A IA pode ser lida como o ponto alto da racionalização weberiana - eficiência, previsibilidade e lógica instrumental - mas, ao mesmo tempo, coloca em risco aquilo que essa racionalização dizia proteger: a autonomia humana. Campolo e Crawford descrevem este fenómeno como "determinismo encantado": um vocabulário quase mágico que trata os algoritmos como entidades sobre-humanas e, em paralelo, blinda os seus criadores contra a responsabilização. Também não é coincidência que dirigentes das grandes tecnológicas procurem proximidade com a administração Trump - só regimes autocráticos conseguem administrar uma fratura social em que algoritmos passam a substituir, a grande velocidade, o trabalho humano.
A corrida à inteligência artificial geral (AGI) e o "determinismo encantado"
Na base desta narrativa está a convicção de que vivemos uma corrida para chegar à inteligência artificial geral (AGI). É esta ambição que dá coerência ao discurso e ao volume de investimento - incluindo a tese de que regular a IA seria, na prática, oferecer vantagem a regimes autocráticos. A OpenAI define AGI como "sistemas autónomos inteligentes capazes de superar os humanos em qualquer trabalho de valor económico". O ponto determinante, nesta formulação, é a promessa de substituição do trabalho humano por ganhos económicos.
Sustento uma leitura alternativa, a que chamei "desencantamento produtivo": encarar os sistemas de IA como ferramentas de ampliação das capacidades humanas, e não como mecanismos de substituição. Para perceber o que isto exige no terreno, compensa olhar para as últimas três décadas da computação. Em cada grande vaga tecnológica repetiu-se um guião semelhante: um primeiro momento de entusiasmo, seguido de uma concentração pesada de investimento em infraestrutura e, depois, um intervalo longo em que a transformação efetiva apareceu sobretudo através de empresas que não tinham construído essa infraestrutura, mas entenderam como ela iria reorganizar o trabalho, os negócios e a vida social.
O padrão das vagas tecnológicas: computador pessoal, internet e móvel
O computador pessoal é o caso mais analisado. Anunciou-se um escritório sem papel; aconteceu precisamente o inverso. A digitalização do trabalho, durante duas décadas, fez crescer o uso de papel, porque os fluxos organizacionais resistiram a mudanças profundas e porque as metáforas do mundo físico se mantiveram. Ainda hoje trabalhamos numa "secretária" e continuamos a "guardar" ficheiros em "pastas". O paradoxo de Solow - o economista que, nos anos 80, observou que "os computadores estão em todo o lado, menos nas estatísticas de produtividade" - mostrou que o potencial de uma tecnologia de uso geral não se traduz automaticamente em ganhos económicos. Para que isso aconteça, é preciso tempo, reorganização estrutural e o aparecimento de práticas novas, cujo enraizamento pode demorar gerações.
Com a internet, a mesma lógica reapareceu, mas com mais rapidez e mais ruído. Nem os primeiros browsers nem os primeiros sítios na internet deram origem às empresas que hoje comandam a economia digital. A Netscape abriu caminho; foi o Google que converteu a procura de informação num negócio global. O Facebook não inventou as redes sociais - construiu por cima do que a Friendster e o MySpace tinham ensaiado. E quem liderou a vaga não foi quem mais gastou em infraestrutura de rede, mas sim quem percebeu como a conectividade universal alteraria comportamentos, a economia da partilha e da atenção e, por fim, a política.
O ciclo repetiu-se novamente com a computação móvel. A Nokia e a Ericsson controlavam o mercado europeu e tinham consigo infraestrutura, tecnologia e patentes. Ainda assim, perderam a dianteira para a Apple, que não construía redes nem fabricava microprocessadores móveis, mas percebeu que o smartphone era, acima de tudo, uma plataforma para distribuir serviços. O iPhone chegou acompanhado por um sistema operativo desenhado para o utilizador móvel, por uma loja de aplicações que gerou um ecossistema e por um modelo de negócio que retirou aos operadores de comunicações o comando da distribuição. A Europa tinha a infraestrutura - e falhou a oportunidade, como já tinha falhado na primeira vaga, com a Olivetti, a Sinclair e a Acorn (que criou o chip ARM); como na segunda, com o Minitel (a internet fechada francesa); e até na atual, com a DeepMind (nascida no Reino Unido e comprada pela Google).
Hoje estamos num instante fundador comparável ao MacOS original, ao Netscape Navigator ou ao Nokia 3210. Os modelos de linguagem já existem; o investimento em infraestrutura é gigantesco e encontra-se concentrado nos Estados Unidos e na China; e o hype sustenta a ideia de que o futuro da IA será decidido pela AGI alcançada por uma destas potências. O que continua em aberto é quem vai compreender de que forma esta tecnologia muda, de facto, o trabalho, os serviços públicos e o quotidiano - e quem conseguirá construir os produtos e serviços que acompanham a adoção real, nas empresas e no setor público.
IA na Europa: a opção por IA pró-trabalho, responsabilidade e serviços públicos
É neste ponto que a Europa enfrenta uma decisão estratégica - e não uma desvantagem mascarada. Não tem como competir em infraestrutura: treinar modelos fundamentais requer escalas de capital e práticas extrativas que estão fora do alcance europeu e entram em choque frontal com os seus princípios. Ainda assim, vários Prémios Nobel da Economia têm vindo a desmontar a ideia de inevitabilidade desta corrida. Por um lado, Krugman argumenta que a suposta hegemonia tecnológica americana resulta de uma aliança de conveniência entre Big Tech e a administração Trump. Por outro, Acemoglu aponta um rumo de IA pró-trabalho - sistemas que expandem capacidades humanas, distribuem os ganhos de produtividade e mantêm o trabalhador no centro do processo. É aqui que reside a vantagem europeia: não em replicar o padrão de "destruição criativa" de Silicon Valley, mas em conceber a IA que a sua base industrial diversificada, a negociação coletiva e a regulação democrática tornam possível.
Cada uma destas condições tem expressão institucional concreta. Os sistemas de proteção social tornam politicamente insustentável a disrupção massiva do emprego que os defensores da AGI tomam como inevitável, mas que é improvável e insustentável. O AI Act cria um enquadramento de responsabilidade que os concorrentes rejeitam por princípio. As empresas e instituições europeias detêm conhecimento de domínio e contexto cultural que modelos generalistas treinados em Washington ou em Pequim não conseguem reproduzir à distância. E há ainda um quarto terreno decisivo - os serviços públicos: saúde, educação, administração, energia e mobilidade - onde a IA pode aumentar a capacidade do modelo social europeu, em vez de o esvaziar.
Para a Europa, apostar na AGI é entrar numa corrida que já perdeu antes de começar. Já apostar numa IA responsável, centrada nos trabalhadores e ancorada em valores europeus é uma corrida que ninguém ganhou. Tal como a Apple percebeu com o iPhone, a infraestrutura não é o produto - o produto é aquilo que se constrói em cima dela: práticas, serviços e modelos de organização que tornam a tecnologia útil na vida das pessoas e das instituições. O desencantamento produtivo não é dirigismo tecnológico nem proteccionismo defensivo: é tratar a IA como ferramenta industrial e cívica europeia, e não como um destino importado de Silicon Valley. É criar mercado, indústria e serviço público sobre a tecnologia - com regras que os europeus reconhecem como suas. É a única corrida em que a Europa parte na frente.
Nuno Jardim Nunes, Professor Catedrático – Instituto Superior Técnico
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