Pedro Sánchez, secretário-geral do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), presidente da Internacional Socialista (IS) e chefe do Governo de Espanha, juntou um leque alargado de figuras europeias, africanas e americanas para aquilo a que deu o nome de mobilização progressista.
Nessa cimeira havia várias dimensões que não podiam ser ignoradas - e diferentes ângulos de leitura que os socialistas, sociais-democratas e trabalhistas europeus deveriam ter pesado no instante em que aceitaram o convite.
1. A mutação gradual da natureza da IS
A IS nasceu com um propósito político nítido: marcar distância do comunismo e da sua projecção global a partir da Revolução Russa de 1917, origem do Comintern, e, em paralelo, afirmar-se também contra a Quarta Internacional trotskista.
Ao longo do seu percurso, posicionou-se muito mais próxima da democracia norte-americana do que do campo soviético, combateu movimentos estalinistas e maoistas em várias geografias e recusou, de forma consistente, a prática terrorista de grupos revolucionários marxistas europeus e latino-americanos.
Nas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial, a orientação foi inequívoca: a IS manteve-se como defensora permanente da democracia burguesa, escolheu a coexistência saudável entre sectores privado e público e nunca cedeu às lógicas de luta de classes que procuravam cristalizar o proletariado como instrumento de sobrevivência da revolução ou do aparelho burocrático de partidos comunistas subordinados a Moscovo.
Mais tarde, o esforço de acolher na IS partidos que ficaram órfãos após a implosão do bloco soviético produziu um processo gradual de desvirtuação, empurrando-a para perto de uma entidade sem matriz reconhecível.
Hoje, a IS apresenta-se como uma massa gelatinosa: tão moldável ao contexto quanto o seu presidente e tão oportunista quanto os interesses latino-americanos que contribuem para o seu financiamento. O que faria sentido seria uma IS renovada, centrada nos problemas concretos dos povos, com uma matriz que volte a assumir a liberdade, a democracia e a justiça social como fundamentos, e que eleja bons sistemas de saúde, de educação e de apoio social como projecto, ampliando-o à defesa do planeta enquanto desafio civilizacional.
2. A transfiguração dos princípios da IS
Já ficou descrita a sua natureza fundadora e o perímetro da sua actuação ao longo das últimas sete décadas. Ainda assim, houve dois períodos que introduziram alterações profundas na forma como a IS passou a projectar a sua visão do mundo. O primeiro foi o da metamorfose dos partidos únicos resultantes do processo de descolonização asiático e africano, que em grande parte aderiram; o segundo foi o da aproximação a partidos marxistas caudilhistas sul-americanos que, por via do Foro de São Paulo, começaram a cruzar interesses e a alinhar agendas com a IS.
Dessa dinâmica triangular nasce o primeiro impulso “progressista”: uma abertura que, na prática, conduziu à aceitação tácita de regimes profundamente antidemocráticos, como foram os de Chavez e Maduro na Venezuela, dos irmãos Castro em Cuba, do peronismo kirchnerista na Argentina, das proto-ditaduras de Ortega na Nicarágua, de Zelaya nas Honduras e de Morales na Bolívia. Mais recentemente, juntaram-se a esse bloco os governos de Boric, no Chile, que foi uma desgraça e permitiu a ascensão de um neonazi ao poder; de Petro, na Colômbia, que, além de ser maluco, mantém a marcha “terrorista” que o fez político; e de Obrador e Sheinbaum, no México, que se assumiram como frente chinesa no continente e permitiram a criação de um narcoestado.
A etiqueta “progressista” acaba depois por se estender à Europa, ancorada em duas narrativas falsas: 1ª - a terceira via teria sido um desvio neoliberal; 2ª - o desenvolvimento tecnológico produziria novas e vastas levas de oprimidos.
Ainda assim, foram sobretudo as experiências de governo de soma de esquerdas em Portugal e em Espanha, acompanhadas por uma estratégia profundamente errada do PSF na convergência de bandeiras com a França Insubmissa, que mais contribuíram para a degradação simbólica da social-democracia e para a afirmação dessa visão pseudo-progressista.
3. Os apertos de Sánchez, o apadrinhamento de Lula e os figurantes
O encontro de Barcelona trouxe partidos relevantes, como o ANC da África do Sul e o INC da India, por exemplo, que nunca aceitaram as agendas identitárias ocidentais que têm causado danos imensos aos partidos sociais-democratas e socialistas. Também se sentaram à mesa figuras de destaque de esquerdas menos democráticas de outras paragens. Mas o objectivo central não passava por aí: não tinha a ver com um caminho nem com a elaboração de uma nova cartilha de desenvolvimento - ambição histórica do centro-esquerda. Pode dizer-se que a reunião, folclórica, repleta de pioneiros aparelhistas supostamente organizados através de um novo Komsomol, se assemelhou ao evento realizado em Moscovo em 1985 que aprovou a Perestroika: muito folguedo com um ar lunático a antecipar um funeral.
Lula compareceu como ícone: um líder pagão de homilias religiosas, antigo operário que, nos seus três governos, impulsionou políticas relevantes de combate à pobreza, mas que se esqueceu de acrescentar dignidade e futuro a essa massa humana. Um político que autorizou, a partir do seu partido original, o PT, a maior rede de corrupção de toda a América Latina e que quase converteu a democracia brasileira numa plutocracia vermelha, desembocando na eleição de um ser inenarrável, portador de um nano-cérebro, chamado Bolsonaro. Luís Inácio, por ser o ídolo que a geração europeia de 1960 sempre gostou de exibir como exemplo - mesmo que tenha dificuldade em o sentar à mesa das suas refeições -, fica sempre bem em encontros deste tipo, onde a profundidade de análise e de proposta dá lugar ao populismo mais elementar. Para ele, não interessa defender a Ucrânia contra a Rússia, nem pesa o risco de fazer negócios draconianos e partilhar opções estratégicas com a China. O que conta é atacar o grande papão: os Estados Unidos, o único dos três blocos que é - e continuará a ser, mesmo depois do louco patinado - uma democracia.
Sánchez é um farejador, sabe navegar em mares revoltos. Mas é também um dos grandes trampolineiros da política mundial. Sem uma estrutura ideológica robusta e com uma ambição de poder que encaixa num diagnóstico de “tríade sombria”, mataria a mãe para poder ficar eternamente na Moncloa.
Chega ao governo com uma moção de censura “construtiva”, apoiada em acusações graves de corrupção ao Partido Popular e a dirigentes de primeira linha. O PSOE surgiria como o partido limpo.
Governa dois anos, limpa a máquina do Estado e aumenta salários e pensões. Depois vence nas urnas, mas não consegue formar governo. Convoca novas eleições, afirmando que nunca governará com o Podemos, uma organização financiada pelo Irão e militante do terrorismo de esquerda. Sem voltar a alcançar uma maioria, o que faz? Governa com o Podemos. Quatro anos depois, novas eleições. Não ganha, mas fecha acordos com separatistas comunistas e com terroristas - um despudor.
Nestes últimos três anos, o sistema político espanhol deixou de funcionar, a ingerência na organização da Justiça é diária e o Estado não tem Orçamento aprovado desde 2022. Não se trata de uma leitura franquista: é, de facto, a posição da União Europeia.
Mas Pedro tem sorte. Por causa da instabilidade na América do Sul, que desloca dinheiro e investimento para o seu país; por via da realidade autonómica com fortes poderes de fomento, financiado pelos fundos pós-Covid; e com uma dívida que já supera o 100% do PIB, a Espanha cresce, há mais “cacau” para distribuir e, como não há Orçamento, ninguém sabe muito bem para onde vai esse dinheiro público.
Perante este quadro, o partido de mãos limpas que o colocou no poder passa a ser alvo dos maiores escândalos desde o tempo do franquismo. A sua mulher é acusada de usurpação, de tráfico de influências e de apropriação indevida; o seu irmão é acusado de tráfico de influências, de mau uso de dinheiros públicos e de recebimento indevido; e os seus três companheiros de viagem - durante as suas candidaturas à liderança do PSOE e, mais tarde, secretários de organização do partido - foram presos e acusados de associação criminosa, corrupção, tráfico de influências, apropriação indevida e desvio de dinheiros públicos.
E, como se não bastasse, o seu padrinho político Zapatero - antigo líder do PSOE e antigo presidente do Governo - é um dos principais defensores de Maduro, circula entre Caracas e Madrid e actua como intermediário de negócios e de socorro financeiro a empresas no período da Covid-19. Zapatero foi o principal agente na salvação das companhias aéreas Air Europa e Plus Ultra, arranjou uma empresa de fachada que recebeu luvas pela intervenção do Estado e as suas filhas passaram a ter como único cliente a última firma referida. A corrupção é inaceitável em qualquer circunstância, mas deveria ser uma vergonha enorme que qualquer militante de esquerda teria de repudiar.
Enquanto no Podemos e no Sumar se expõem os ninhos de ratos e se anuncia um desastre eleitoral para ambos, no PSOE assiste-se à ostracização de quadros valiosos, o partido perde todas as eleições autonómicas, Filipe Gonzalez entra em choque aberto e o único socialista com maiorias absolutas - García-Page, presidente do governo de Castela - La Macha - é perseguido. Só conta o “ditador” Sánchez.
Chega a invasão da Ucrânia e o apoio do governo espanhol é insuficiente; a economia espanhola tem portas avassaladoramente escancaradas à China; e o psicopata Trump, com o seu imediato Netanyahu, oferecem trunfos ao demagogo Sánchez. Primeiro, o apoio às flotilhas; depois, o afastamento das posições conjuntas da União Europeia; por fim, a liderança de uma oposição, sem tino político, ao actual inquilino da Casa Branca.
O chefe do governo espanhol, inteligente como é, mas sem limites como sempre foi, alinha com o regime de Maduro, apoia o regime de Fidel Castro e dá alento ao regime iraniano. Na verdade, Trump e Sánchez assentam bem um no outro: dois rapazes que usam o poder pelo poder, que só reconhecem o interesse pessoal perante a obrigação de dar sentido à moderação e à diplomacia.
Para Sánchez, o trumpismo é o novo fascismo que importa abjurar, mesmo que os Estados Unidos continuem a ser uma democracia e até permitam que governadores, senadores e presidentes de câmara se alinhem na internacional “progressista” do líder espanhol e da radical descabelada Ocasio-Cortez. O problema é que a IS, soma de socialistas democráticos, sociais-democratas e trabalhistas, não nasceu para ser o albergue que apareceu em Barcelona.
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