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Valeria Golino recorda Goliarda Sapienza em "Fuori"

Grupo de mulheres com toalhas numa sauna, conversando e sorrindo num ambiente acolhedor.

Valeria Golino interpreta a escritora e feminista italiana em "Fuori", já em cartaz. Em entrevista ao JN, a atriz admite a admiração por esta figura histórica do feminismo, que conheceu quando tinha 18 anos.

Personalidade singular da cultura e da vida política italiana do século XX, dotada de um espírito indomável e insubmisso - e sem sequer ter chegado a assistir à edição do seu livro mais marcante, "A arte da alegria" -, Goliarda Sapienza (1924-1996) é o eixo do filme "Fuori", de Mario Martone, apresentado no último Festival de Cannes e agora em exibição.

O filme foca-se na fase em que Sapienza esteve presa e na ligação intensa que criou com um grupo de mulheres - uma relação que continuaria já cá fora. A escritora é interpretada por Valeria Golino, que, pouco antes, tinha adaptado precisamente "A arte da alegria" para televisão.

Como é que criou a química com o grupo de outras atrizes do filme, que se sente de maneira tão forte?

A minha muito famosa heterossexualidade quase teve dúvidas [riso]. Pela primeira vez na minha vida pensei duas vezes. Mesmo o Mario Martone ficava a olhar para nós e às vezes até se zangava connosco.

Essa intimidade sente-se muito bem na cena do banho, que tem sido muito criticada...

São três mulheres a tomar banho. E quando tomam banho estão nuas. É isso. Não tem nada de voyeurístico. É uma imagem muito forte. Não gosto muito de ver o meu corpo assim, mas como artista, ver uma mulher de certa idade nua, tem um significado. E estou orgulhosa dessa cena. Estou nua, estou a beber um uísque, venham daí [riso]!

Quando é que descobriu a obra da Goliarda Sapienza?

Cruzei-me com ela quando tinha 18 anos. Durante alguns meses, via-a duas vezes por semana. Era minha professora de interpretação; eu estava a trabalhar com o realizador Francesco Maselli, ex-marido dela. Ele pediu-lhe que me ajudasse a perder o meu sotaque napolitano. Ela era de Catânia, ainda mais a sul do que eu. Eu sou de Nápoles e tinha de fazer de romana; por isso, ela tinha de me tirar o sotaque napolitano - coisa que, provavelmente, conseguiu.

Foi antes ou depois dos acontecimentos que vemos no filme?

Conheci-a em 1985 e ela tinha estado na prisão em 1979 ou 80. E só mais tarde é que li "A arte da alegria".

E todos estes anos depois fez a série...

Sim, ao todo, estive quatro anos a trabalhar na série. Assim que terminou, fiz o filme e agora estou aqui em Cannes. É uma espécie de perseguição, digo eu.

Que ligação há entre as duas produções?

Não existe uma ligação direta. Quando eu filmava a série, o Mario Martone não apareceu. Ele só viu a série 15 dias antes de começarmos a rodar. A série não é sobre a Goliarda; é sobre uma personagem inventada, a Modesta. Ela não é um bom exemplo de mulher, e essa foi uma das razões pelas quais eu quis fazê-la.

Quando conheceu a Goliarda, já tinha ouvido falar do manuscrito não publicado?

O romance só viria a ser publicado em Itália em 2008. Eu sabia que ela o estava a escrever, mas não sabia grande coisa, porque não tinha curiosidade suficiente. Tinha 18 anos. Ela, pelo contrário, é que tinha curiosidade por mim - uma miúda jovem, cheia de caracóis... Fazia-me perguntas o tempo todo. Se eu soubesse na altura... Mas aos 18 anos estás com a cabeça noutras coisas. Eu pensava: que senhora tão querida, como é simpática comigo, como fumava tanto, como eu agora...

Todos os homens no filme são simpáticos e agradáveis. Tem a ver com a personalidade dela?

A Goliarda gostava de homens. Era feminista sem ser ativista. Não odiava homens. Isso agrada-me muito na escrita dela. A relação mais importante que teve ao longo da vida foi com um homem. Ela não tinha aquele desprezo pelos homens que, por vezes, encontramos em feministas. Na ideologia feminista há uma espécie de ódio; nela, não. É curioso como está a favor das mulheres, sem estar contra os homens.

É curioso o filme centrar-se sobretudo naquele período da vida da Goliarda. Por que foi?

O nosso filme mostra um instante de felicidade na vida dela, apesar de tudo. Uma felicidade íntima. Havia nela uma certa plenitude, mesmo com a Goliarda sem dinheiro, depois de ter passado pela prisão, rejeitada pela sociedade e dependente de drogas.

O que diria à Goliarda hoje?

Ainda gostas de mim? Tens orgulho em mim? Seria algo de muito íntimo. E perguntaria: estás feliz por finalmente te verem?

Que trabalho fez para se colar à sua personalidade?

Não procurei imitá-la. Trago-a a partir das minhas memórias. Não tenho o dom de imitar, como outros atores. Mas sei que há detalhes - a forma como ela andava, mexia as mãos, ria - que não são meus; são dela.

Como é que foi voltar aos anos 80?

Algumas das roupas que usei eram mesmo dela. E filmámos no apartamento onde ela viveu. Imagine: voltei lá 40 anos depois! O marido dela ainda mora lá. O nosso diretor artístico alterou-o um pouco, para ficar parecido com o que era na época. Para o marido, ver o filme foi comovente. Disse-me que o toquei profundamente - e isso basta-me.


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