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Regresso ao passado para recuperar a banalidade perdida

Menina e avó sentadas à mesa na cozinha a beber chá e conversar, com dois homens ao fundo num jardim.

O regresso ao passado e a recusa do épico

Há pouco tempo, traduzi um livro em que existia a hipótese de voltar atrás no tempo. E, sem grande espanto, ninguém escolhia regressar ao instante de pôr as cruzes no boletim do totoloto; ninguém se lembrava de rever o golo do Éder; ninguém queria sentar-se num comboio com uma adaga ao lado de um Hitler ainda bebé, ainda Adolf. Não era o desejo de salvar o mundo, nem de reescrever a História. Ninguém procurava o épico.

A banalidade perdida que realmente nos chama

O que os chamava era outra coisa: a banalidade que se perdeu. Um homem sem pernas sonhava subir uma montanha. Uma mulher sem filho desejava voltar a vê-lo, mais uma vez, a montar um bonequinho. Um homem cuja namorada desaparecera só queria ouvi-la tocar piano de novo.

E, sem cinismo, que mais é a vida senão isto? O passado endurece porque fecha uma lembrança numa redoma; e, se é impossível viver sempre em alta rotação, a simples possibilidade de perder já traz uma espécie de redenção. Não existe uma vida em que nunca se perca a cabeça com os filhos, mas carregar, a cada instante, a prova da efemeridade talvez ajude a esmurrar menos paredes.

Um “último dia” como prova de amor

Há uns anos, disse a uma namorada: “De vez em quando, imagino que morreste, e que recebi um último dia, este último dia, de presente.” Ela não me mandou internar - também não tinha poder para isso -, mas para mim aquela frase era amor. Era um modo de forçar os dias a terem beleza; de não esmagar a convivência diária com as minudências inúteis do quotidiano. Seria assim tão insuportável que ela acordasse de péssimo humor e eu deixasse garrafas de água espalhadas pela casa? O que vale isso ao lado da perda, do fim, dos mil arrependimentos que depois nos caem em cima?

Vizela, a cozinha da minha avó e o tempo sem mortos

Voltando ao livro e a esse momento do passado: não surpreenderá ninguém se eu disser que não sou diferente daquelas personagens. Está fora de questão eu regressar ao dia em que o Vizela subiu à primeira divisão. Menos ainda ao dia do nascimento dos meus filhos (muito cansaço, muitas dores, muita patinagem, muito medo, muito sangue).

O que ficou cristalizado na minha cabeça foi a cozinha da minha avó, e aquela janela que abria os braços para Vizela. Eu chegava lá subindo para cima de uma mesa e ficava na soleira, com os joelhos encolhidos, os olhos a alternarem entre as casas, as árvores, o recorte das montanhas, o presente e o futuro. E, como ainda ninguém tinha morrido, não existia passado.

Voltaria precisamente aí: a uma infância em que estávamos todos vivos e a vida parecia estar inteira à nossa frente.

As pessoas na varanda, a mesa minúscula e o Cemitério de São João

E iria olhar - como quem fotografa, eu que a fotografei tantas vezes por saber que um dia a ia perder - para a minha avó, quieta na varanda, a fitar a rua, e depois a sorrir a quem passava; para o Paulo a chegar, camisa enfiada nas calças de ganga, suor na testa, felicíssimo porque o Benfica qualquer coisa; para o Óscar a compor o bigode, mais feliz ainda, para minha infelicidade, porque o Porto não sei o quê; para o meu avô a espalhar pela casa o cheiro dos cigarros; para o meu pai a jurar que mais uma doença não doía; para o Dimas a enfiar a ponta da orelha no lóbulo.

Mãe e pai e quatro filhos, ainda todos vivos, sem imaginarem que aquela casa com vista para as montanhas um dia - e muito perto - deixaria de ser nossa; e que, em breve, estariam todos nos mesmos metros de terra no Cemitério de São João, sem vista para nada; e que passariam a ser apenas memória, mortinha por poder ver mais um dia no passado.

Nesse regresso, juntar-nos-íamos àquela mesa minúscula, chamaríamos os meus primos e comeríamos bolo com sardinhas - que nem sequer é grande coisa, mas paciência.


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