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Whitaker elogia Portugal na NATO, apela ao F-35 e critica Espanha e Reino Unido

Dois homens em fatos conversam junto a uma mesa com miniatura de avião militar, globo e bandeiras dos EUA, Portugal e NATO.

Portugal encaixa, na leitura de Washington, no perfil de aliado que entende a relação transatlântica como uma “rua com dois sentidos”. Já a Espanha - e, no enquadramento apresentado por Matthew Whitaker, também outros parceiros europeus como o Reino Unido - não cabem nesse retrato. Numa conferência realizada esta quarta-feira na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), o embaixador dos Estados Unidos junto da NATO, nomeado por Donald Trump, apontou o dedo à falta de apoio espanhol e britânico às operações norte-americanas no Irão e, em contraste, elogiou o aumento do investimento português em Defesa, deixando ainda um apelo adicional: a compra de caças F-35 da Lockheed Martin para substituir os actuais F-16 da Força Aérea.

John Arrigo, embaixador dos EUA em Lisboa, foi mais longe na mesma sessão, sublinhando de forma expressa o papel português na Base das Lajes, nos Açores, como elemento de apoio aos Estados Unidos.

Matthew Whitaker em Lisboa: críticas a Espanha e ao Reino Unido

“Vocês têm um grande vizinho com quem partiham a vossa península, que tem sido um desafio para os Estados Unidos, uma vez que não nos concedeu acesso a bases nem permissão de sobrevoo como esperávamos”, afirmou Whitaker, num discurso que coincidiu, em paralelo, com outro encontro de alto nível sobre a relação transatlântica: o Foro La Toja, iniciativa luso-espanhola que reuniu, entre outros, a ministra da Defesa de Espanha (PSOE, centro-esquerda) e o ex-presidente do Governo Mariano Rajoy (PP, centro-direita).

Nesse outro fórum, vários intervenientes foram críticos dos EUA - incluindo o Presidente da República, António José Seguro -, defendendo que a relação com Washington deve assentar em reciprocidade.

Reavaliação do valor da NATO e a “rua com dois sentidos”

A visita do embaixador norte-americano à NATO aconteceu num quadro de tensão e de revisão do relacionamento entre as duas margens do Atlântico, perceptível em Bruxelas, em Otava e nas capitais europeias. Grande parte desta viragem, referiu-se, tem origem em Washington - na Casa Branca, no Pentágono e no Departamento de Estado -, alimentada pela retórica da administração Trump sobre a Gronelândia e por ameaças, feitas pelo próprio Presidente norte-americano, de afastamento da NATO. “sempre soube que eram um tigre de papel e Putin também sabe isso”, disse há semanas.

Whitaker sustentou que não se trata apenas de mudança de tom e assumiu, na conferência onde também participou Paulo Vizeu Pinheiro, embaixador de Portugal na NATO: “O que se vê nos Estados Unidos da América é um cálculo, uma reavaliação do valor da aliança da NATO”.

Ao explicar a posição norte-americana, o diplomata recordou o histórico recente da Aliança: “Se nos últimos 77 anos garantimos a segurança da área de responsabilidade do Atlântico Norte, e em troca pensávamos ter recebido a possibilidade de usar as bases” na Europa, “pensávamos ter a capacidade de projetar poder e de defender a aliança e de defender e promover os nossos interesses”. Ainda assim, adoptou um registo menos duro do que outras vozes da própria administração.

E deu um exemplo concreto de fricção: “Quando não pudemos utilizar essas bases no início da Operação ‘Epic Fury’, quando países como a Espanha, o Reino Unido e outros demoraram a responder aos pedidos ou simplesmente recusaram os nossos pedidos, isso obviamente altera o cálculo”, afirmou Whitaker, numa sessão conduzida com José Manuel Durão Barroso, presidente da FLAD, como anfitrião.

Recorrendo a declarações do secretário de Estado Marco Rubio e a exemplos como a Grécia e o Japão, Whitaker insistiu na metáfora: com alguns países, a ligação é como uma “rua de dois sentidos”; com outros, a rua “tem apenas um sentido”. Para o embaixador, a Espanha encaixará nesta última categoria: “Querem segurança, querem os Estados Unidos, mas quando chegamos para receber a nossa parte do acordo, não a recebemos. Então, será que acredito que o atlantismo está morto? Não. Será que acho que vamos ter de trabalhar juntos para garantir que isto resulte? Sim”.

A par disto, colocou parte do foco na exigência de um reforço europeu do esforço em Defesa, de modo a diminuir a dependência dos EUA.

“Vejo países como Portugal a avançar, a aumentar as despesas, a reforçar as capacidades”, disse Whitaker, contrastando com as críticas dirigidas ao Governo espanhol - o único que não aceitou a exigência da NATO de chegar aos 5% do PIB em despesas de Defesa e em infra-estruturas ligadas à segurança. Para os EUA, frisou, o essencial é contar com “aliados fortes”, capazes de “aliar-se aos Estados Unidos, contribuir com capacidades reais, projeção real de poder, e dissuasão real”.

O apelo à compra de F-35 e o elogio pelo uso das Lajes: Portugal deve estar fora dos castigos

Embora tenha incentivado a Europa a apostar também nas suas indústrias de Defesa, Whitaker deixou um pedido inequívoco a Lisboa: a aquisição dos caças de combate F-35, da Lockheed Martin, para substituir os F-16 (também da mesma fabricante). O negócio, foi referido, poderá chegar a €5 mil milhões num horizonte de 10 anos.

Ser um aliado robusto, argumentou, “inclui investir em projetos como o F-35, por exemplo, e sei que Portugal tomará, espero, em breve, a decisão de optar por essa plataforma”, afirmou Whitaker, perante a presença na sala do secretário de Estado Adjunto da Defesa, Nuno Pinheiro Torres. E reforçou: “É, de longe, a melhor plataforma possível e o melhor investimento que se pode fazer em defesa e dissuasão, não só para o próprio país, mas para a aliança”.

Sem entrar, de forma directa, no tema das autorizações portuguesas para a passagem de meios militares norte-americanos pela Base das Lajes no âmbito da Operação ‘Epic Fury’ contra o Irão, Whitaker foi precedido por um elogio explícito de John Arrigo na abertura da conferência. “Como diz o secretário Rubio, a força da NATO provém do que cada país contribui. E Portugal tem intensificado o seu empenho em todos os aspetos”, afirmou Arrigo, antes de sublinhar: “Portugal dá-nos um apoio fundamental na Base Aérea dos Açores, o que garante a segurança da NATO todos os dias. E o Governo atingiu os 2% de despesas com a Defesa este ano, com um plano claro para atingir os 5% até 2035”.

Este tom favorável tem peso diplomático e político, tendo em conta que Donald Trump e a sua administração ameaçaram penalizar os aliados que não apoiaram os Estados Unidos no esforço de guerra contra o Irão. À luz destas declarações, e por virem de dois diplomatas próximos de Trump, Portugal aparenta ficar fora de eventuais castigos.

O Expresso questionou o Departamento de Estado sobre se Portugal estaria no conjunto de países passíveis de punição, apesar da colaboração nas Lajes. A estrutura liderada por Marco Rubio encaminhou as perguntas para a Casa Branca, que não respondeu.

EUA garantem guarda-chuva nuclear, mas avisam Europa para não ter ideias

Uma das interrogações que se tem imposto nas capitais europeias prende-se com a solidez do compromisso nuclear norte-americano na protecção do continente. Esse debate levou mesmo a propostas do Presidente francês, Emmanuel Macron, para deslocar ogivas nucleares francesas para a Alemanha ou para a Polónia.

Sendo que, na Europa, apenas dois países têm armas nucleares - o Reino Unido, que não integra a União Europeia, e a França, que não pertence à estrutura nuclear da NATO -, Whitaker defendeu que, sem os EUA, os europeus não têm credibilidade para uma dissuasão eficaz. “Esta autonomia estratégica” que a Europa possa querer na dissuasão nuclear é “ilusória”, sustentou. “Em primeiro lugar, nunca vamos chegar lá. E os Estados Unidos vão sempre fornecer o guarda-chuva nuclear à Europa”, prometeu.

Acrescentou ainda que o arsenal nuclear “pode ser complementado pela França e pela Inglaterra, mas nunca substituirá o que os Estados Unidos podem fazer”. E deixou um aviso directo: “Não acho que seja uma conversa útil para os europeus sonharem com o dia em que essa autonomia” nuclear “se concretize”.

No final, Nuno Pinheiro Torres interveio para sublinhar que “as perceções e expectativas importam” e que podem ser “disruptivas se forem cumpridas”. Na sua leitura, “a NATO não está em risco de implosão”, nem em risco de “morte cerebral” - expressão usada por Macron há alguns anos. “Pelo menos por agora”, ressalvou.

De acordo com o governante da equipa de Nuno Melo, se os aliados europeus “cumprirem a partilha do esforço para implementar uma dissuasão e defesa na área euroatlântica, então a NATO ultrapassará as tensões auto-destrutivas do presente, e tornar-se mais forte do que antes”, afirmou, num registo descrito como “otimista”.

Antes, Durão Barroso já tinha sublinhado “o interesse permanente e estratégico da relação” transatlântica, dizendo-se “confiante” de que “os valores que inspiraram o nosso compromisso partilhado com a liberdade permanecem válidos e que a NATO continuará a ser uma forte componente desta relação”. Garantindo que falava estritamente a título pessoal - por não exercer funções governativas, nem a nível europeu nem nacional -, acrescentou que a sua “esperança e confiança não diminuem em momentos de algum desacordo”, defendendo que é “precisamente em momentos destes que a aliança e a nossa história partilhada mais importam” e que são “o verdadeiro teste às alianças fortes”. Se isto é apenas auto-ilusão, é algo que se perceberá nos próximos tempos.

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