A despesa do Serviço Nacional de Saúde (SNS) com medicamentos continua em trajetória ascendente e, em 2025, voltou a marcar um máximo histórico: 4.417 milhões de euros. Este montante traduz um crescimento superior a 60% face a 2020, o ano em que a pandemia chegou a Portugal, confirmando a subida sustentada da fatura pública na saúde.
De acordo com os relatórios do Infarmed consultados pela Lusa, o SNS contabilizou em 2025 um total de 2.523,2 milhões de euros em medicamentos hospitalares e 1.893,8 milhões de euros na comparticipação de fármacos em ambulatório.
SNS e medicamentos hospitalares: os principais motores de despesa
Desde o período da pandemia, o gasto hospitalar com medicamentos tem vindo a crescer sempre em ritmo de dois dígitos. Em 2020, a despesa nos hospitais era de 1.399,2 milhões de euros; em 2021 passou para 1.571 milhões (+12,3%); em 2022 atingiu 1.762,1 milhões (+12,1%); em 2023 subiu para 1.959 milhões (+11,2%); e em 2024 verificou-se uma subida particularmente elevada de 15,8%, fixando-se em 2.269,2 milhões de euros.
Já nos primeiros três meses deste ano, o gasto hospitalar chegou a 693,4 milhões de euros, mais 7,6% do que no mesmo período do ano anterior.
O Infarmed relaciona este aumento de custos sobretudo com a disponibilização de terapêuticas inovadoras, muitas vezes orientadas para doenças de elevada complexidade, como situações oncológicas ou patologias raras.
A oncologia mantém-se como a rubrica mais pesada na despesa hospitalar com medicamentos. Em 2025, os encargos nesta área alcançaram 864,5 milhões de euros, mais 16% do que no ano anterior, o que corresponde a cerca de 34% da despesa total hospitalar com medicamentos.
Em seguida surgem os medicamentos dirigidos ao VIH, com 238,2 milhões de euros, e os fármacos destinados ao tratamento da artrite reumatóide e da psoríase, com 186,5 milhões de euros.
Os medicamentos órfãos, indicados para doenças raras, continuam igualmente a pressionar os custos do SNS: nesta componente, a despesa aumentou 34,1%, atingindo 465 milhões de euros.
Entre as classes terapêuticas utilizadas em meio hospitalar, os imunomoduladores - fármacos que modificam a resposta do sistema imunitário - foram os que mais contribuíram para o aumento absoluto da despesa, seguindo-se os citotóxicos usados em oncologia e os medicamentos com ação no sistema nervoso central.
As vacinas apresentaram a maior subida percentual, com um aumento de 69,8%, atingindo 85,5 milhões de euros.
Comparticipações em ambulatório e padrões de consumo
A despesa do SNS com medicamentos comparticipados fora do hospital também registou uma forte subida. Em 2025, o Estado gastou 1.893,8 milhões de euros em comparticipações no ambulatório, mais 12,4% do que no ano anterior.
No conjunto do ano, foram disponibilizadas 203,9 milhões de embalagens de medicamentos.
Os antidiabéticos continuam a concentrar o maior volume de encargos do SNS nesta vertente, totalizando quase 478,9 milhões de euros em comparticipações, o que representa uma subida de 14,7% face a 2024.
No detalhe por substância ativa, foi o Apixabano - utilizado na prevenção de coágulos sanguíneos - que evidenciou o maior crescimento da despesa, com um aumento de 70,9% para 66,6 milhões de euros.
Quanto ao consumo em ambulatório, os antidislipidémicos, usados no tratamento de colesterol e triglicéridos elevados, permanecem como a classe terapêutica mais utilizada. Em 2025, foram dispensadas mais de 21,3 milhões de embalagens destes medicamentos.
A atorvastatina destacou-se como a substância ativa mais consumida no país, com mais de 8,5 milhões de embalagens dispensadas, seguida do paracetamol, do bisoprolol (usado na hipertensão arterial) e da metformina (indicada para a diabetes).
Famílias, genéricos/biossimilares e distribuição da despesa por ULS
O aumento dos custos não se limitou ao SNS. As famílias portuguesas gastaram mais de 966 milhões de euros em medicamentos no ano passado, um aumento de 4,9% face a 2024.
Segundo o Infarmed, os utentes desembolsaram mais 45,4 milhões de euros do que no ano anterior. Só no primeiro trimestre deste ano, a despesa das famílias já superou os 243 milhões de euros.
Ainda assim, o valor médio pago pelo utente por embalagem recuou ligeiramente, fixando-se em 4,67 euros nos primeiros três meses do ano.
O Infarmed assinala igualmente a subida da quota dos medicamentos genéricos, que chegou a 50,9% no ambulatório e a 63,7% nos segmentos em que existem alternativas genéricas comercializadas, reforçando a sua relevância para a sustentabilidade financeira do SNS.
Nos hospitais, a quota dos biossimilares - versões semelhantes de medicamentos biológicos cuja patente expirou - situou-se em 53,8%.
A Unidade Local de Saúde Santa Maria, em Lisboa, foi a que registou maior despesa com medicamentos em 2025, totalizando 304,9 milhões de euros.
Seguiram-se a ULS de Coimbra, com 235,9 milhões, e a ULS São João, no Porto, com 223,4 milhões de euros.
Por tipo de prestação, a consulta externa e os produtos cedidos ao exterior concentraram a maior parcela do gasto hospitalar, com mais de 1.076 milhões de euros, ficando depois o hospital de dia e o internamento.
Mesmo assim, os cuidados de saúde primários foram a área que mais cresceu em termos percentuais, ao registarem uma subida de 66,5%.
No capítulo dos dispositivos médicos, o Infarmed realça ainda o novo regime de comparticipação das bombas de insulina, que passaram em 2025 a ser financiadas a 100% pelo Estado quando destinadas a utentes do SNS e dispensadas em farmácia comunitária.
Apesar da subida expressiva da despesa, o regulador salienta que uma parte relevante deste aumento está associada ao acesso a terapêuticas inovadoras e mais eficazes, sobretudo no contexto de doenças graves e complexas.
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