A Lone Star e o Estado vão receber perto de €6,7 mil milhões - e não os €6,4 mil milhões divulgados em junho - com a venda do Novo Banco ao grupo francês Banque Populaire et Caisse d'Epargne (BPCE). De acordo com informação recolhida pelo Expresso, ao valor inicialmente acordado serão somados os lucros gerados nos primeiros quatro meses deste ano, que poderão aproximar-se de €300 milhões.
O entendimento alcançado para a compra do Novo Banco pelo BPCE apontava para 31 de dezembro de 2025 como data de referência, com o preço anunciado assente nos resultados do ano anterior. No entanto, não só os lucros de 2025 ficaram acima do esperado, como também entrarão na conta final os ganhos apurados entre janeiro e abril de 2026. Na prática, por o fecho do negócio ter acontecido apenas agora, o BPCE acabará por pagar cerca de mais €300 milhões.
Fecho do negócio do Novo Banco com o BPCE
A passagem do Novo Banco para controlo francês sofreu atrasos e só se concretizou esta semana, a 30 de abril, depois da assembleia-geral de acionistas realizada no dia 29. Nessa reunião estiveram representados a Lone Star, então detentora de 75% do Novo Banco, e o Estado e o Fundo de Resolução, que somavam os restantes 25%.
Resultados e alterações de governação no Novo Banco
Com a nova estrutura acionista, haverá alterações nos órgãos sociais. Será nomeado pelos acionistas um diretor financeiro (CFO), na sequência da saída de Benjamin Dickgiesser, mantendo-se, porém, os restantes elementos da comissão executiva liderada por Mark Bourke. Também passarão a integrar o Conselho Geral e de Supervisão três novos membros, em substituição dos indicados pela Lone Star. O auditor do banco mudará igualmente.
Em termos operacionais, o Novo Banco excedeu as expectativas nos resultados de 2025, que totalizaram €828,1 milhões - um resultado “histórico”, como referiu o presidente-executivo, Mark Bourke, que continua à frente do Novo Banco agora 100% francês.
Distribuição do encaixe: Lone Star, Estado e Fundo de Resolução
Com a venda ao BPCE, a Lone Star deverá arrecadar mais do que os €4,8 mil milhões antecipados (podendo atingir €5 mil milhões). Já o montante destinado ao Estado (11,46%) e ao Fundo de Resolução (13,45%) deverá ultrapassar os mais de €1,6 mil milhões estimados e aproximar-se de €1,7 mil milhões.
Onze anos e quatro meses após a intervenção e resolução do Banco Espírito Santo (BES), foram colocados no Novo Banco, seu sucessor, €8,3 mil milhões pelo Estado - verba que está a ser suportada pelos bancos com sede em Portugal.
O BPCE vai pagar mais cerca de €300 milhões pelo facto de o negócio só ter sido fechado agora
O dinheiro injetado pelo Estado no Fundo de Resolução - mecanismo criado em 2012 para responder a situações de risco sistémico na banca em Portugal - será reembolsado pelos bancos até 2046, em resultado da medida de resolução. Recorde-se que, em 2024, o Banco de Portugal (BdP) estimava que a falência do BES teria um custo muito superior para o Estado - €46 mil milhões, segundo um relatório da Comissão Europeia, de outubro de 2014 - quando comparada com a opção da resolução.
Luís Máximo dos Santos, vice-governador do BdP e presidente do Fundo de Resolução, considera que o Estado “irá recuperar todo o dinheiro que emprestou ao Fundo de Resolução”, sublinhando, contudo, que o prazo para essa recuperação “será longo” (ver caixa).
“Muito difícil de gerir” até 2017
Sérgio Monteiro, que desempenhou funções de assessor do BdP no processo de venda do Novo Banco entre novembro de 2015 e março de 2017, e que acabou por negociar com a Comissão Europeia as condições de venda à Lone Star, disse ao Expresso que o aspeto mais positivo foi “o Novo Banco ter mantido substancialmente intacto o seu papel no financiamento às famílias e às empresas”. Na sua leitura, isso permitiu a “preservação da estabilidade do sistema financeiro, sem a qual o país dificilmente teria saído do Memorando de Entendimento de forma limpa”.
O período mais complexo, acrescenta, surgiu quando foram tornados públicos os resultados dos testes de stresse, em novembro de 2015, “pouco tempo depois de cancelada a primeira tentativa de venda em mercado”. Nessa fase, existia “o risco de que a desconfiança do mercado pudesse prejudicar a atividade do banco e a sua sobrevivência (nomeadamente caso houvesse uma corrida aos depósitos)”. E remata: “Foi muito difícil de gerir porque a comunicação adequada era essencial, mas era feita num contexto complexo e muito desafiador”.
Sobre a possibilidade de o Estado não vir a recuperar integralmente o montante colocado no Novo Banco, Sérgio Monteiro limita-se a afirmar que “o resultado é o melhor dentro de todas as (más) alternativas face à situação gerada pela gestão de Ricardo Salgado e da sua equipa, hoje amplamente demonstradas”.
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