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Expansão portuguesa: política de memória e educação histórica

Professor aponta para mapa histórico com rotas e alunos prestam atenção em sala de aula com globo e material.

A maneira como uma comunidade se relaciona com o seu passado revela tanto o que ela foi como aquilo que ambiciona tornar-se. Em Portugal, a expansão marítima continua frequentemente encaixada entre duas narrativas opostas: a glorificação épica de uma “gesta” civilizadora e a condenação de uma “história envergonhada” atravessada pela violência colonial e pela escravatura. Esta oposição empobrece a discussão pública e, acima de tudo, influencia a política de memória e a forma como a História é ensinada nas escolas.

A investigação historiográfica mais recente tem vindo a desfazer essas leituras demasiado lineares.

Para lá da dicotomia na expansão portuguesa

A expansão portuguesa - muitas vezes simbolicamente localizada na Conquista de Ceuta - deve ser entendida como um percurso histórico multifacetado. Articulou inovação técnica, circulação de conhecimentos e abertura de rotas à escala global com práticas de dominação, exploração e violência. As viagens de Vasco da Gama ou de Fernão de Magalhães pertencem, em simultâneo, à história da ciência e da globalização e à história da imposição de hierarquias raciais e económicas.

Importa, porém, acrescentar um aspeto que tende a ser secundarizado no debate público: o incremento de trocas comerciais e culturais que não se esgota na lógica da escravatura. A expansão portuguesa contribuiu para densificar circuitos de comércio de especiarias, têxteis, metais e produtos agrícolas entre a Europa, África e Ásia, e muitos desses circuitos assentaram em negociação, parceria e adaptação às realidades locais.

Em diversos cenários - do Índico ao Sudeste Asiático - os portugueses entraram em redes comerciais que já funcionavam, estabelecendo vínculos com mercadores árabes, indianos ou chineses. Em paralelo, verificou-se circulação de saberes botânicos, médicos e cartográficos, bem como de práticas religiosas, linguísticas e artísticas. Mesmo inscritos em relações de poder assimétricas, estes processos não podem ser comprimidos numa narrativa exclusivamente centrada na violência.

Política de memória em Portugal: o que se lembra e o que se cala

A questão não reside apenas no que aconteceu, mas também no modo como esse passado é organizado no presente. A política de memória - isto é, o conjunto de escolhas públicas sobre o que lembrar, de que maneira lembrar e o que deixar na sombra - tem sido, em Portugal, relativamente discreta e, por vezes, evasiva. Monumentos, museus e comemorações permanecem muitas vezes presos a um registo celebratório, enquanto dimensões mais negras, como o tráfico Atlântico de escravos ou a violência colonial, aparecem periféricas ou tratadas de forma abstrata.

Não está em causa “trocar” uma memória por outra, nem enveredar por um revisionismo punitivo. O objetivo é, antes, construir uma memória pública mais completa, capaz de reconhecer em simultâneo os contributos e os custos humanos da expansão. Países como o Reino Unido, a França ou a Bélgica - apesar de conflitos e hesitações - têm vindo a enfrentar debates públicos mais intensos sobre o passado imperial, incluindo revisões de estátuas, criação de novos museus e reformulação de narrativas nacionais. Portugal continua, em grande medida, instalado numa zona de conforto no plano memorial.

Educação histórica: currículos, professores e espaço público

É aqui que a educação escolar se torna determinante.

Em muitos casos, os currículos de História continuam a reproduzir uma visão linear e nacionalista, mais centrada em feitos e protagonistas e menos atenta às experiências das populações colonizadas, às dinâmicas de resistência e às consequências de longo prazo do colonialismo. A expansão surge frequentemente ensinada como uma sequência de “descobertas”, uma linguagem que, para além de eurocêntrica, tende a apagar mundos já existentes e as relações de poder que se foram estabelecendo.

Alterar este quadro não significa abdicar de rigor nem baixar a exigência científica. Pelo contrário, pede uma aproximação do ensino às melhores práticas da historiografia contemporânea. Isso implica incorporar perspetivas múltiplas - europeias, africanas, americanas e asiáticas -, trabalhar com diferentes tipos de fontes e estimular o pensamento crítico dos alunos. Mais do que fixar datas e nomes, trata-se de compreender processos, conflitos e dilemas.

Uma pedagogia orientada para a complexidade pode, por exemplo, abordar ao mesmo tempo os progressos na cartografia e na navegação, a ampliação das trocas comerciais lícitas e das interações culturais, e o papel de Portugal na economia escravista global; discutir a difusão da língua portuguesa e, em simultâneo, os mecanismos de imposição cultural; examinar redes comerciais e, em paralelo, as formas de resistência, negociação e hibridação cultural das populações locais. Uma abordagem deste tipo não fragiliza a identidade nacional - torna-a mais adulta e consciente.

A política de memória e a educação encontram-se também na formação de professores. Sem um investimento consistente na atualização científica e pedagógica dos docentes, qualquer reforma curricular arrisca ficar confinada ao papel. É indispensável criar condições para que os professores acedam à investigação mais recente, disponham de materiais didáticos diversificados e encontrem espaços de reflexão crítica. A escola não pode continuar a ser o último refúgio de narrativas ultrapassadas.

Outro eixo decisivo é o espaço público. Museus, exposições e projetos culturais podem funcionar como prolongamentos do currículo, oferecendo experiências que contrariem leituras simplistas do passado. Iniciativas que integrem testemunhos, objetos e narrativas de origens diversas ajudam a produzir uma memória mais inclusiva e dialogante. A História deixa, assim, de ser apenas matéria escolar para se tornar um terreno de debate cívico.

Colocar a expansão portuguesa “nos termos certos” exige, portanto, um movimento duplo. Por um lado, reconhecer o papel de Portugal na criação de ligações globais, no adensamento de trocas comerciais e culturais e na circulação de saberes. Por outro, assumir sem ambiguidades a centralidade da escravatura, do colonialismo e da violência dentro desse mesmo processo. Não existe uma síntese confortável entre estes polos - existe, sim, a necessidade de os pensar em conjunto.

Num tempo em que as democracias lidam com a polarização e com a manipulação do passado, a forma como ensinamos e lembramos a História torna-se uma questão política de primeira ordem. Entre a epopeia e o silêncio, há um caminho mais exigente: o de uma memória crítica, informada e plural. É esse o percurso que a escola portuguesa é chamada a seguir.

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