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Da Louisiana à Gronelândia: 1803, 15 milhões de dólares e Donald Trump volta a falar em comprar território

Mapa antigo da América do Norte numa mesa com caderno, penas, moedas e tablet com imagem de Donald Trump.

Bom dia!

A Compra da Louisiana (1803) e o precedente

A 30 de abril de 1803, os Estados Unidos fecharam com a França a compra da Louisiana por 15 milhões de dólares - uma transacção que duplicou a dimensão do país e redesenhou, de forma definitiva, o mapa da América do Norte. “Napoleão precisava de dinheiro para pagar o seu casamento e a sagração de Josefina como imperatriz” e Thomas Jefferson, antigo embaixador norte-americano em Paris, conseguiu negociar um valor apelativo por um território colossal. Esse acordo tornou-se decisivo para a expansão dos EUA por lhes garantir o domínio do rio Mississípi, lembra Carlos Gaspar, investigador no Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI-NOVA).

Mais de dois séculos volvidos, vale a pena revisitar esta compra - hoje equivalente a €340 milhões -, como relata a Newsweek. E não veio sozinha: seguiram-se outras aquisições, com formatos distintos, feitas a Espanha, ao México, à Rússia e até à Dinamarca. Entre os territórios envolvidos estão a Flórida, Califórnia, Texas, Arizona, Novo México, Alasca ou as Ilhas Virgens. Estas operações voltaram a surgir na imprensa internacional como enquadramento para a ideia de “comprar território”, recolocada no centro do debate político pela ofensiva de Donald Trump sobre a Gronelândia.

Gronelândia: números, estimativas e a reabertura do debate

Se “comprar e vender países é algo que só parecia poder acontecer em jogos de tabuleiro”, como escreveu John Foley no Financial Times, a discussão reacendeu quando, em janeiro, o presidente norte-americano afirmou que os EUA passariam a controlar a Gronelândia “de forma branda ou dura”. A Casa Branca chegou a admitir estar a “avaliar ativamente” uma possível aquisição do território - apontado como rico em recursos naturais e com elevado valor geoestratégico.

Nesse contexto, foi noticiado que o montante a pagar a cada habitante poderia variar entre 10 mil e 100 mil dólares (€8570 a €85.770), totalizando €5 mil milhões. Já estimativas de académicos e antigos responsáveis da Casa Branca, citadas pela NBC, apontam para uma fasquia muito superior: um investimento na ordem dos 700 mil milhões de dólares (€597 mil milhões).

O que dizem os especialistas sobre as aquisições territoriais dos EUA

Mas terá a expansão por via de aquisições influenciado a identidade dos Estados Unidos - e, em particular, a estratégia de um presidente que parece encarar territórios como activos transaccionáveis? “Há muito arcaísmo na administração Trump”, responde Carlos Gaspar. Na sua leitura, a Casa Branca parece querer recuar na política externa norte-americana e ignorar os compromissos firmados no pós-guerra.

Bruno Cardoso Reis, professor de História e de Relações Internacionais no ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, sublinha que “Nenhum outro país terá crescido tanto por via da aquisição de territórios como os Estados Unidos. No entanto, esta prática relativamente normal no passado, foi-se tornando cada vez mais rara ao longo do século XX”. Como referência histórica de um precedente remoto deste tipo, aponta a cedência das ilhas Hébridas e de Man pela Noruega à Escócia no Tratado de Perth, em 1266, como a primeira referência de um precedente deste género.

No caso norte-americano, diz o professor, existe desde cedo “uma ideia um bocadinho ambígua de expansão”. Foram a primeira colónia a conquistar a independência de uma metrópole imperial através de uma guerra; avançaram territorialmente, sobretudo à custa dos nativos americanos; e encontraram na compra uma forma de evitar conflitos armados, mas também de legitimar conquistas territoriais. Ao pagar, passava-se a mensagem de que quem cedia aceitava fazê-lo - e ainda era compensado por isso.

Também aqui, acrescenta, entra a forma como Donald Trump olha para o mundo: “Donald Trump, que vem da área do imobiliário, verá a compra de terrenos como bastante natural” e pode amparar-se na própria história do país. Lidera um Estado que cresceu e se consolidou com operações como a Louisiana - que abriu o acesso ao porto de Nova Orleães - ou o Alasca, comprado à Rússia em 1867, hoje o maior dos 50 estados norte-americanos.

Na opinião de Bruno Cardoso Reis, pesa ainda um elemento cultural e político: “Os norte-americanos gostam de fazer listas para tudo”. Vários inquéritos, de diferentes entidades, colocam figuras como Thomas Jefferson ou James Polk - associados a aumentos expressivos do território - muito perto do topo da classificação dos melhores presidentes. E isso, sugere, poderá estar a marcar Donald Trump, com aspirações a ser apontado como o maior presidente da história da América.

Entre ameaças militares e pressões comerciais, Bruno Cardoso Reis considera que “podemos ver sinais de uma nova forma de colonialismo em pleno século XXI. A lógica de expansão é a mesma”. Os Estados podem ser iguais no plano dos direitos legais, mas as grandes potências, por vezes, exercem o seu poder de forma abusiva. Mesmo havendo resistência a esta lógica no direito internacional, recorda que em 2022 ocorreu a invasão da Ucrânia, com a Rússia - uma grande potência - a conquistar território e a reivindicá-lo como seu. Para o professor, há indícios de um regresso dos impérios e da própria ideia de direito de conquista.

E, sem necessidade de invocar a compra histórica pelos EUA, a Louisiana voltou às notícias há menos de 24 horas: o Supremo Tribunal norte-americano anulou um mapa eleitoral do estado que criava um segundo círculo eleitoral de maioria negra, argumentando que foram usados ilegalmente critérios raciais para desenhar um novo distrito com maioria de minorias. Para o The Washington Post, a decisão favorece o Partido Republicano e a Administração Trump.


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