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Identidade europeia e União Europeia: o que revela o EUDENTIFY

Grupo de jovens com auscultadores reunidos à mesa, a analisar um mapa e a beber café num espaço exterior.

Identidade europeia e pertença: valores, nações e fronteiras

O que é, afinal, “ser europeu”? E quem fica de fora dessa definição? A Europa pode ser entendida como uma comunidade unida por princípios - direitos humanos, solidariedade com quem tem menos e respeito pelo Estado de Direito - ou como um mosaico de países muito distintos que, antes de tudo, se reconhece numa matriz judaíco-cristã e em populações maioritariamente brancas.

Falar de identidade europeia é entrar num tema intricado, quase como se existisse uma maneira particular de ser europeu para cada pessoa. Além disso, sentir pertença à Europa não é o mesmo que apoiar as instituições que compõem a União Europeia.

EUDENTIFY e Eurobarómetro 2021: o que mostram os dados

Parte desta discussão é sustentada por estudos do projeto EUDENTIFY, desenvolvido na Universidade de Amesterdão. A equipa propôs uma nova forma de quantificar a identidade europeia, cruzando informação de 28 países ao longo de 50 anos.

Um eurobarómetro especial de 2021 ajuda a perceber a complexidade do tema: na Hungria, 76% das pessoas afirmam sentir-se europeias, e na Eslováquia 75% - dois dos valores mais elevados em toda a UE. Ao mesmo tempo, a identificação com a nação continua fortíssima nesses países: 87% dos húngaros e 85% dos eslovacos dizem reconhecer-se intensamente na sua nacionalidade. E, apesar de ambos terem tido durante anos - 16 anos, no caso da Hungria - líderes de Governo e de Estado muito críticos das instituições europeias, isso não se traduziu numa população menos europeísta.

A conclusão central do estudo aponta para um crescimento contínuo da identidade europeia na última década, mesmo num período marcado por grandes abalos: crise da dívida soberana, crise dos refugiados, Brexit e pandemia. Num contexto em que as crises deixaram de ser episódios isolados e passaram a ser uma constante (pelo menos na forma como percebemos o mundo de hoje), este cenário de “policrises” não alterou, no essencial, a ligação dos europeus ao continente e à comunidade a que pertencem.

Entre pertença e política: União Europeia, soberanias e eurocepticismo

A ideia de que estamos ligados a um destino partilhado - do qual não conseguimos sair individualmente e que também não conseguimos enfrentar sozinhos - não significa, contudo, que a União Europeia seja vista como o centro de todas as escolhas. Pelo contrário: também cresce o sentimento de pertença à nacionalidade. E, mesmo que já não exista uma narrativa política dominante a defender a saída da UE, há um impulso de reforço das soberanias nacionais que encontra eco em muitos europeus.

Identidade europeia e apoio à UE caminham próximos, mas não se confundem. É possível sentir-se europeu e, ainda assim, manter uma postura céptica face às instituições; e também pode acontecer o inverso. Para Henrique Burnay, consultor europeu e convidado deste episódio, “o ponto mais interessante da investigação é o facto de a identidade europeia não implicar necessariamente uma opinião positiva sobre a UE”, porque, acrescenta, “isso contraria uma convicção que a própria União Europeia tende a ter sobre si mesma: a ideia de que sentir pertença europeia equivale a tecer loas à União. Eu diria precisamente o contrário: seremos mais europeus se questionarmos, discordarmos e pusermos em causa”.

Ainda assim, há sinais de fronteiras identitárias mais fechadas. Num estudo realizado na Alemanha - que ainda não é público, mas que a coordenadora do projeto, Theresa Kuhn, enviou ao Expresso - uma fatia relevante de cidadãos alemães considera que características como “ser muçulmano” ou “não ter nascido aqui” são factores que, na sua ótica, “desqualificam” alguém de ser europeu. Apesar de estes resultados não poderem ser automaticamente generalizados aos restantes Estados-membros da UE (e ao Reino Unido, que também é analisado), apontam para o aparecimento de uma comunidade que procura proteger-se do que vem de fora.

O retrato fica ainda mais nítido quando se olham as diferenças regionais. Na Europa Ocidental, a Alemanha é o país com maior aumento de identidade europeia desde o final dos anos 90, enquanto a França - apesar de ser um Estado fundador - regista hoje o nível mais baixo do grupo. No Sul da Europa, Portugal e Espanha mostram um crescimento expressivo, ao passo que Grécia e Itália ficam em estagnação. Nos países bálticos, observa-se uma convergência marcante e uma evolução positiva desde a adesão à UE em 2004. Já na Europa Central surge talvez o dado mais inesperado: Hungria e Polónia, governadas por forças nacionalistas durante grande parte dos anos 2010, apresentam níveis de identificação europeia consistentemente acima da média e em ascensão.

O estudo termina com um aparente paradoxo: o aumento do eurocepticismo político e dos partidos nacionalistas não anda necessariamente a par de uma diminuição da identidade europeia entre os cidadãos. Os autores admitem que o eurocepticismo se aproxima mais de um mecanismo de mobilização partidária do que de um declínio real na identificação europeia; partidos eurocépticos tendem a ser mais eficazes a mobilizar eleitores com propostas “do contra”, enquanto o apoio ao projeto europeu se distribui pelos partidos tradicionais. “Na discussão política diária, nós assistimos muitas vezes, às vezes até às mesmas pessoas, a queixarem-se, de manhã, que a União Europeia não tem importância no mundo, e à tarde queixarem se que a União Europeia manda demais e tem demasiado poder. Ora bem, é uma e outra coisa”, argumenta Burnay, que tem família cipriota e escocesa e de muitos outros lugares.

O Mundo a Seus Pés é o podcast semanal da secção internacional do Expresso. A condução do debate é rotativa entre os jornalistas Ana França, Hélder Gomes, Mara Tribuna, Pedro Cordeiro e Catarina Maldonado Vasconcelos. Subscreva e ouça mais episódios.

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