O número de profissionais que dizem ser “alvo de ameaças ou outra forma de abuso físico ou psicológico” no local de trabalho - incluindo situações de humilhação, insultos ou assédio sexual - tem vindo a crescer de forma expressiva há quatro anos. Num inquérito nacional com mais de 5500 trabalhadores de vários sectores, esse indicador subiu de 16,5% em 2022 para 38,3% no ano passado.
De acordo com o mais recente relatório do Laboratório Português dos Ambientes de Trabalho Saudáveis, a que o Expresso teve acesso, só entre 2024 e 2025 verificou-se um aumento de 10 pontos percentuais. Uma das explicações para esta escalada poderá ser a maior literacia para reconhecer o assédio e a crescente reprovação social de comportamentos que, antes, eram mais normalizados. “Era frequente os chefes gritarem e destratarem trabalhadores ou fazerem comentários em relação à aparência das mulheres e achava-se que isso fazia parte, enquanto que hoje as pessoas percebem que não é adequado e sabem reportar”, diz ao Expresso a coordenadora do estudo, Tânia Gaspar (ver entrevista).
Assédio laboral em alta: o que pode estar por trás dos números
Apesar de apontar a melhoria na identificação e denúncia como fatores relevantes, a psicóloga admite que também pode estar a ocorrer um aumento efetivo de casos. Os níveis muito elevados de burnout detetados no estudo poderão contribuir para ambientes de trabalho mais propensos a episódios de abuso. “Se a pessoa está exausta e muito irritável, é provável que tenha comportamentos mais desajustados”, explica, acrescentando que, na componente qualitativa, os exemplos mais frequentes referidos pelos profissionais passam por “chefias que humilham, criticam em público, desvalorizam o trabalho e afetam a autoestima”.
“A normalização do sofrimento psicológico no trabalho não pode continuar a ser tolerada”, frisa o estudo
Burnout no trabalho: sintomas acumulados e quem está mais vulnerável
Os dados do inquérito indicam que 40,8% dos trabalhadores acumulam quatro sintomas de burnout - exaustão física, exaustão emocional, irritabilidade e tristeza -, o que traduz um risco muito elevado para a saúde mental. As mulheres registam indicadores mais negativos, tal como os profissionais mais jovens. Em contraste, quem está mais próximo do final da carreira (com idade próxima ou superior a 60 anos) é o grupo que apresenta melhores níveis de bem-estar.
Chefes mais felizes
Quem ocupa funções de liderança tende a descrever o ambiente de trabalho de forma mais favorável e é também quem reporta maior bem-estar e felicidade. Segundo a investigadora, isso relaciona-se, entre outros aspetos, com o facto de “sentem-se mais reconhecidos do ponto de vista salarial e de desenvolvimento da carreira e isso pesa muito”. Do lado dos restantes trabalhadores, 77% dizem sentir-se injustiçados em matéria salarial, o que alimenta uma forte insatisfação.
Quando se olha para o tipo de organização, trabalhadores de médias e grandes empresas descrevem, em geral, contextos mais saudáveis do que aqueles que estão em micro e pequenas empresas. Em qualquer um destes cenários, o regime híbrido - combinando dias presenciais com dias de teletrabalho - é o que surge associado a melhores indicadores, não apenas no bem-estar, mas também na motivação e no desempenho.
Entre as razões apontadas estão benefícios financeiros e pessoais, uma vez que reduz o tempo e o custo das deslocações e permite libertar tempo para outras atividades. Soma-se ainda a autonomia que o modelo tende a proporcionar e o voto de confiança que os trabalhadores sentem por parte das organizações.
Mesmo com estas vantagens, apenas 20% dos profissionais estão hoje neste regime, e a tendência tem sido de recuo. “É algo que me deixa triste, porque a evidência é claríssima. Todos os estudos, sem exceção, mostram inequivocamente que é o melhor regime e, ainda assim, as empresas parece que estão a andar para trás. Muitas estão a reduzir os dias de teletrabalho ou voltaram mesmo ao regime presencial. Não faz sentido”, critica a coordenadora, defendendo que isso deverá agravar a insatisfação entre trabalhadores.
Ambiente degrada-se
A avaliação que os profissionais fazem da qualidade do ambiente de trabalho está a piorar. Depois de uma melhoria em vários indicadores em 2023, iniciou-se no ano seguinte uma trajetória de agravamento que continuou em 2025. Entre os motivos que podem contribuir para este cenário estão o retorno ao presencial e o menor investimento em programas de bem-estar e saúde mental - iniciativas que muitas organizações reforçaram após a pandemia, mas que nem sempre tiveram continuidade.
A isto junta-se ainda o contexto global de instabilidade associado às guerras e o agravamento das dificuldades económicas, impulsionado pela subida do custo de vida, que também se reflete no dia a dia laboral.
“Todos os estudos sem exceção mostram que o regime de trabalho híbrido é o melhor”, diz investigadora
“No geral, os trabalhadores acham que a empresa não se preocupa com o seu bem-estar, sentem que não são ouvidos nem tratados com justiça e reconhecimento. E sentem uma dificuldade cada vez maior em conciliar o emprego com a vida pessoal. Estão muito sobrecarregados e sob grande pressão”, sintetiza Tânia Gaspar.
Entre as principais recomendações do estudo está o reforço da qualidade das chefias, apostando em formação em comunicação, prevenção de conflitos e inteligência emocional. Em paralelo, propõe-se uma reorganização mais sustentável do trabalho, o que “inclui rever cargas de trabalho, ajustar prazos, reforçar recursos humanos, redistribuir tarefas de modo mais equilibrado e assegurar tempos de pausa”. O relatório será apresentado quinta-feira, num encontro em Vila Nova de Gaia que contará com representantes de várias ordens e associações profissionais.
O documento sublinha igualmente a necessidade de criar, nas empresas, “mecanismos claros de prevenção do burnout e do assédio laboral, com canais seguros de sinalização, resposta atempada, apoio psicológico e políticas explícitas de proteção”, reforçando que “a normalização do sofrimento psicológico no trabalho não pode continuar a ser tolerada”.
O estudo recomenda ainda a adoção de modelos mais flexíveis - em particular o regime híbrido ou, no caso de grupos específicos, o teletrabalho, como para profissionais com doença crónica. Ao mesmo tempo, defende um reforço da valorização profissional, com “maior transparência nos critérios de avaliação, progressão e remuneração” e práticas regulares de feedback. “A perceção de remuneração injusta, a falta de reconhecimento e a baixa participação nas decisões corroem o vínculo entre profissionais e organização”, alerta o relatório.
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