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Cannes: “Paper Tiger”, “Hope” e ecos do mercado

Homem de fato preto e laço segurando papel com título "Paper Tiger" em evento junto ao mar e pessoas ao fundo.

Cannes: “Paper Tiger”, de James Gray

A narrativa acompanha dois irmãos que se estimam e que montam um esquema para fazer dinheiro à custa de “investidores” russos. James Gray volta, como é habitual, ao seu território: está essencialmente a filmar outra vez o mesmo filme - e há nessa insistência uma espécie de nobreza solitária. Regressam as dinâmicas familiares, o ar e a atmosfera da Nova Iorque onde cresceu, e também as ressonâncias íntimas: tal como acontece com a matriarca interpretada por Scarlett Johansson, a mãe do realizador morreu de um tumor cerebral.

Paper Tiger” exibe uma espessura atmosférica rara e, por momentos, entrega cinema em estado puro: vê-se um autor a construir cenas com precisão milimétrica, quase sempre amarradas a um suspense muito próprio. Em simultâneo, funciona como um thriller à moda antiga, com tensão carregada ao limite, sustentado pelo cerimonial melancólico que marca o seu cinema. Pelos corredores de Cannes, já corre a ideia de que Adam Driver poderá entrar na temporada de prémios - embora ainda seja cedo para antecipar esse percurso. Nos Estados Unidos, o filme continua sem distribuidor, ao contrário de Portugal. O mercado gosta destes paradoxos.

“Hope”: superprodução sul-coreana entre terror, ficção científica e comédia

A surpresa total veio da Coreia do Sul: “Hope”, um filme de género que cruza terror, ficção científica e comédia. Na Hong-jin assina uma superprodução cheia de efeitos visuais e de irrisão radical sobre aquilo que vemos e sentimos. É um OVNI cinematográfico que nos mergulha nas emoções de fuga perante um alegado ataque de monstros gigantes, ultra-rápidos - mais adiante, percebemos que afinal são extraterrestres a retaliar pela morte de um dos seus bebés.

Talvez seja o “Sirat” deste ano, ainda que com maior polarização. Há quem não perdoe a audácia do festival por colocar “isto” na competição. Outros ficam boquiabertos com as novas descargas de adrenalina que este espetáculo de bizarria faustosa consegue provocar. No fundo, “Hope” representa precisamente aquilo que Hollywood já não consegue entregar quando se trata de grande espetáculo.

Outros destaques desta edição de Cannes

O fim de semana também se revelou fértil em cinema de altíssima qualidade. Se, no ano passado, títulos como “Valor Sentimental” e “O Agente Secreto” mantiveram tração durante muitos e muitos meses, esta edição está a assegurar um número ainda maior de filmes com potencial de impacto semelhante. “El Ser Querido”, de Rodrigo Sorogoyen, é um desses casos: um olhar curioso sobre relações humanas complexas dentro de um set de cinema. É uma teia trabalhosa e reflexiva sobre a fronteira entre a vida real e a “vida em cinema”.

Ainda mais extraordinário é “Moulin”, de László Nemes, centrado em Jean Moulin, herói da Resistência francesa durante a ocupação nazi, e na sua captura pela Gestapo. Um cinema de câmara de elegância “escandalosa”. Uma meditação imponente sobre o mal, que vai ainda mais longe do que “Filho de Saul”, do mesmo realizador húngaro.

Frase do dia

“Cannes é um começo surreal. Não consigo imaginar um lançamento maior para o percurso de ‘Lúcido’ pelo mundo"

Vier, cineasta de “Lúcido”, curta de animação em competição na Cannes Immersive

Ecos do Mercado

As biografias cinematográficas continuam a “invadir” o mercado. O êxito de “Michael”, a biografia demasiado autorizada de Michael Jackson, deverá abrir caminho a ainda mais acordos de distribuição e venda. Nesse capítulo, já há quem esteja a negociar o documentário de Paolo Sorrentino sobre Carlo Ancelotti, o selecionador do Brasil. Joan Collins, a atriz que parece não envelhecer, também subiu as escadas do Palais para dar uma ajuda às vendas de um projeto em fase de finalização: “My Duchess”, de Mike Newell, sobre a Duquesa de Windsor, Wallis Simpson, a mulher que levou um príncipe a abdicar do trono.

De Paul Simon não deverá surgir propriamente uma biografia, mas sim uma possibilidade de ficção sobre os bastidores da gravação de “Graceland”, a sua obra-prima. “The Road Home” tem Bill Condon (“O Beijo da Mulher Aranha”) na realização. Já Agatha Christie será alvo de investigação em “11 Days Missing”, de Bertie Ellwood, com Felicity Jones a interpretar a escritora, e com a ação centrada num detetive belga chamado para tentar descobrir o paradeiro da autora, desaparecida durante 11 dias. Vincent Cassel encarna o detetive que terá inspirado a criação de Poirot.

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