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Leitura de “Esta Coisa da Vida não É Fácil: Memórias Inconvenientes de Um Diplomata de Carreira”, de José de Bouza Serrano

Mesa de madeira com livro aberto, óculos, passaporte, medalhas, bilhete de voo e tigela de snacks.

Diplomacia e memórias: um interesse antigo

Desde sempre que a diplomacia me desperta curiosidade. Não sei se teria o tal ‘poder de encaixe’ para uma profissão cheia de zonas cinzentas, de “disse e afirmei”, mas afinal não disse, nem afirmei. E ainda menos para a obrigação de sustentar orientações e ordens políticas que, como a experiência diplomática tantas vezes demonstra, acabam por não correr bem.

Como observa o autor do livro de que vou falar, os diplomatas acabam, não raras vezes, por colar os cacos que os políticos deixam para trás...

Infelizmente, ao contrário do que é comum entre anglo-saxónicos, são poucos os diplomatas portugueses que publicam livros sobre o que fizeram e sobre o que viveram. Uns por simples inércia; outros por uma discrição quase instintiva.

Ainda assim, lembro dois exemplos de que gostei particularmente: o embaixador Marcello Duarte Mathias, com obra vasta - um verdadeiro escritor-diplomata - e o embaixador Seixas da Costa, na notável obra “Antes que Me Esqueça”.

O livro de José de Bouza Serrano: “Esta Coisa da Vida não É Fácil: Memórias Inconvenientes de Um Diplomata de Carreira”

O embaixador José de Bouza Serrano acaba de lançar um livro de recordações que percorre uma longa vida na carreira diplomática. Chama-se “Esta Coisa da Vida não É Fácil: Memórias Inconvenientes de Um Diplomata de Carreira”.

Tendo feito toda a sua trajetória em monarquias e assumindo-se como monárquico ao serviço da República, conduz-nos para dentro de círculos aristocráticos: alguns sustentados por pergaminhos antigos; outros, pelo contrário, numa busca quase desesperada por os obter.

Entre a diplomacia e o mundo social: festas, casamentos e bastidores

O resultado é um livro com muito mais matéria social do que propriamente diplomática. Passamos por festas, fins de semana e casamentos, sempre narrados com um humor muito afinado e uma escrita segura. As histórias que conta tanto podem ser hilariantes como francamente picantes.

Uma das passagens mais detalhadas descreve um casamento em Sintra, conduzido por um bispo, entre noivos tidos como exemplares - ainda que o autor não esclareça se terão guardado a castidade até ao enlace. Chegado o momento de cortar o bolo, o noivo (já marido) desaparece. A urgência agravava-se: o senhor bispo tinha outros atos litúrgicos para cumprir. A mãe do noivo, impaciente, pede ao irmão que vá procurá-lo. Num pavilhão contíguo ao edifício principal da quinta, o irmão ouve ruídos e insiste à porta de uma casa de banho. Lá dentro, sob o duche, estavam o noivo, o próprio irmão e o padrinho de casamento, envolvidos numa relação muito quente. O choque foi enorme: além de tudo o resto, o padrinho do seu irmão era, afinal, o seu amante clandestino...

Esta é, talvez, uma das narrativas mais duras do livro. O autor não chega a dizer se a família era ativamente homofóbica, mas não me surpreenderia que o fosse.

Noutra passagem, bem mais cómica, surge uma americana, esposa de um diplomata, intrigada com a quantidade de medalhas que o nosso autor ostentava na casaca em cerimónias oficiais - como é tradicional na Europa. Em momentos diferentes, volta e meia perguntava-lhe por que razão o marido não usava nenhuma e ele aparecia com tantas. Bouza Serrano respondeu-lhe, com paciência, repetidas vezes, que nos EUA, após a independência do Reino Unido, não era permitido usá-las. A pergunta, no entanto, continuou a regressar, até que o embaixador lhe deu uma explicação que a deixou sem reação.

"Sabe, senhora embaixatriz, existem uns Kellogg's especiais para diplomatas, que lá dentro trazem estas condecorações que vou colecionando e, assim, cobrindo a minha casaca." Nunca mais ela voltou a manifestar incredulidade - ou inveja - por o marido não ter nenhuma.

Talvez o capítulo mais divertido seja o que descreve uma breve passagem do Presidente Marcelo pela sala VIP do Aeroporto de Schiphol. Um espaço naturalmente reservado à família real neerlandesa e cujas paredes estavam cheias de fotografias dos seus membros. Depois de observar a disposição das imagens, o Presidente decide reorganizá-las: tira-as do lugar e volta a pendurá-las por uma ordem diferente, que, segundo ele, respeitava a genealogia da casa real. O seu domínio da história era irrepreensível, incluindo filhos bastardos e escândalos financeiros em que alguns estiveram envolvidos. Tudo isto perante a expressão atónita do nosso embaixador e dos funcionários da sala. Como escreve o autor, foi um novo curador daquela sala VIP.

E há ainda aquele momento - como lhe comentou um colega - em que o diplomata se senta no banco de trás de uma limusina e já não existe motorista. Ou, como diz Bouza Serrano, “vivemos entre móveis do século XVIII, quadros autênticos, mordomos e tudo acaba com um tabuleiro a ver televisão”.

Vale a pena ler esta obra, a que eu chamaria ‘Atrás do Reposteiro’. Num país tantas vezes tão cinzento como o nosso, raramente temos a oportunidade de acompanhar memórias divertidas de um alto funcionário da República Portuguesa.

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