Nenhuma atividade económica, nenhum bem de consumo, nenhuma operação financeira existe sem deixar marcas negativas na sociedade ou no ambiente. Nenhuma.
Computadores e telemóveis: materiais, extração e cadeias globais
Ao chegar até aqui, o leitor está inevitavelmente a recorrer a um computador ou a um telemóvel. E esse dispositivo incorpora alumínio, antimónio, arsénico, bário, berílio, bismuto, boro, cálcio, cério, chumbo, cobalto, cobre, crómio, disprósio, estanho, estrôncio, európio, ferro, flúor, fósforo, gadolínio, gálio, germânio, grafite, índio, ítrio, lantânio, lítio, magnésio, manganês, molibdénio, neodímio, nióbio, níquel, ouro, paládio, platina, potássio, prata, praseodímio, selénio, silício, sódio, tântalo, telúrio, térbio, titânio, tungsténio, zinco e zircónio. Todos estes materiais chegam até nós através de cadeias mineiras e industriais que atravessam países como Myanmar, Tajiquistão, China, Rússia, República Democrática do Congo, Gabão, Nigéria, Bielorrússia ou Zimbabué.
Seria fácil, neste ponto, encadear referências a relatórios de ONGs que descrevem abusos e violações de direitos humanos ligados à exploração mineira nesses contextos. Bastava apontar ao Google ou a um modelo de linguagem de grande escala (LLM). Em vez disso, prefiro sublinhar o livro Vermelho Cobalto, de Siddharth Kara - finalista do prémio Pulitzer - sobre as condições desumanas em que o cobalto é extraído na República Democrática do Congo. E, se o comprar na Amazon, aproveite para ler também A Guerra de Tudo: a busca implacável da Amazon para dominar o mundo e refazer o poder empresarial, de Dana Mattioli, jornalista veterana do Wall Street Journal e igualmente finalista do Pulitzer pelo seu trabalho sobre a Amazon.
Direitos humanos no fabrico: pressão contratual e riscos para a saúde
Quer que continue? Na fase de montagem de computadores e telemóveis, as violações de direitos humanos surgem, muitas vezes, da pressão contratual que as marcas exercem sobre os fornecedores: preços-alvo, calendários de lançamento e multas por atrasos. Essa compressão acaba traduzida em vínculos laborais frágeis, horas extra quase impostas, metas horárias desgastantes, controlo punitivo da produtividade e uma liberdade sindical limitada - com impacto no direito ao trabalho digno, ao descanso e à associação coletiva.
A isto soma-se a dimensão da saúde e segurança. Quando a exposição a soldaduras, solventes, resinas, retardadores de chama, poeiras metálicas e aos perigos das baterias de iões de lítio não é acompanhada - como tantas vezes acontece - por ventilação adequada, equipamentos de proteção e vigilância médica eficaz, fica também ferido o direito à saúde e à segurança no trabalho.
E exemplos não faltam. Nas fábricas da Foxconn e da Pegatron, auditorias e investigações têm apontado infrações a normas laborais e à própria lei chinesa. A Samsung viu tribunais sul-coreanos reconhecerem doenças profissionais associadas ao fabrico de semicondutores. A Apple, por seu lado, tem sido alvo de críticas pela distância entre os compromissos públicos de responsabilidade social e a precariedade laboral existente na cadeia de fornecedores. As denúncias não são raras. Recomendo, por isso, o artigo do Financial Times, “Dentro da mega fábrica chinesa do iPhone: longas jornadas, discriminação e salários em atraso”, disponível aqui.
Danos ambientais e lixo eletrónico na cadeia digital
Há ainda o lado ambiental. A cadeia de um computador consome água, energia e reagentes químicos; produz rejeitados; emite poluentes; e, no final, transforma-se em lixo eletrónico.
No fim de vida, placas, baterias, cabos e ecrãs podem entrar em circuitos informais de reciclagem, onde recuperar cobre, ouro ou alumínio implica queimar cabos, recorrer a banhos ácidos e desmontar manualmente sem proteção. O resultado é a contaminação do ar, do solo e da água por metais pesados e compostos tóxicos. A autora do livro Lixo Tecnológico: dispositivos digitais, tóxicos escondidos e saúde humana conduziu uma investigação notável sobre este problema.
Se quiser mapear impactos positivos e negativos de todas as empresas cotadas, recomendo esta plataforma finlandesa. Pode começar pela Apple (aqui).
Transição verde: substituir fósseis por metais não resolve o dilema
Entre a vontade de endireitar o mundo e os instrumentos reais para o fazer, estendem-se cadeias globais de extração, transporte, fabrico e consumo que comprometem a pureza de qualquer gesto sustentável. Ou, dito de forma mais direta: passar de uma economia fóssil para uma economia verde não elimina a dependência de recursos finitos; limita-se a trocar petróleo, gás e carvão por cobre, lítio, níquel, cobalto, grafite, terras raras e outros metais essenciais à descarbonização.
E é precisamente aqui - presos em incoerências e contradições, exasperados com as inevitáveis compensações e com a impossibilidade de uma coerência absoluta, sabendo que cada solução traz dentro de si uma parcela de perda - que a sustentabilidade deixa de ser uma técnica de otimização e passa a ser uma prática de mitigação de custos sociais e ambientais. Quando ser sustentável se torna, em si mesmo, insustentável, então sustentabilidade é escolher aquilo que é menos insustentável. No fim, tudo se joga numa contabilidade honesta dos danos.
Taxonomia Europeia e a tentação de esconder o insustentável
A UE avançou, na verdade, no sentido oposto. Em 2020, instituiu a Taxonomia Europeia para classificar atividades económicas ambientalmente sustentáveis. Porém, o que se formou foi um labirinto técnico de critérios, atos delegados, salvaguardas, indicadores financeiros e obrigações de reporte. Hoje, equipas de sustentabilidade, finanças, auditoria e conformidade precisam de formação especializada para decifrarem esta espécie de máquina Enigma regulatória. Criada para travar o ecobranqueamento, a taxonomia acabou também por dar às empresas uma linguagem técnica com capacidade para esconder, relativizar ou diluir aquilo que continua a ser insustentável.
Não precisamos de atividades económicas, produtos ou transações financeiras “verdes”, “sustentáveis”, “eco”, “bio”, “orgânicas”, “naturais”, “amigas do ambiente”, “carbono neutro”, “sem plástico”, “recicláveis”, “reutilizáveis”, “conscientes”, “responsáveis”, “éticos”, “limpos”, “circulares”, “de impacto positivo” ou “alinhados com a transição” como se estes rótulos fossem bulas papais. O que precisamos é de saber, com rigor, que danos reduzem, que danos geram, onde acontecem, sobre quem recaem e quando se tornam visíveis. A linguagem da sustentabilidade ficou demasiado adjectival e pouco contabilística.
Se hoje quase tudo já tem uma versão “verde”, importa reconhecer que os fabricantes de computadores e telemóveis parecem aceitar - mesmo que por silêncio - que os seus produtos não conseguem ser verdadeiramente sustentáveis e éticos, nem sequer ao nível da retórica. Pelo menos isso.
Se tiver dúvidas, comentários ou críticas sobre a coluna quinzenal, envie-me um email para [email protected]
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