determinou-se que as suas ações não tinham qualquer ligação ao terrorismo", sublinha o FBI.
Cláudio Neves Valente entrou nos Estados Unidos em agosto de 2000 com um visto de estudante para a Universidade de Brown, depois de concluir um curso de Física no Instituto Superior Técnico, em Portugal. Nesse outono, inscreveu-se num programa de doutoramento na Universidade de Brown, mas abandonou-o em maio de 2001 e saiu do país.
Mais tarde, em 2017, obteve residência permanente legal enquanto vivia em Miami, na Flórida, e trabalhou durante um curto período como motorista de serviços de transporte partilhado. À data dos tiroteios, estava desempregado e não tinha registo de antecedentes criminais, nem existiam contactos anteriores documentados com as forças policiais.
Armas de 9 mm, gravações e cronologia dos ataques
As duas pistolas de 9 mm apreendidas pelo FBI em Salem, New Hampshire, junto ao corpo do autor dos crimes, tinham sido compradas legalmente pelo próprio numa loja de penhores na Flórida. A primeira arma, uma Glock 34 de 9 mm, foi adquirida a 19 de julho de 2020 e foi a utilizada no tiroteio na Universidade de Brown. A segunda, uma Glock 26 de 9 mm comprada a 22 de março de 2022, foi "positivamente associada" ao homicídio de Nuno Loureiro.
De acordo com o FBI, "Após os tiroteios, Cláudio Neves Valente gravou uma série de ficheiros de áudio e vídeos curtos nos quais confessou ter cometido estes crimes, não demonstrou qualquer remorso e não apresentou qualquer motivo para as suas ações".
O próprio Cláudio Neves Valente afirmou ter iniciado o planeamento do ataque à Universidade de Brown em 2022, período em que alugou um armazém em Salem, New Hampshire, e para lá levou as suas armas de fogo. Foi nesse local que acabou por ser encontrado morto, devido a um ferimento de bala autoinfligido, um dia depois de ter alvejado Nuno Loureiro.
Atirador "ponderou, planeou e preparou" o tiroteio em massa
Com base no conjunto de informação e de provas reunidas durante a investigação, o FBI entende que as vítimas escolhidas por Cláudio Neves Valente tinham uma "natureza simbólica". Para o atirador, a Universidade de Brown, enquanto instituição, e Nuno Loureiro "representavam para o atirador os seus fracassos pessoais e as injustiças que ele percebia terem-lhe sido infligidas por outros ao longo do tempo". Ao dirigir-se contra esses alvos, o homicida "provavelmente superar a sua vergonha e inveja, recorrendo à violência para punir as comunidades que ele considerava terem contribuído para a sua ruína".
A avaliação do FBI indica que Neves Valente estava decidido a concretizar o ataque e que o planeamento se encontrava concluído. "Ele ponderou, planeou e preparou o tiroteio em massa na Universidade de Brown de forma gradual, ao longo de vários anos, em isolamento e abrangendo vários locais geográficos". O modo de vida nómada, a preparação prolongada e o isolamento social terão criado "pouca ou nenhuma oportunidade para que terceiros observassem e contextualizassem o significado dos seus comportamentos". O atirador "carecia de apoio tradicional, como família, colegas e figuras de autoridade, que teriam sido capazes de observar quaisquer sinais de alerta potenciais e contactar as autoridades policiais".
O FBI considera ainda que o português terá sido "motivado por um conjunto de queixas que acumulou ao longo da vida" e que "parecia ter dificuldade em aceitar a forma como via as suas conquistas na vida e sentia-se consideravelmente marginalizado pelos outros". O ego "inflado" do atirador terá alimentado "conflitos interpessoais na sua vida e levou-o a acreditar que estava a ser tratado injustamente, impedindo-o de atingir o que considerava ser o seu pleno potencial".
Na mesma linha, o FBI sustenta que o atirador "sofria de um sentimento de fracasso, apresentava tendências suicidas de longa data e acreditava que a sua situação atual não correspondia ao lugar onde sentia que deveria estar nesta fase da sua vida". À medida que "os seus fracassos superavam os sucessos, a sua paranoia aumentava, agravando a sua incapacidade contínua de prosperar, o que o levou a um estado de mal-estar mental e a uma determinação em morrer". Ainda assim, o FBI assinala que os fatores de stress ligados à saúde mental, por si só, não explicam integralmente os ataques.
Importa, por fim, sublinhar que apenas Cláudio Neves Valente "conhecia a verdadeira razão pela qual cometeu estes atos hediondos". Apesar disso, nesta fase, o FBI afirma estar confiante de que esta avaliação "é precisa". E, com base na prova já apreendida e analisada, os investigadores continuam a considerar que não há ameaças à segurança pública associadas aos tiroteios.
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